De volta aos Verdes Anos

“Na entrada pela Gonçalves tinha um bar com uma decoração rustica a principio, passavam clipes de bandas de jazz e rock, serviam pizzas e drinks. Já pela entrada da Sete ficava a danceteria…”

Proprietário: Francisco Coelho, 57.
Endereço: Rua Gonçalves Chaves, 702 esquina com a Rua Sete de Setembro, no centro de Pelotas.
Programação: Sextas e sábados – Verdes Anos; Domingos – Maçã Verde (17h até 00:00)
Funcionamento da boate: inauguração em 1986 e termino no inicio dos anos 90.

Foto: Augusto King

Voltando ao tempo, tudo começou em 1984 quando a família Mendonça foi se desfazendo da casa, o Casarão foi tombado e por um tempo a prefeitura alugou a casa e confeccionavam caixões para criança lá. Ainda em 84, decidiram dar outra finalidade para o espaço, abriram a Galeria Quilombo. A proposta era de um novo espaço de cultura e de lazer para a cidade, funcionava um bar-restaurante, cinemateca, livraria, audições discofônicas, entre outras utilidades do espaço. “Foi realmente um grande tempo de uma coisa totalmente inovadora para os padrões da época, visto que a casa se propiciava para muitas atividades culturais”, diz um dos fundadores da Galeria, Augusto King.

Arte da Festa

O Quilombo fechou em 1986 e deu espaço para a Verdes Anos, a qual funcionava em uma casa com dois ambientes, o Casarão dos Mendonça como já citado, casa estilo colonial portuguesa, atualmente existem poucas na cidade, ela tinha duas entradas uma entrada pela Rua Gonçalves Chaves e outra pela Rua Sete de Setembro. Na entrada pela Gonçalves tinha um bar com uma decoração rustica a principio, passavam clipes de bandas de jazz e rock, serviam pizzas e drinks. Já pela entrada da Sete ficava a danceteria, onde tinha uma pista de musica internacional que tocavam músicas de bandas como A-há, The Police e Talking Head, e, posteriormente teve uma segunda pista somente de musica brasileira que tocava um som mais alternativo, como Elis Regina, Alceu Valença, Belchior e um pouco também de rock, na época o rock brasileiro estava em plena ascensão, então tinha Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, RPM e outras bandas.

Arte da Festa

As pessoas costumavam passar no bar antes, curtiam um pouco de Jazz, com boas bandas de Porto Alegre e depois iam para a danceteria, geralmente por volta da 01h30min da madrugada. O público da festa geralmente eram os jovens na faixa dos 20/25 anos, a maioria eram os mesmos que frequentavam os bares da Avenida Bento Gonçalves, na época tinham muitos, tinha um conjunto de bares localizados no entorno do estádio do Pelotas, onde se
concentrava a noite da cidade, tinha o bar Essencial, o bar Satolep, entre outros. Era de praste esses bares fecharem ou esvaziarem por volta da 01h30min, esse pessoal dos bares iam depois desse horário dançar, a maioria na Verdes Anos.

Foto: Neco Tavares

Aos domingos funcionava uma boate adolescente chamada Maça Verde, geralmente ia um público a partir dos 15 anos. Onde ocorriam concursos de dança, concursos que surgiram no final dos anos 80 com o fenômeno da musica eletrônica, na época se chamava Acid house.
Naturalmente as pessoas se juntavam em grupos para dançar, daí surgiram os concursos de dança que tiveram muita força na cidade, grupos com muitos seguidores, como o Twugueb’s.

Esse grupo de dança nasceu nos domingos de Maçã, era uma turma de amigos que começaram a dançar e foram crescendo junto com o fenômeno Acid house. Ao decorrer do tempo foram ganhando festivais de dança na cidade e fazendo virar moda o estilo, principalmente por causa dos cortes de cabelo que eram originais, figurino, o famoso lenço amarrado na perna.

Um pouco dos Twugueb’s:

As competições de dança movimentaram muito a cidade na época, viralizaram nos comerciais de tv, nas rádios e em mais festas da cidade, não só no Maçã Verde. O pessoal já ficava esperando o final de semana pra ir para lá ver as competições, principalmente os fã clubes “uma juventude que criou um estilo baseado nos Twugueb’s e o Verdes Anos era a casa dessa
geração” relata o ex dançarino do twugueb’s, Marcelo Lages. De acordo com o dono, quando tinham os torneios/batalhas de dança era uma “febre” aqui em Pelotas, isso envolvia os adolescentes em uma coisa legal, que era em torno da musica, dança e da competição sadia.

Vídeo propaganda da época:

No casarão também aconteciam desfiles, festivais de bandas de rock e durante o dia tinham cursos/oficinas, como cursos de modelo e manequim e até mesmo ensaios de peças de teatro e foi no casarão que começaram os ensaios do espetáculo “Cavalinho Azul” da Cia Z de Teatro.
Era um espaço onde passava muita gente fazendo muita coisa.

Para Luciáh Tavres, frequentadora nata da boate Verdes Anos e da matine Maçã Verde, o casarão dos Mendonça era um local onde tinha espaço para a cultura, dança, não era só uma boate ou uma casa noturna para o pessoal ir e beber e dançar. Como tinham festivais de bandas, uma questão regional, fortalecia a cultura local, pois os shows eram de bandas daqui ou da região e era aberto para várias outras atividades culturais. “O Verdes Anos fomentava a cultura de Pelotas”, completa a artista Luciáh. Um detalhe muito importante é que não cobravam um valor para o empréstimo do espaço para realizar ensaios, cursos, etc e isso fazia com que surgissem mais bandas, cias de teatro, grupos de modelos. Pelotas como polo cultural, é isso que Pelotas acaba perdendo ao fechar esses espaços culturais e colocando no lugar espaços comerciais.

Foto: Augusto King

O local tinha capacidade para até 1.000 pessoas, é uma casa bem grande com 17 janelas e 2 portas, aproximadamente 1.200 metros quadrados. A casa era dividida em vários ambientes, não era só um salão.

Muita gente passou por lá aproveitando suas diversas atividades, inúmeros relatos de ter sido um tempo bom, tanto para o publico do Maçã Verde, quanto para os frequentadores do Verdes Anos. James Stochetti Stahl diz que evita passar pelo local, pois o local lembra a ele o abandono e o descaso com a cultura da cidade, assim como outros locais históricos, “faço a longa volta na quadra para não passar por ali” completa James.

“Foi uma fase inexplicável, realmente coisa de filme. Não existem palavras para descrever a energia que trocamos lá, em grandes batalhas de dança entre 22 grupos… Muitos relacionamentos amorosos, muitos viraram eternos. Sem drogas, sem brigas, sem criminalidade, algo impar, talvez os últimos anos de paz em nossa cidade. Sou suspeito de falar, mas acho q foi magico, tudo muito saudável em uma época que íamos a pé a cidade inteira, sem o menor perigo” relata o ex dançarino e frequentador do local, Mauricio Caribenhos .

Segundo o dono, Francisco Coelho, a Boate fechou porque passou a moda, antigamente era muito fácil de abrir casas noturnas, diferente de hoje, depois da tragédia da Boate Kiss, tudo ficou bem mais rigoroso. Na época não tinha nada disso, se alguém quisesse abrir um bar noturno era só quebrar umas paredes e já estava pronto, abriam sem alvará, sem nada e continuava funcionando. Após o termino da Boate a estrutura da casa continuou bem conservada, sem grandes danos.

Foto: Renata kabke Pinheiro 2007

Anos depois o Casarão dos Mendonça ficou fechado e não foi mais locado, de forma abandonada, cerca de 20 anos nessa situação, um descaso com um prédio tão belo. A casa foi se deteriorando com o tempo, pois era um lugar que necessitava de grandes manutenções.

Foto: Renata kabke Pinheiro 2018

Atualmente ela esta em processos finais de reforma para sediar uma agencia bancaria. A recuperação dos prédios antigos e históricos da cidade é a melhor lembrança que podemos deixar para as futuras gerações.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *