De The Demi- Bride a Harry Potter – A era do Capitólio em Pelotas

Série sobre os antigos cinemas de calçada de Satolep, onde irei contar um pouco sobre a história desses locais através de pessoas que tem muita história para contar. Uma visão de quem viveu a era dos cinemas da cidade, onde tudo acabava em um bom filme.

O Cinema Capitólio localizado na Rua Padre Anchieta, ou melhor, o
estacionamento com a placa do Capitólio…

Por Camila Santos

Como a comunidade pelotense já está acostumada a ver vários prédios históricos da cidade deixarem de ser espaço de cultura e lazer para se tornarem estabelecimentos comerciais, o destino do Cine Capitólio não foi diferente. Esse que hoje é um estacionamento bem localizado na zona central da cidade já foi um dos melhores cinemas de Satolep.

O cinema Capitólio abriu suas portas na Rua Padre Anchieta em 09 de novembro de 1928, ele surge a partir da concepção da empresa Xavier & Santos, em uma época em que Pelotas já conhecia bem e preservava a Sétima Arte. O filme que marcou a estreia do cinema foi o “The Demi-Bride”. Ele que foi uma das primeiras casas de espetáculos da cidade trazendo extremo conforto e luxo em sua arquitetura e decoração. A decoração ficou por conta do desenhista e pintor Sobragil Gomes Carollo.

Foto Arquivo Fascículos Projeto Pelotas Memória

De acordo com registros da época, tanto o teto como as paredes possuíam pinturas artísticas brunidas a ouro e decoração estilo Renascença, predominando os simbólicos gansos do Capitólio.

O cinema da empresa Xavier & Santos, tinha sua recepção paramentada com espelhos chanfrados possuía duas platéias uma na parte térrea e a segunda localizada acima da ordem de camarotes que rodeava o salão, poltronas luxuosas e com a marca do Capitólio mobiliavam as áreas.

Foto Arquivo Fascículos Projeto Pelotas Memória

O espaço também contava com o “Balcão dos Namorados”, um lugar mais íntimo para os casais apaixonados. Nessa época os filmes italianos tomavam conta dos telões, e havia sessões para todos os públicos. Na década de 50, a registros de que o Capitólio além de cinema funcionou como Teatro.

O capitólio já foi considerado um dos melhores cinemas de calçada, muito desse mérito venho por causa da sua localização. A bancária Graça Vignolo, teve oportunidade de conhecer e viver a primeira fase do Capitólio, seu pai era gerente do Cinema na época, passou a sua infância lá, tinha a entrada livre para assistir os filmes que desejava.

Foto Arquivo Fascículos Projeto Pelotas Memória

Alguns detalhes ainda são marcantes para Graça, “O hall de entrada era lindíssimo, mas claro que atrapalhava um pouco quando ia muita gente. Uma coisa que eu achava inconveniente é que os banheiros se localizavam na parte de cima. Lembro-me das escadarias que eram lindas. Lembro que tinha algo com mármore na entrada, tipo uns pedestais, às vezes ficavam vasos com flores.” lembra Graça.

De acordo com o jornalista, José Cruz, ainda nessa primeira fase do Capitólio quando se aproximava do Natal o cinema distribuía para o seu público prêmios, funcionava da seguinte forma, ao comprar o ingresso todos os espectadores recebiam um envelope, os prêmios eram desde ingressos gratuitos até geladeiras, fogões etc.

Com uma nova roupagem o Cine Capitólio em 1967 a fim de acompanhar as novas tecnologias, passou por reformas, adotando-se um aspecto modernista em sua estrutura. Trazendo aspectos dos cinemas da atualidade, sem muitos detalhes arquitetônicos. Seria a fachada que podemos visualizar hoje no estacionamento.

Segundo entusiastas da Sétima Arte que frequentavam o Cine Capitólio, domingo era o dia de ir ao cinema, pela manhã a sessão era direcionada para a garotada geralmente passavam filmes de bang-bang. A sessão das 14h era disputada pelos adolescentes, chegavam sempre um pouco antes do filme começar para colocar o papo em dia e dar boas risadas, a sessão era marcada por filmes românticos, como “Love Story”.

