Bird Box por Isabelle Domingues

Lançado no final de dezembro, o longa fala de apocalipse e propõe reflexão, mas seu verdadeiro recorde é de visualizações na Netflix.

Como toda obra de arte, Bird Box, o novo filme da Netflix, em parceria com a Universal Pictures, gerou várias opiniões e interpretações. Estreado no AFI Fest em 12 de novembro de 2018 e transmitido mundialmente pela Netflix, em 21 de dezembro do mesmo ano, logo na primeira semana de exibição, 45 milhões de pessoas haviam lhe dado o mérito de ser o mais bem sucedido da provedora, até o momento. Baseado no livro de Josh Malerman, de 2014, o filme é dirigido por Susanne Bier e escrito por Eric Heisserer. Figuram no elenco, a protagonista Sandra Bullock ao lado de outros nomes famosos como Trevante Rhodes e John Malkovich.

Nas redes sociais Bird Box é um dos assuntos mais comentados. Alguns especialistas atribuem à obra um caráter mais existencialista. Acreditam que o filme se trata, na verdade, de uma crítica à sociedade, fazendo alusão à depressão, doença considerada um dos maiores males do século. Outros são da opinião de que é apenas mais uma obra de suspense deixando a desejar. De qualquer modo, uma coisa é certa, o ano de 2018 terminou com um cenário ótimo para a Netflix. Com Bird Box, ela conseguiu agradar o público, críticos e investidores, que não estavam de olhos vendados para o potencial da obra. Aliás, os fãs do filme já estão pedindo uma continuação.

Sua história narra a fuga de Malorie Hayes (Sandra Bullock) e seus dois filhos, ao fugirem de uma poderosa força que faz as pessoas cometerem suicídio quando a veem. Por esse motivo, a única forma de se proteger é usar uma venda nos olhos. Algo por sí só, muito instigante, pois, imagine como seria você buscar se proteger, fugir de algo mortal, defendendo a quem ama, estando com os olhos vendados? No mínimo angustiante.

Numa das primeiras cenas do filme, quando a personagem de Bullock é apresentada ao público, ve-se uma mulher sozinha, que não se relaciona com o mundo lá fora. A única pessoa que a visita é sua irmã, Jessica (Sarah Paulson). Grávida, Malorie sente não estar preparada para ser mãe, um questionamento à maternidade sendo natural ou não para a mulher, enveredando a trama por um viés feminista. O refúgio de Malorie está na arte. Em suas pinturas ela exprime sentimentos e vive em seu mundo muito particular.

Malorie é uma mulher endurecida pela vida. Um relacionamento que não deu certo, parece te-la deixado um tanto descrente para as coisas do coração, poderiamos dizer. Noutro sentido, a personagem é também uma mulher forte. Sua dor é sua fortaleza. Ela resiste ao medo e a incerteza do amanhã. É como se estar longe, ter pouco contato com o mundo exterior, com a vida lá fora, fosse a razão, inclusive, de preservar a própria sanidade.

Uma leitura possível é a de que o filme fala, sim, na depressão, da solidão, do isolamento social. Todos os personagens, ao surgirem no decorrer da história, dividem em comum momentos difíceis, relacionamentos que não deram certo ou inseguranças guardadas desde a infância. Na cena em que Malorie chega ao hospital, para fazer um ultrassom de seu bebê, médicos, pacientes e visitantes passam uns pelos outros, mas é como se não se enxergassem. Todos muito a sós em suas individualidades e pensamentos. Uma mulher está ao celular e, logo após, a primeira morte do filme acontece. Desde então, outras mortes vão sucedendo a primeira, e  dá-se início à trajetória da personagem, na busca por escapar da entidade maligna.

Noutro momento, quando Malorie e seu par romântico, Tom (Trevante Rhodes) e os outros personagens parecem protegidos dentro de uma casa próxima – algo que lembra Madrugada dos Mortos (2004), de Zack Snyder, pois encontramos pessoas totalmente diferentes em um mesmo espaço, tentando salvar suas vidas – não há comunicação alguma.

Um celular representa grande risco. Aliás, ele sequer funciona. Exceto as câmeras de segurança da casa, através das quais se pode ver a rua, na tentativa de que, por meio de um recurso eletrônico, a força não conseguisse agir e influenciá-los a tirarem a própria vida. Ou seja, é como se a promessa da tecnologia, de olhar o mundo através das lentes de uma câmera, surgisse enquanto salvação, mas, no final das contas, ao invés disso, representasse a perdição, ou mesmo, o apocalipse, citado muitas vezes durante o enredo.

A frase “o fim do mundo” é dita, em diferentes momentos, por alguns personagens. Mas que fim do mundo é esse? A Coisa, denominação atribuída pelos personagens à essa força que ninguém pode ver, assume a forma de seus maiores medos. Seria, talvez, o medo que os personagens tem de estarem consigo mesmos, encarando os seus próprias dilemas? Suicídio. Esse era o caminho para quem fizesse contato, visualizasse a temida Coisa.

Malorie é tentada a olhar diversas vezes. Na casa, na sala ou no escritório, fugindo pela floresta ou em algum esconderijo. Com seus filhos, numa embarcação sob o rio, uma viagem de três dias, guiada pelas águas turbulentas, é o fio condutor para as memórias e momentos conflitantes que Malorie vai encontrando pelo caminho, bem estilo à la O Coração das Trevas (2013), de Joseph Conrad.

No desenrolar dessa jornada, apenas os pássaros podem ver. Eles estão em uma caixa. A caixa de pássaros, nome do livro que serviu de inspiração ao filme. Pássaros simbolizam a liberdade, mas estão presos em uma caixa, pois são protetores de Malorie e os filhos, ao avisarem da aproximação da Coisa, através do agitar de suas penas. Enquanto isso, ela e as duas crianças continuam vendadas a maior parte do tempo. O único meio de abrir os olhos e enxergar além da escuridão é taparem-se com um cobertor, através do qual se pode ver apenas as temíveis sombras e susurros da entidade, insistindo em não abandoná-los jamais. O que Malorie, seus filhos e todos os outros não podem ver, afinal?

A trama de atmosfera nebulosa, fotografia em tonalidades mais escuras, que passam precisamente o drama dos personagens, junto da trilha sonora apropriada de Trent Reznor e Atticus Ross, possui uma linearidade concisa, em flashbacks precisos, em tempo e à hora, do caminho que levou Malorie a estar naquele barco. O desenrolar não é enfadonho, pois o misto de presente e passado se unem brilhantemente, ao nos conduzir ao momento ápice do filme.

É importante salientar que, apesar das cenas de morte e terror psicológico, o filme também traz uma mensagem de esperança, na qual os relacionamentos e a crença no amor ainda são possíveis. Tom conhece Malorie na casa onde todos se abrigaram, quanto tudo começou. Ele deseja estar com ela. Nem tudo está perdido, mas foi preciso o caos para que Malorie saísse de seu confinamento e encarasse o mundo de frente. Abrisse os olhos para o outro. Para o amor. Um amor possível, porém, incerto. O filme te deixa sempre na espectativa de algo. Espera-se o improvável, que pode partir deles, dos próprios personagens, ou daquilo que eles não entendem, não conhecem, tanto quanto a si mesmos.

Depois de tudo, decisões difíceis ainda precisam ser tomadas. Deixar alguém pra trás, escolher qual dos filhos irá olhar a Coisa. A dor do parto. Os bebês estão vindo ao mundo noutra cena, do passado, na casa esconderijo. Até aquele momento, Malorie talvez não desejasse ser mãe, mas, na evolução da história, o sentimento materno se desenvolve dentro dela. Se de início, era algo assustador para ela, em seguida, proteger seu filho e a menina da qual fica responsável em cuidar, se torna o principal motivo de sua luta. As crianças também simbolizam esse amanhã, no qual tudo poderá ser diferente.

Enquanto isso, as possíveis faces da Coisa surgem por entre os rabiscos do desconhecido Gary (Tom Hollander), que chega pedindo ajuda. A música toca. Parece estar ligada ao divino, àquilo que, diziam os loucos, ser preciso que todos vissem. “Você precisa descobrir”, diziam eles, na narrativa de Gary. Os loucos são imunes. Eles podem ver a Coisa, mas não acontece com eles o mesmo que acontece com as outras pessoas. Eles não matam a si próprios. Qual a razão de uma pessoa considerada sã em suas faculdades mentais não sobreviver à visão da Coisa?

Há um amuleto. Tom presenteou Malorie com ele. Algo que simboliza o amor, a fé e a esperança, na hora da escolha. Das escolhas difíceis pelas quais todos nós precisamos passar durante a vida, ao darmos o primeiro passo, ou o passo seguinte, na busca do que é importante para nós.

Destacam-se alguns poréns da narrativa. O casal passa cinco anos escondido, junto às crianças, numa casa da floresta. Como conseguiram alimentos todo esse tempo, sem carro e distante de tudo, é um ponto de interrogação. Como sobreviveram os pássaros também, durante todo esse tempo. Havia comida de passarinho por perto? Outro ponto, muito questionado pelos espectadores, diz respeito à aparência do monstro.

O crítico de cinema Renan Halts, diz que as várias formas do monstro seriam inspiradas nas criaturas fantásticas de Howard Phillips Lovecraft, escritor estadunidense que revolucionou o gênero terror com seus monstros típicos de ficção científica. Nas histórias de Lovecraft, segundo Halts, as pessoas que viam o Cthulhu, uma das criaturas,  ou se matavam, pelo fato de suas mentes não compreenderem a gigantesca forma do monstro ou, então acabavam ficando encantadas por sua beleza. Acontece que um dos desenhos mostrados por Gary, na única cena do filme em que a aparência de como seriam os monstros surge diante do espectador, lembra o Ctchulhu.

Em entrevista, o roteirista Eric Heisserer, disse que a criatura iria, sim, aparecer fisicamente no filme. No entanto, Sandra Bullock, quando a viu, na cena em que a entidade também seria apresentada ao público, desvendando o mistério sobre sua aparência, não conseguiu parar de rir. A criatura tinha o rosto de um bebê demoníaco, muito provavelmente, interpretação da própria personagem, em função do medo de ser mãe, no início da trama. É preciso lembrar que o monstro assume a forma do maior medo de cada um. A diretora, Susanne Bier, explicou que a decisão de nunca ver os monstros fazia mais sentido que mostrá-los. “O que quer que esses seres sejam, eles tocam em seu mais profundo medo. Todo medo mais profundo vai ser diferente em cada pessoa”, disse ela.

Bird Box possui uma narrativa, em alguns momentos, previsível e um personagem ou outro, do elenco de apoio, ligeiramente expressivo, pra não dizer quase nada. Porém, em meio à catastrofe, há lugar, em contrapartida, para a abordagem de um tema mais profundo. Mesmo que nem sempre os diálogos sejam tão generosos, ainda assim, o filme busca passar sua mensagem. Uma mensagem relacionada aos dilemas desses personagens, mas que também poderiam ser de qualquer um de nós. Ou até mesmo são, em diferentes momentos. E essa não é só mais uma história.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *