A interpretação da sexualidade

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Falar de sexualidade costuma ser algo bastante freqüente nos dias atuais, mas houve um tempo em que era considerada tabu. Isso mudou desde que um médico austríaco, apaixonado pelo assunto, formulou as primeiras teorias sobre o desejo, a busca do prazer e o modo como essa engrenagem é capaz de nortear ações e pensamentos do ser humano.

A sexualidade humana costuma ser tema de debates e projetos nos mais variados segmentos da ciência e educação, mas nada disso seria possível não fosse Sigmund Freud (1856-1939), na primeira década do século XX, formular as primeiras teorias sobre o tema, visando explicar as estruturas nas quais se processa algo tão natural e complexo da vida.
Os fatores biológicos, sociais e culturais fazem da sexualidade algo em constante movimento. Da mesma forma, o modo como interpretamos o outro e a nós mesmos, influenciando a linguagem e o desejo sexual de homens e mulheres, bem como as formas de se relacionar.

Salvo as particularidades de cada sexo, existe algo que é comum para ambos, ou seja, a busca pelo prazer. Mas por que é tão importante compreender o mistério que gira em torno da sexualidade? Afinal de contas, o que é a sexualidade? O que é esta força misteriosa e transformadora, energia vital presente no combustível norteador de nossas ações e pensamentos? Como definir essa personagem amada e odiada, festejada e reprimida, guardiã dos mais inimagináveis segredos e detentora da verdade? Por que, quando e como se manifesta a sexualidade?

Condizentes com as especificidades de cada momento histórico, no passar dos séculos, foram atribuídos à sexualidade significados distintos, mas que procuraram satisfazer, a partir das relações de poder existentes nos diversos setores sociais, a necessidade de discuti-la.
O filósofo, historiador e crítico literário, Michel Foucault (1926-1984) em seu famoso estudo sobre a história da sexualidade, a considera como sendo um dispositivo histórico. Seria a rede da superfície onde a estimulação dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação ao discurso, a formação dos conhecimentos, reforço dos controles e das resistências, encadeiam-se uns aos outros, segundo algumas estratégias do saber e do poder.

Para a psicanalista Joyce McDougall, a sexualidade seria uma espécie de palco onde se projetam grande parte dos nossos anseios, dúvidas, inquietudes e expectativas, convertendo-se em problema e solução nos caminhos que conduzem as histórias projetadas no “teatro particular do eu”. Este termo criado por ela, refere-se à relação com o mundo imaginário onde localizamos nossos sonhos, desejos, intensidade de sentimentos e necessidade de nos sentirmos amados ou rejeitados, incluídos ou excluídos.

Esta intensidade de sentimentos e sensações estaria ligada, de acordo com a autora, ao desenvolvimento de nossa sexualidade desde a infância, permanecendo em desconexão até serem reunidos, através de sonhos, devaneios, poemas ou simples formas de comunicação.

O objeto que causa desejo é enigmático, fascinante; passamos a vida a buscá-lo. Sita (1893), divindade hindu, tida como par ideal, por Odilon Redon.
O objeto que causa desejo é enigmático, fascinante; passamos a vida a buscá-lo. Sita (1893), divindade hindu, tida como par ideal, por Odilon Redon.

A matéria prima da Arte
A psicanalista e professora de psicanálise da PUC-SP, Elisa Maria de Ulchôa Cintra, utiliza esse “teatro do eu” como uma espécie de “quarto virtual” ou “quarto elemento”, no qual estaria à base de nossas inspirações, desde a realidade cotidiana até a criação artística. O artista, segundo Cintra, seria aquele responsável por dar nome e figura a um espaço imaginário, onde a vivacidade e a capacidade de gerar novos sentidos às vivências comuns de todos nós somam-se às fantasias relacionadas ao desejo e a sexualidade.

