A caixa de meu pai – Crônica por Charlie Rayné

Enquanto meu pai repousa num quarto de hospital, ouço seu ressonar suave- contraste da voz enérgica e militar de outrora. Os olhos marejados os do meu pai, quase do menino que fui um dia. Menino com medo de reprimenda severa, lágrimas antecipando a dor.

Ele nunca chora ou emite qualquer sinal de fraqueza, homem bronco, bruto, corpo rijo e alma indelicada. Um estranho conhecido. Sem nexo estar junto de um estranho que tem o mesmo sangue que corre em minhas veias. As enfermeiras alimentam de soro um homem acostumado a comidas apimentadas e vinhos de boa cepa.

O médico chega e diz irremediável o câncer que lhe consome. Ele ouve e numa majestade de general pede para ficar sozinho. Precisa de mim, penso. Eu fico. Ele ergue uma sobrancelha de superioridade e desdém. Eu fico mesmo assim.

Por entre hinos, baluartes, marchas e estandartes onipotentes, ele, agora impotente se dobra para a marcha inexorável da morte. Ele nada fala. Eu, tampouco. Zelo por aquele homem que um dia certamente me carregou no colo, me ensinou a plantar e pescar, me principiou nos deveres e direitos de um homem e me suplantou diante de tanta frieza. Sim, nunca um afago, um elogio sequer, jamais uma história para sonhar.

Marcha soldado, cabeça de papel…Sinto-me uma cabeça de papel, voando, voando sem pátria e lembro que nunca me senti importante. Nada que eu fizesse era digno de um sorriso.

Quem não marchar direito…Eu nunca marchava direito. Meus braços eram desengonçados, meu corpo era arqueado, eu não olhava com segurança, eu era uma criança presa no quartel do meu pai. Quando minha mãe morreu eu só lembro que meu pai mandou que eu rezasse um terço e não tocasse mais no nome dela.Ele se trancava no quarto e pelo buraco da fechadura eu o via escrevendo, escrevendo, escre…-Saia daí, menino!Curiosidade é coisa de mulher!

O quartel prendeu fogo. Nada a fazer mais. Nem lágrimas jorram. Ele fecha os olhos e só. Nem um grunhido, uma expressão fora do normal.Vai-se sem nada dizer. Fico ali, atônito… Volto àquela praça em que caio do balanço e fico a chorar… Ele não me ergue do chão, meus braços franzinos clamam por ele – Levanta menino! Quem cai, levanta!

Eu caio do balanço de novo sem um olhar, uma resposta, uma terna palavra. Levanta! Levanto de mim e saio porta afora, fugindo de um amor que nunca tive, chorando de raiva, voltando aos meus poucos anos, sentindo vergonha por acreditar que pudesse ser chamado ao menos de filho.

Dias depois uma caixa me chega. O remetente, meu pai. A caixa de meu pai, proibida e chaveada com rigor agora está vulnerável. Abro como embrulhos de natal, afoito. Cartas de todos os anos, todas as palavras nunca ditas, fotos amarelecidas que eu nunca vira num porta-retrato sequer. Engulo as palavras na eterna fome de infante desajeitado- Palavras feito migalhas de bolo espalhadas pela sala, pelos quartos! Peralta, leio trechos, junto fotos, beijo cartas, cheiro perfumes- Gargalho de felicidade!

Meu pai, um artista sensível, tão sensível que se refugiou na mesma armadura que lhe tragou a vida. Em cada pedaço um pedido de perdão, uma reflexão amorosa… Volto a mim- criança estirada no chão com seu quebra-cabeças montado- Levanta, menino! Quem cai, levanta!

Levanto confiante e abro outra porta. Meu filho dorme. Pousado sobre o criado-mudo um chapéu de soldado feito de jornal que eu fiz para brincarmos de marcha. Penso em quanta gente que desiste da felicidade para não demonstrar fraqueza. Penso nas entrelinhas que assumem o poder e não nos deixam dizer as coisas essenciais, penso no meu Pai… Dirijo-me até meu pequeno e lhe dou um abraço. Mais tarde ele vai acordar e vamos até a praça, vamos cantar marcha soldado e quando ele cair do balanço eu vou dizer, orgulhoso: – Estou indo, meu filho! Estou indo!

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