É possível amar mais? Matéria especial sobre Poliamor

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É possível amar mais? Essa é a reflexão que o poliamorista Deco Rodrigues trouxe a Rio Grande na última semana. Promovendo uma roda de conversa sobre o tema ‘Novas formas de amar’, o pelotense abordou assuntos como a afetividade, a sexualidade, os relacionamentos abertos, casamentos abertos e o próprio poliamor. O evento, que já aconteceu na cidade de origem do palestrante, visa quebrar o tabu e promover um espaço seguro de julgamentos onde os participantes puderam expor suas experiências e dúvidas.

Matéria especial originalmente publicada no caderno cultural O Peixeiro! do Jornal Agora de Rio Grande, em 14 de junho de 2016. Por Hiago Reisdoerfer

Um Bate papo sobre o amor livre
bate papo poliamor
Na última quarta-feira, 8 de junho, esteve em Rio Grande o escritor pelotense Deco Rodrigues. Autor de um único romance publicado em 2013, ele promoveu um debate sobre as diferentes formas de amar, buscando proporcionar um espaço seguro para os participantes trocarem experiências quanto ao assunto. O livro chamado ‘três Contra Todos‛ conta a história de três jovens que vivem uma relação poliafetiva e, a partir dos questionamentos levantados pela obra, o autor passou a pesquisar e estudar mais sobre o tema no intuito de promover rodas de conversas para quebra o tabu e buscar o respeito por essas ‘novas‛ configurações amorosas.

A peça literária é uma das primeiras a abordar o tema do poliamor na literatura brasileira. Aberta ao público, a Roda de Conversa foi uma das atividades ligadas ao projeto Agenda Cultural 2016 promovido pela parceria Mundo Moinho e Co.place Coworking.

A produção do livro
Capa (internet)‘três Contra Todos’ é inspirado nos acontecimentos da sua primeira experiência não monogâmica, no entanto, é um livro recheado de muita ficção, tanto para deixar a história mais poética e interessante, como também para preservar certas características dos envolvidos. Então, Deco escreveu os primeiros capítulos de seu livro, Porém, como aponta o escritor, não tinha ninguém que pudesse avaliar o seu trabalho e sua escrita, assim, não tinha como saber se o que estava produzindo era de fato bom ou apenas a sua autoconfiança dizendo que o que era feito por ele era de qualidade. Foi aí o momento que Deco pensou em criar a fanpage do livro no Facebook para, aos poucos, divulgar o trabalho de criação dos personagens e dos capítulos iniciais. E, aos poucos, em um álbum de fotos, foi colocando trechos da obra, em sequência lógica, para seus amigos e conhecidos tomarem conhecimento do seu trabalho e assim, abrir espaço para críticas construtivas.

A página teve muitas curtidas em pouco tempo, proporcionando um crescimento desproporcional aos primeiros pensamentos do escritor, ainda sabendo que mais da metade desse número foi composto por completos estranhos que apoiaram a ideia mesmo sem conhecer Deco.

Em um primeiro momento, Deco pensou em distribuir gratuitamente o livro uma vez que não tinha pretensões em ganhar dinheiro com a produção. No entanto, ao pensar melhor, foi atrás do conceituado fotojornalista Nauro Júnior, fundador da Satolep Press, editora de livros pelotense que, posteriormente, investiu na proposta do poliamorista, o que deixou o resultado final da peça literária completamente diferente do que foi pensado pelo próprio. Segundo o autor, o processo de produção do livro durou no total cerca de dez meses, dois dedicados a escrita e oito à pós produção.

Foto: Satolep Press
Foto: Satolep Press

Início dos debates
Ainda na ‘festa’ de lança-mento do livro em cidades como Porto Alegre e Santa Maria, os leitores presentes começaram por livre e espontânea vontade, debates junto com Deco quanto ao tema proposto pelo ‘Três contra todos’. Visando as informações que recebeu nesses momentos, começou a pesquisar e estudar exaustivamente o tema do poliamor, das relações abertas, e, a partir desse ponto, começou a vivenciar e procurar, cada vez mais, relacionamentos desse tipo. Hoje o escritor propõe debates sobre o tema e administra grupos para encontro de pessoas com esse pensamento. A atividade fala sobre a monogamia também, e explica essas outras ‘novas’ configurações de amor. O que é o poliamor?, o que é fetiche?, o que é amor livre?. A proposta, segundo Deco, é mostrar que é possível respeitar todas igualmente, assim como também ser um espaço para conversar e trocar experiências sobre vivências dentro da comunidade poliafetiva.

Fui vendo outras rodas e me especializando no assunto, até que cheguei em um ponto onde acre-dito que possa contribuir bastante para as pessoas que querem conhecer e trocar ideias sobre o tema.
Quanto mais pessoas se interessam, maior a chance do assunto sair do espaço da roda, e ir para debates entre os participantes e seus amigos, depois dos amigos com outros amigos e assim, o tema vai se espalhando e, bem aos poucos desconstruindo a imagem
que ele tem perante a sociedade moderna.

O debate por si, assim como os militantes da causa lutam contra a imposição de uma configuração padrão e não para impor o seu pensamento, assim como buscam primordialmente o respeito.

O evento que ocorreu na última semana, foi a segunda edição de um modelo oficial de debates sobre o assunto ministrados por Deco. A primeira edição aconteceu em Pelotas, porém, em um coletivo de mulheres, que ressaltou o quanto o machismo ainda está presente no meio do ‘amor livre’.

O que seria um poliamorista?
Um poliamorista seria uma pessoa preparada para viver um relacionamento envolvendo mais de duas pessoas, dentro de uma experiência pacífica desnutrida de ciúmes e sentimentos de possessão. Segundo Deco, existe uma palavra oposta ao ciúme chamada de ‘compersão’, e que é muito usada pelos entusiastas das relações livres. Seu significado consiste em “Faz bem ao ser, ver seu amor feliz com outra pessoa”.

Partindo desse principio uma relação poliafetiva consiste em amar e apaixonar-se por outras pessoas além de uma só. Os poliamoristas defendem a liberdade que cada pessoa tem de se desprender das convicções sociais de que uma pessoa apenas pode amar uma outra pessoa ligando afetividade com sexualidade. Essa quebra do amor romântico, onde uma pessoa pode manter relações sexuais e afetivas com mais de uma pessoa consiste a base de um pensamento ‘amor livre’.

O tabu e o machismo
Um dos questionamentos propostos pela equipe, expõe um dos problemas em realizar reportagens desse tipo. As fontes preferem não se expor ou ainda não contar suas experiências. Pensando nisso, Deco considerou que os principais fatores que suprimem um poliamorista de expressar suas convicções são a pressão por parte da família, o famoso ‘O que vão pensar de mim?’, assim como também os parâmetros de aceitação da sociedade.

Assim como o tabu, o machismo também é uma ferramenta que suprime a vontade de algumas pessoas revelarem abertamente suas convicções amorosas. No entanto, segundo Deco, o machismo consegue agir na esfera mais interior das relações poliafetivas, ou, ainda nas palavras do escritor, nem tão poliafetivas assim. “Existe muito machismo nessas configurações. Por exemplo, em um relação onde um homem e
mulher mantém interações afetivas e sexuais, e, em um cenário de ‘amor livre’, o homem aceita sua companheira com outra mulher, mas não com outro homem, não configura uma relação poliamorista, mas sim fetichista”.

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