De acordo com a autora, a sexualidade exerce um papel primordial na criação de um artista. Segundo ela, todos têm dentro de si um espaço virtual, onde são projetadas as fantasias e desejos relacionados com a realidade do dia-a-dia. Desejos e fantasias que se desenvolvem ao longo da vida e que se relacionam com as primeiras sensações, trocas de carinho, afeto e amor vivenciados por uma criança e que serão a base da sexualidade adulta. Seria um outro ponto de vista, onde filmamos e interpretamos internamente os acontecimentos, transformando o que é apreendido e atribuindo um novo significado pessoal e subjetivo.

A Porta Para o Rio (1960), de Willem de Kooning. O outro quarto é materializado na obra, enfatizando um lugar de transformar sensações em formas e destinos.
A Porta Para o Rio (1960), de Willem de Kooning. O outro quarto é materializado na obra, enfatizando um lugar de transformar sensações em formas e destinos.

A jornalista Martha Medeiros, escreveu para o jornal Zero Hora sobre a função que a sexualidade exerce na criação de um artista. Na crônica “Nenhum artista é casto”, frase do diretor de teatro Zé Celso Martins Correa, ela aponta para a tendência que nós temos “como bons católicos” de pensar no amor antes do sexo. Para ela, o artista não pode criar algo realmente impactante, que fale mais alto, que seduza, estabeleça uma conecção intensa e de emoção com seu público, se não houver em sua arte, excitação, ou, como diz a autora, “o demônio essencial da criação”, referindo-se à sexualidade como sendo imprescindível na arte.

O Princípio do Prazer
A sexualidade já foi entendida como pecado e instinto natural. Mas é a partir de Freud, como coloca o jornalista Márcio Ferrari, que ela passa a ser analisada por um ângulo mais abrangente do que a concepção inicial de estar relacionada apenas às questões reprodutivas. De acordo com Ferrari, o inventor da psicanálise foi um dos principais responsáveis pelo que se entende hoje como sexualidade, ou, ao menos, foi o primeiro que, através de estudos e pesquisas, organizou uma série de teorias sobre ela.

Após pesquisar os efeitos da linguagem, relacionando-a com o inconsciente, Freud concluiu que os conflitos da mente tinham origem na sexualidade. Neste momento, o cientista chegou a questionar a função da escola, que segundo ele, infligia um papel sexualmente repressor aos alunos. Adverte sobre uma Pedagogia repressora que ignorava uma sexualidade manifestada queira a escola ou não.

A partir de seus estudos, o fundador da psicanálise apresentou uma de suas mais importantes afirmações, até então. Considerou a existência de uma sexualidade infantil, onde qualquer parte do corpo pode tornar-se erógena, a partir do toque materno e de quem cuida da criança. Detectou uma ampla gama de impulsos (pulsão sexual) operando dentro e fora da libido (energia sexual) do indivíduo, desde o nascimento. Segundo o psicanalista, os impulsos oriundos do corpo almejam a satisfação.

Maternidade (1893), de Charles Maurin. A relação corporal entre mãe e filho como sendo a base das fantasias inconscientes é resgatada pelo artista.
Maternidade (1893), de Charles Maurin. A relação corporal entre mãe e filho como sendo a base das fantasias inconscientes é resgatada pelo artista.

Esta tentativa de obter satisfação é também chamada de “princípio do prazer”. Trata-se da busca pela satisfação, pelo prazer. De acordo com Freud, significa a tendência que o sistema psíquico primitivo possui de não acumular excitação, sentido como desprazeroso. O desprazer, por sua vez, ativa o sistema para que haja diminuição de excitação. Essa excitação, por outro lado, quando alcançada, é sentida como prazerosa. Em sua obra A Interpretação dos Sonhos, lançada em 1900, encontra-se a definição freudiana para desejo que, segundo ele, é o caminho que parte do desprazer e tende ao prazer.