O início da noite era marcado pela sessão mais concorrida do domingo, independente do filme, estava sempre lotado, pois era o momento da paquera, que começava já na fila para entrar no cinema. De acordo com José Cruz, “depois do cinema a pedida era passear na rua XV de Novembro, num desfile de vai-e-vem. Ou ir para o “Pão Gostoso”, uma padaria na XV esquina Neto, que tinha um cachorro quente maravilhoso. Pouco tempo depois, abriu a primeira pizzaria da cidade, Taperinha, em frente ao Pão Gostoso. Então, essas casas estão intimamente ligadas ao programa de quem ia ao Capitólio”, contou o jornalista.

Essa época foi marcada pelos “baleiros” rapazes que carregavam uma grande bandeja com guloseimas e os “lanterninhas”, que guiavam com uma lanterna as pessoas que chegavam atrasadas na sessão. Como não havia ingresso com número marcado, ele tinha a função de ajudar a procurar lugar entre o público.

Outro detalhe curioso é que o filme só passava depois das propagandas e do jornal “Canal 100”, que era um dos únicos veículos de comunicação da época para o público poder saber o que estava acontecendo no mundo, além do rádio. Lembrando que nessa época ainda não se tinha disseminado os aparelhos de Televisão na cidade.

A geração atual é acostumada com o ato de comprar sua pipoca e levar para a sala de cinema, mas você sabia que a pipoca no cinema nem sempre foi uma dupla imbatível? Por muito tempo esse alimento foi proibido nas salas de cinema, alguns dizem que era por fazer muita sujeira no ambiente outros ainda dizem que comer no momento do filme se tornaria uma distração. No Capitólio não era permitida a entrada de pipoca nem amendoim nas salas. Isso só foi permitido muito mais tarde.

Um dos grandes sucessos de bilheteria dos anos 90 foi a estreia do filme “Titanic”, de acordo com a bancária Graça as filas começavam na bilheteria e chegavam no Café Aquários, milhares de pessoas assistiram o filme e ficou mais de um mês em cartaz. “O dia que fui, estava uns 38º e sensação térmica de 40º. Capitólio lotadíssimo. Nem se pensava em ar condicionado. Os ventiladores, uns três ou quatro, não davam conta do calor. A plateia lotada em baixo e em cima. Só suportávamos porque fazíamos de conta que estávamos naquele frio final do filme” relata Graça.

Na época se os espectadores quisessem podiam ficar de uma sessão para outra, pois a entrada não era numerada, a pessoa não precisava se retirar da sala, só aguardar no mesmo lugar a próxima sessão.

Já nos anos 2000 o cinema foi marcado por outros gêneros de filmes, para o estudante de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Ricardo Barbosa, era uma época muito boa, ele e seu irmão iam com frequência ao Capitólio “Estava no fundamental ainda e sempre tinha filmes legais para assistirmos, tais como: o primeiro filme do Homem-Aranha, X-Men, Pokémon, Harry Potter etc. Naquela época o cinema era muito barato, lembro que a gente pagava metade ainda, entre eu e ele saia menos de dez reais a farra com direito a bala azedinha que comprávamos do senhor que vendia ali na frente.”.

São inúmeras lembranças e curiosidades em relação a este cinema. O Capitólio também foi marcado por anos pela sua grandiosidade, o estudante de Direito da UFPel, Jean Lucas Balbinoti, frequentou muito o Capitólio na sua infância e lembra-se de se sentir pequeno lá dentro “na perspectiva de criança eu achava o cinema enorme. Hoje meio que perdi o parâmetro, já que fechou e nunca mais entrei ali.”, algo que marcou Jean foi ter assistido seu primeiro filme da série “Harry Potter” no cinema da Anchieta “Talvez tenha sido o que mais me marcou, por que eu morava numa cidadezinha que não tinha cinema e eu era muito fã de Harry Potter, aí eu vim morar em Pelotas e tive a oportunidade de ver o primeiro HP da minha vida em um cinema tão grandioso”.

Por muito anos o Capitólio foi um dos únicos e melhores cinemas da cidade, marcou várias gerações, inclusive a do cantor e escritor Vitor Ramil que teve muitas experiências no Cinema da Rua Anchieta, “tive muitos momentos bons no Capitólio, lembro das poltronas brancas, vi muita coisa lá, muito filme bom. Na infância a gente ia muito lá, chegava o final de semana a gente via o que tinha no cinema e o capitólio era um lugar onde passava muitos filmes bons.”,  ressalta o cantor pelotense.

