Entrevista: Cássio Pantaleoni, autor de “De Vagar o Sempre”

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Nome freqüente em feiras de livro e em eventos literários pelo Rio Grande do Sul, o pelotense Cássio Pantaleoni é um escritor de prosa autêntica e original. Suas histórias são ricas em delicadeza e em personagens tridimensionais que refletem as angústias humanas diante da fé, do mistério e da fragilidade da vida.

Foto Divulgação
Foto Divulgação

Autor premiado e assíduo finalista em concursos de literatura, Pantaleoni conversou com o eCult sobre sua escrita, suas inspirações e sua relação com a literatura brasileira. Confira!

“De Vagar o Sempre” é uma obra carregada de um lirismo que conduz o leitor a um cenário já explorado por ti em outras obras. Por que o sertão, por que o interior brasileiro apela tanto a tua escrita?
Na verdade, não há um sertão nos contos. O que há são lugares imaginados no interior da região sul do Brasil que fizeram parte da minha infância. Eu coloquei um olhar infantil nesses lugares que existem de fato, olhar esse que empresta o nome que uma criança poderia usar. Por exemplo, no conto “Algo Tão Doce” o cenário é de uma cidade chamada Faxinal do Soturno, que fica perto de Santa Maria. No conto, a cidade está rebatizada como Salto Propício, que referencia um episódio da minha infância. O mesmo ocorre com o internato do conto “Suspenses Suspensos”. Eu estudei em uma escola onde havia um internato na minha infância e lembro que para ir até lá eu precisava ir meio que sorrateiro, com os meus amigos, por isso o lugar se chama Sorrateiros. Mas aí há outro elo com a história, porque aquilo que é contado se dá de maneira “sorrateira”. Ou seja, os meus cenários narrativos são imagens colecionadas na minha infância e que eu nomeava de improviso, nem sempre eu sabia o nome real do lugar ou da praça.

Há ecos de um Riobaldo, de um narrador semelhante ao de “Grande Sertão: Veredas”, em “De Vagar o Sempre”. Por que espelhar a tua obra na de um representante de uma geração anterior a tua?
Talvez haja alguma aproximação com o tipo de narrador que Riobaldo representa, mas na verdade, se essa percepção se dá, é meramente porque a escrita atual abandonou a sofisticação expressiva, que havia em Riobaldo e outros, em prol de uma comunicação mais imediata do sentido. Creio que, ao revigorar a linguagem e buscar em suas sombras a possibilidade de uma significação que depende da “demora” na interpretação, o leitor mais apressado tentará categorizá-la como não-tradicional. Nesse sentido, o que é o não-tradicional? Para mim é um conjunto de escritores que depositaram em suas obras a preocupação com o modo de dizer, ao invés de simplesmente, dizer o que pode ser dito. Se concordamos que essa não é uma preocupação atual da maioria dos escritores, então estou disposto a concordar que me aproximo de uma geração anterior. Porém, não entendo isso dessa maneira. Acho que escritores como Valter Hugo Mãe, Alessandro Baricco ou Alberto Farias estão engajados com a linguagem do mesmo modo que eu e escritores “da geração anterior” estamos. Essas categorias só aparecem assim porque, creio, há alguns escritores que creem que a literatura como tal é sempre linguagem. Como dizia Ezra Pound: “Literatura é linguagem carregada de significado”. Os meus narradores almejam carregar sua linguagem com significados que precisam ser interpretados e não somente lidos.
A tua prosa busca e alcança as miudezas da vida, o que nela há de mais singelo. Essa estética pode comover o leitor brasileiro atual ou a tua intenção é outra?
Eu realmente não tenho a pretensão de comover o leitor brasileiro atual. Minha pretensão é representar a vida por certo olhar de quem vê que não existe um lado com razão e outro sem razão. Todas as minhas histórias estão desprovidas, pelo menos a maioria, de uma intenção de dizer de que eu, ou seja lá quem for, estou com a razão. A vida é assim, sempre em si mesma uma razão. A estética é a razão da vida porque há alguém que a pensa como necessária. Eu também poderia dizer que a estética é como a vida: necessária. Assim são minhas histórias, elas são aquilo que é necessário para mim: uma representação de uma razão débil por detrás de tudo o que justificamos para nos comportar do modo como nos comportamentos. Se alguém encontrar algum valor nisso, claro que eu ficarei feliz. Se eu encontrar leitores, ainda que poucos, então saberei que não estou sozinho. A solidão é sempre uma ameaça.

A popularização das oficinas de literatura e escrita criativa e a facilidade de publicação que existe atualmente parecem indicar que há um enorme interesse pelo ofício de escritor. Você acha que isso é um modismo ou é evidência de uma mudança na maneira com que os brasileiros se relacionam com a palavra escrita?
De uma maneira geral, a carreira de escritor é vista como um atalho para a notoriedade, quero dizer, para que alguém possa valorizar-se enquanto profissional em certa área. Como todos os seres humanos têm histórias para contar, cada um de nós pensa que sua história possui um caráter único, o que em grande medida é verdade. As oficinas passam a ser assim um local para todo o tipo de aspirante à carreira. Evidentemente, há aqueles que refinaram o seu talento para contar histórias, porque primeiramente refinaram sua experiência de leitura e sua relação com a linguagem. Porém há também aqueles que decidem se pôr na escrita sem o domínio da linguagem e sem a experiência da leitura. A própria disponibilidade de oficinas também está sustentada pela facilidade em oferecer um serviço que não é regulamentado e que não causa qualquer dano. Pelo contrário, as oficinas são ponto de encontro, lugar onde se pode trocar ideias. Sempre que falo sobre isso eu proponha a seguinte reflexão: por que não há na mesma proporção oficinas de português, oficinas de matemática, oficinas de química? E por outro lado, por que não há uma procura tão intensa para essas prováveis oficinas? Creio que porque em larga escala as pessoas estão ali antes de tudo pelo convívio, pela conversa e pelas histórias. Nós gostamos de ouvir e contar histórias do mesmo modo que nossos antepassados sentavam em torno do fogo para ouvir e contar histórias.

O que os seus contatos com estudantes de diversas escolas pelo Rio Grande do Sul lhe dizem a respeito da relação dos jovens com a literatura atualmente?
Igual a tudo na vida, há dois lados nessa experiência. Os jovens, em geral, estão mais abertos à leitura fácil de absorver. Eles estão identificados com o ritmo das redes sociais. Se a história é boa e fácil de absorver, eles leem. Por outro lado, o que tenho descoberto é um grande contingente de alunos que lida muito bem com textos onde a sutileza dos sentidos se articulam para promover a história de maneira menos imediata, ou seja, provocando-os a pensar. Para esse grupo, a literatura se apresenta como possibilidade de sofisticar a interpretação do mundo. Parece-me que o grande aspecto da relação dos jovens com a literatura é que certos livros em verdade promovem um descaso, pois não apresentam nada que eles, jovens, não seriam capazes de contar do modo como é contado. Quando o jovem descobre no livro uma dimensão mais profundamente humana, ele tende a se identificar mais com a leitura e, assim, recorre a literatura mais frequentemente. Nem todo o jovem gosta de ler, mas aquele que efetivamente gosta de ler vai procurar livros que o inspire.

Capa - De vagar o sempreDe Vagar o Sempre
Autor: Cássio Pantaleoni
Páginas: 128 p.
Tamanho: 14cm X 21cm
ISBN: 978-8555-270116
Preço de capa: R$ 30,00
Editora: Edições BesouroBox

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