Receita de Sorriso Fatal… Crônica por Charlie Rayné

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Era redonda. O espelho mostrava suas curvas disformes. As saliências da barriga a gargalharem dela. Um biscoito de chocolate. Outro. Mais outro. Mais outro. Ele chegaria em breve. Ele, de corpo harmonioso, de sorriso alongado.

Os cabelos arrumam-se como por encanto, o rosto rechonchudo enche-se de uma esperança doentia, impossível! Queria vê-lo, sentir aquele sorriso, mesmo sabendo que não passava de uma mera cortesia de cunhado.
A outra já estava no vestido azul, os cabelos de mel, trançados como numa foto de revista. A outra sempre suave, o rosto feito sob medida para ele.

– A carne já está pronta?
– Sim. Eu mesma preparei.
– Não é muito gorda, é?
– Não.

A carne é magra como a irmã. Tem um cheiro de temperos finos. Ao cortar, não oferece qualquer empecilho à faca e ao estômago: é macia, leve e suculenta. A faca desliza. A campainha toca. A carne estilhaça-se. O coração descompassa.

Ele e seu sorriso. A outra, feito uma hiena. Dois lábios feitos um para o outro. A outra a se exibir, a deixar que o vestido esvoace. As pernas delicadas de dama. Ele com o rosto lascivo, a contemplar, adivinhar o através do vestido azul.

A outra não cozinha. Não lava uma louça. A caçula da família. O estorvo que nasceu para matar a mãe. Papai sempre zeloso dela: a trazer bonequinhas para saciá-la, para sanar a sua orfandade. Ela a lavar, passar, varrer, cozinhar. Ela a consumir-se dos nervos, a engordar feito um animal prestes ao abate.

A mesa bem posta. A Carne em baixela de prata. A outra a pedir privacidade no Jantar. Ela a resignar-se e emitir um sorriso fatal. Uma receita venenosa de sorriso. Era a segunda vez que este sorriso vinha à tona: o primeiro nasceu de uma noite em que a outra havia despencado da bicicleta. Um alicate a cortar os freios e enfim o sorriso fatal – A sua bicicleta é a mais linda que já vi!

Ela sabia que quando aquele sorriso apontasse mais uma vez tudo seria diferente, que por mais que lutasse, estaria fadada ao descontrole. Sabia que este segundo sorriso não teria aquela ingenuidade da infância, que ele traria o tempero maturado de anos de humilhações. Sim, aquela força a serpentear sua razão, insistente feito à caixa de música da outra. A caixa de música cheia de jóias com a bailarina a deslizar suavemente. Papai nunca deu a ela um mimo daqueles, como se ela não merecesse a sutileza, a suavidade. Ela, repleta de bonecas de massa e de trapo, a outra a cantarolar diante da bailarina de porcelana branca:-Sua irmã merece este agrado, nem o peito da mãe teve!

A caixa de música aberta. A bailarina a deslizar ao som de um noturno de Chopin. A força e a música turvando-lhe os sentidos. Os dois a gargalharem, a trocarem juras, febris de tanto bem querer. E ela? O que era ela?

Tirar a mesa. Trazer a sobremesa e o licor. A irmã a rir de sua fisionomia cansada. Ela uma palhaça disforme. Outro sorriso, o terceiro. Um alarme mais que tardio de que era inevitável aceitar passiva, aquele ultraje.

O licor e uma lágrima doente de sal. Gotas, gotas, gotas, gotas de raiva! Outra lágrima e várias gotas, infindas gotas! O quarto sorriso, transfigurado em gargalhada sonora e assustadora. Uma gargalhada alongada como o sorriso dele…

O pranto veio depois, quando teve de tirar a mesa e levar os amantes para o descanso. Ficou ali, no meio dos dois, admirando-lhes as feições serenas, as faces saudáveis…
Beijou-lhes como se fossem as bonecas que não teve na infância. Contou-lhes suas incertezas, sua inadequação diante de um mundo de vaidades. Deitou no meio dos dois e fez com que os braços deles a enlaçassem. Era amada e protegida. Também estava pronta para dormir.

Receita de Sorriso Fatal… Crônica por Charlie Rayné

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