Entretanto Ramil não chegou a conhecer a primeira estrutura do cinema e ficou abismado quando descobriu a sua grandiosidade arquitetônica, “O capitólio é um lugar interessante porque originalmente ele era um lugar bem diferente, ele era lindo, era um lugar com mezanino, tinha umas partes laterais, era lindíssimo. Eu só conheci o capitólio bem antigo por imagens e fiquei muito chocado como aquilo mudou, como de fato foi destruído. Depois virou um cinema normal e hoje um estacionamento, que é o destino de quase todos os cinemas de calçada, estacionamento, igreja, farmácia.”.

Quem viveu a era dos cinemas de Pelotas e saiu para viajar ou mudou de cidade diz que não encontrou em outro lugar o mesmo espaço dedicado ao mundo cinematográfico, a artista pelotense Luciáh Tavares diz ter se habituado a ir nos cinemas de Satolep, uma das suas lembranças mais remotas do Capitólio foi ter assistido o filme “Branca de Neve e os Sete Anões” o clássico da Disney nos anos 70.

“Sempre digo que me habituei a ir em cinema e depois que saí de Pelotas deixei de assistir filmes, pois as demais cidades não eram cheia de salas de cinema como minha cidade. Anos mais tarde quando me deparei com os cinemas de Pelotas fechados me senti o personagem do filme Cinema Paradiso.”, completa a artista.

Em outubro de 2007 o Cine Capitólio encerrou suas atividades, o porque ninguém sabe. Dos cinemas de calçada era o único ainda em atividade na cidade. Logo em seguida deu espaço para um estacionamento, para quem frequentava assiduamente o Capitólio foi uma grande perda, “Fiquei muito triste quando vi que transformaram aquele espaço de cultura numa garagem, uma barbaridade.”, comenta José Cruz.

Foto: Camila Santos

Uma das coisas que mais chama atenção das pessoas quando passam pelo estacionamento é o por que mantiveram uma das telas de exibição de filmes, de acordo com funcionários do estacionamento não retiraram o telão porque a parede atrás não está rebocada e pintada, de certa forma o telão parado ali não atrapalha.

Essa diminuição no número de salas de cinema da cidade pode estar ligada às novas tecnologias ou a pirataria de filmes, mas não justifica a perda desse pólo cinematográfico de Satolep. Hoje temos duas opções de cinemas convencionais na cidade, o Cineart do Shopping Calçadão da Andrade Neves e o Cineflix do Shopping Pelotas. Infelizmente não se comparam ao charme dos cinemas de calçada da cidade, mas ainda tem a opção do Cine UFPel, uma opção que realiza exibições diferenciadas e especiais.

Em 2014 o Capitólio voltou a ser Cinema pela última vez com o “Noitão de Cinema” realizado pelo PET Artes Visuais da Universidade Federal de Pelotas. Foi um evento realizado com o intuito de preservar a memória dos cinemas de calçada da cidade de Pelotas.

Para uma cidade que já teve mais de 30 cinemas de calçada e hoje só tem 2 cinemas em funcionamento, Pelotas é um pólo cultural adormecido. A atual prefeita de Pelotas, Paula Mascarenhas, viveu essa época dos inúmeros cinemas da cidade “Pelotas realmente tinha uma vida cultural muito intensa, imagina mais cinemas do que hoje nós temos salas de cinema na cidade, tinha mais cinemas de calçada e obviamente se eles duraram tanto tempo é por que tinha demanda para isso. Isso mostra o poderio cultural de pelotas durante muitas décadas”, comenta a Prefeita. Para Paula a Princesa do Sul continua sendo uma cidade culturalmente importante, mas essa tradição do cinema de calçada infelizmente foi se perdendo, uma das coisas que ficou no passado, “fica aí uma sugestão para o futuro, dar vida novamente aos cinemas de calçada” completa Paula.

Sem citar os Teatros da Cidade, atualmente só o Guarany segurando essa bagagem cultural. São prédios lindos jogados as traças, arquiteturas minimalistas ignoradas. E já está virando algo normal na cidade prédios históricos virarem espaços comerciais ou simplesmente serem abandonados.

A grande promessa para 2019 é a reforma do Teatro Sete de Abril, o teatro mais antigo do Estado. Aguardamos ansiosos por essa volta e particularmente espero que seja um espaço para todos os nichos da sociedade pelotense.

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