Neste cenário onde o princípio do prazer está relacionado com a obtenção do desejo, ele precisa ainda dividir espaço com outro personagem, tão importante quanto; o “princípio de realidade”. Este último atua como um termômetro onde o ambiente e as condições reais do sujeito o levam a adaptar-se em meio as possibilidades momentâneas. Desse modo, segundo o psicólogo clínico José Raimundo Gomes, torna-se necessário adiar o prazer ou criar alternativas para transpor a realidade vigente, propondo soluções para o conflito.

Muito além do princípio do prazer
A partir da década de vinte, em especial, após a primeira guerra, surge uma fase mais madura no trabalho de Freud. As teorias iniciais de sua obra são reformuladas e surgem outros aspectos com relação à tipologia do funcionamento psíquico.

O cenário de morte e desolação, o estresse pós traumático – denominação atribuída pela psicanálise atual – dos soldados que retornaram da guerra, muitos com transtornos psíquicos graves, põe em cheque a ideia de que a psique é naturalmente impulsionada pelo princípio do prazer. Se assim fosse, como explicar aquela lembrança triste que insiste em voltar à memória, o próprio cenário da guerra ou a violência presente em nosso cotidiano?
Essas dúvidas, dentre outras, o fundador da psicanálise tenta elucidar na obra Além do Princípio do Prazer, de 1920. Mas como vamos descobrindo o prazer? Desejo é algo que também se aprende?

A Origem do Desejo
A criança como ser desejante conservaria a lembrança de sua primeira experiência de satisfação. Ela almeja instintivamente os cuidados maternos ao mesmo tempo em que também torna-se o objeto de desejo da mãe. Isso implicaria no que Freud denominou de dicotomia pulsional, ou seja, as pulsões sexuais e as de conservação do eu. A criança que, inicialmente, é fonte de investimentos dos cuidados e desejos maternos, encontra sua satisfação primária como ser humano estando na condição passiva. O terceiro elemento, a figura do pai, completaria o famoso triângulo edípico.

O Beijo da Fênix (1895) de Franz Von Stuck. A relação sexual dos pais é um enigma do quarto virtual da infância.
O Beijo da Fênix (1895) de Franz Von Stuck. A relação sexual dos pais é um enigma do quarto virtual da infância.

O organismo vivo necessita de certos objetos dos quais dependem sua preservação – alimento, excreção, sono e abrigo – mas, ainda assim, o ser humano só encontraria satisfação através da interpretação de seu “grito” pelo outro. Uma angústia cujo tratamento é o próprio desejo.

Outro autor importante nos caminhos que desvendam a sexualidade, usufruiu das teorias de seu antecessor como ponto de partida em seus estudos sobre a sexualidade humana. Jacques Lacan (1901-1981) abordou as relações de necessidade e demanda estabelecidas no início da vida humana.

Segundo a psicanálise lacaniana, entre o que o bebê demanda e recebe (alimento, proteção, carinho etc.) há uma defasagem, pois, embora esses objetos possam, num primeiro momento, satisfazer as suas necessidades, não atendem a sua demanda, que, em termos lacanianos, significa amor, completude imaginária em sua totalidade.

Tal demanda carrega consigo uma impossibilidade de satisfação plena por implicar uma complementaridade impossível, que em termos freudianos, poderia equiparar-se à ausência de tensão ou à morte. Essa linguagem que nos afasta do plano das necessidades pode então ser traduzida como a condição do desejo.

O sujeito é, assim, produto de uma operação de linguagem (uma metáfora), ao mesmo tempo que faz uso dela para produzir o objeto de desejo. E assim o desejo ganha status central e decisivo para o conceito lacaniano de sujeito e na direção do tratamento psicanalítico.

Há um descompasso entre a demanda e o que é recebido, já que a materialidade do apelo não está sujeita ao alcance da interpretação, como em O Grito (1893), de Edvard Munch.
Há um descompasso entre a demanda e o que é recebido, já que a materialidade do apelo não está sujeita ao alcance da interpretação, como em O Grito (1893), de Edvard Munch.

Caminhos do Querer
O papel da pulsão sexual nesse contexto poderia estar meramente ligado às necessidades do organismo, mas o comprovado pela psicanálise vai muito além. Na verdade, ao mesmo tempo em que poderíamos nos aproximar do conceito biológico de instinto, as afirmações freudianas a esse respeito nos afastam novamente.

O primeiro desejo, de acordo com Freud, teria sido uma carga alucinatória da lembrança da experiência da satisfação. Sendo assim, como a alucinação não se sustenta indefinidamente, torna-se necessário promover um desvio que permita a percepção real do objeto de satisfação. Chegamos ao instante em que a cena do sonho ocupa um lugar de destaque nesse mecanismo, pois, segundo o inventor da psicanálise, é o lugar privilegiado em que o desejo sexual e infantil pode ser realizado.

O Que a Água Me Deu (1938), de Frida Khalo, evoca o inconsciente, pleno de conteúdos sexuais infantis, angústia e morte.
O Que a Água Me Deu (1938), de Frida Khalo, evoca o inconsciente, pleno de conteúdos sexuais infantis, angústia e morte.

O psicanalista enfatiza que o desejo sexual humano não é adequado a determinado objeto instintivo e que a pretensa atração natural entre os sexos não corresponde à realidade. Ao contrário, as mesmas tendências que regiam a vida sexual dos indivíduos considerados, naquela época, “perversos”, por vivenciarem seus desejos e sua sexualidade de formas variadas, diferente do que se convencionava “natural”, regiam também as fantasias inconscientes da maioria das pessoas, denominadas “neuróticos”.

A pulsão tentaria alcançar satisfação por meio do objeto, mas de modo diferente do instinto animal, pois não há o objeto específico da pulsão; ele pode ser substituído indefinidamente, o que dá ao desejo humano seu caráter indestrutível. No entanto, a pulsão sexual seria submetida, ao longo do desenvolvimento, a algumas modalidades de defesa, pois entraria em conflito com os interesses de conservação do eu, aliados aos preceitos morais vigentes e às imposições civilizatórias, que inibem os desejos e as fantasias sexuais.

A esse respeito, a psicanalista Ana Laura Prates Pacheco, também considera a sexualidade e suas variadas vertentes estando diretamente ligada aos valores vigentes da sociedade. Ao explicar como Freud define a pulsão sexual, ela situa o desejo sexual humano de modo independente do que é chamado instinto natural, abrindo caminho para a possibilidade, particularmente humana, de estar constantemente investindo seu desejo em objetos distintos.

Os Amantes (1928), do surrealista René Magritte, sugere a falta de complementaridade possível quando se trata de desejo humano.
Os Amantes (1928), do surrealista René Magritte, sugere a falta de complementaridade possível quando se trata de desejo humano.

Na realidade, a partir desta análise e como a própria autora citou, pode-se observar que a sexualidade humana realmente é variada. Muitas são as formas encontradas para exercê-la e obter-se o prazer desejado.

Transmitido de pai para filho, segundo as considerações de Lacan, o père-version, ou seja, a versão do pai, o desejo poderá ser inibido, recalcado, mas, ainda assim, persistirá enquanto houver vida. Sendo assim, o melhor que se pode fazer com o desejo, como a experiência psicanalítica demonstra, é sustentá-lo de maneira decidida e criativa. Trata-se de nossa tela interior, que determina nosso modo de viver e de amar.

Para conhecer mais
FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997.
SEFFNER, Fernando et al. Corpo, gênero e sexualidade: problematizando práticas educativas e culturais. Rio Grande: Ed. da FURG, 2006.
A descoberta do inconsceiente: do desejo ao sintoma. A. Quinet, Jorge Zahar, 2000.
As realidades sexuais e o inconsciente: histórico da questão. Escola de psicanálse dos Fóruns do Campo Lacaniano (EPFCL), volume preparatório do Encontro Internacional, 2006.
Revista Stylus: amor, desejo e gozo. Associação dos Fóruns do Campo Lacaniano (AFCL), n. 14, 2007.

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