A união faz a força: bandas independentes voltam a apostar em coletâneas

Muito antes da existência de playlists em plataformas como spotify e deezer, as coletâneas musicais com vários artistas cumpriam um importante papel de apresentar um apanhado geral do que vinha sendo produzido em alguma região, cena ou estilo musical. Com as restrições impostas pela pandemia, esse formato passou a ganhar força novamente em 2020.

Nos anos 1980, as coletâneas, ou paus de sebo, como eram chamadas, foram muito populares. Para nichos mais específicos ou underground elas foram imprescindíveis. Como falar da história do heavy metal brasileiro sem citar o disco S.P. Metal (1985)? ou dos primórdios do punk rock nacional e não mencionar coletâneas como Grito Suburbano (1982), Começo Do Fim Do Mundo (1983) e SUB (1983)?

As bandas gaúchas que marcaram época nas FMs brasileira como TNT, Engenheiros, Garotos da Rua também tiveram neste formato uma alavanca para suas carreiras. A história do rock gaúcho está intimamente ligada à coletâneas como: Rock Garagem (1984), Rock Grande do Sul (1985), Porto Alegre Rock (1985) e Rio Grande Rock (1988).

Pupilas Dilatadas em show no Galpão

Veterana da cena punk gaúcha e nacional, a Pupilas Dilatadas teve nas coletâneas um importante instrumento para propagar suas músicas. Seu primeiro registro foi feito especialmente para o LP Porto Alegre Rock. Na sequência, a banda participou ainda dos compilados: Contra Ataque (1988), Ronda Alternativa (1988), Paranóia Suicida (1990) e A Vingança dos Nodros (essa última em K-7).

“Nos anos 80 os custos de gravação e prensagem de um LP individual eram muito altos, então as bandas se uniam a selos independentes e numa forma de cooperativa dividiam os custos e lançavam, distribuíam e divulgavam conjuntamente suas músicas”, comenta o guitarrista e vocalista da Pupilas, Felipe Messa.

Coletâneas em 2020

As coletâneas nunca saíram totalmente de cena. Mas o conturbado 2020, com restrições a shows e festivais, parece ter feito com que esse formato voltasse a ganhar destaque. No último dia 31, foi lançada a coletânea Antivirótica, uma realização da produtora Som de Peso. O CD traz uma série de bandas independente do estado e o que elas vem produzindo neste ano atípico.

Além da citada Pupilas Dilatadas, participam ainda os riograndinos da Escöria com a faixa “Orgulho de ser Limitado”, os pelotenses da Aborto Podre com o single “Tempo Sinistro”, e bandas como Punkzilla!, Gladiator, entre outros. No total são 18 faixas entre novatos e veteranos da cena, que participam com músicas inéditas produzidas especialmente para a coletânea ou sons lançados no decorrer de 2020.

“Para bandas novas, iniciantes, participar de uma coletânea sempre é uma forma eficaz de apresentar sua arte para um público potencialmente diversificado, conferir o impacto de suas primeiras gravações”, destaca Adriano Mussi organizador e curador da Antivirótica. O responsável pelo Som de Peso destaca ainda o “intercâmbio e troca de ideias e percepções” como ponto forte promovido por esse tipo de iniciativa.

Elogio do ídolo

Foi justamente nesse intercâmbio entre bandas que os pelotenses da Marinas Found arrancaram elogios do vocalista da Dead Fish, Rodrigo Lima. As duas participam juntas da coletânea Bandas Antifascistas, lançada em julho, com organização do canal Arquivo Punk Rock do Sul. Além do CD, o canal promoveu diversas lives em seu instagram com os integrantes das bandas participantes.

Na live com Rodrigo da Dead Fish e Julia Barth d’Os Replicantes, o capixaba citou os pelotenses como umas das que ele conheceu na coletânea e mais gostou. “Eu chorei ouvindo a música Planícies”, afirmou Rodrigo no encontro virtual.

Marinas Found no projeto Sete ao Entardecer

O vocalista e guitarrista da Marinas Found, Pedro Soler, conta que essa foi a primeira coletânea em que a banda participou e o primeiro contato mais direto que tiveram com a banda de Vitória. “Dead Fish é a banda brasileira que nós mais ouvimos na nossa vida com certeza, uma banda que influenciou todos integrantes que já passaram pelo Marinas”, afirmaram em um post no instagram.

“A inclusão no grupo foi muito legal. Rolou uma troca de ideias muito massa entre as bandas e isso foi muito legal também porque com a pandemia meio que a banda tá paradona, né?! Acabou que fizemos vários amigos”, ressalta Pedro. Ele adianta ainda que “Planícies” deve ser a próxima faixa do Ansiolítico, segundo disco, a ganhar um videoclipe.

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Levantando bandeiras

Uma característica marcante das coletâneas lançadas neste ano é o fato de várias delas levantarem a bandeira do antifascismo. Um exemplo é a compilação Punkadaria Antifascista, também produzida pelo selo Som de Peso, que reúne bandas de diversos estados do Brasil que dão vozes à resistência do momento.

“Música é energia, catarse, explosão e força, vitalidade pra enfrentar esse contexto desnorteado que nos cerca e virar a mesa transformando tudo em algo melhor. E temos orgulho de viver com a música alternativa como trilha das nossas vidas”, destaca a descrição do álbum. Neste mesmo espírito DIY, a Escöria lançou a música e clipe do single “Orgulho de ser limitado”, que posteriormente seria incluída na compilação Antivirótica. Confira:

A Pupilas Dilatadas conta que também aproveitou a parada da pandemia para lançar o videoclipe da música “A Donde Voy?”. A inédita Sister Bright, que foi lançada na coletânea do estúdio Trilha Hub, também ganhou um clipe. No último fim de semana, a banda realizou a sua primeira live. “Esperamos que essa pandemia passa logo, que descubram a vacina para o covid e que possamos voltar a fazer shows, encontrar o público roqueiro e dividir palco com as novas bandas. Isso é o que nos move e nos incentiva”, afirma Felipe Messa.

Coletânea das coletâneas

A seguir apresentamos uma lista com oito coletâneas de bandas e artistas independentes nacionais que foram lançadas neste período de pandemia.

Antivirótica

A coletânea reúne 18 bandas gaúchas e foi lançada no último dia 31 pela Som de Peso. O CD conta com participações de diversas regiões do estado, e segundo a descrição “mostra a pujança e diversidade da produção coletiva local nesses tempos de distância e isolamento social”. Com arte de capa da artista Luana Rettamozo do Mundo da Lua, a coletânea está disponível em formato físico (CD) neste link.

Ouça: https://antivirotica.bandcamp.com/ ou https://li.sten.to/antivirotica.

Bandas Antifascistas

O canal/coletivo Arquivo Punk Rock do Sul lançou no 13 de julho uma coletânea de bandas antifascistas brasileiras com enfoque aos artistas do Rio Grande do Sul. A proposta é usar a música para colocar em debate as opressões vividas pela sociedade e manter ativa a bandeira do antifascismo. Entre os novatos, estão as bandas pelotenses Consentrio e Marinas Found, junto de nomes consagrados como Os Replicantes e Dead Fish.

Ouça: https://www.youtube.com/watch?v=H0TFGwMVO4A

Punkadaria Antifascista

Lançada dia 18 de julho, a coletânea Punkadaria Antifascista Volume 1 reúne 33 bandas, que participam com uma música cada. Com bandas de Rio Grande do Sul ao Amazonas, a coletânea traz um grito contra a todas as formas de opressão. Para citar alguns nomes: Xavosa de Brasília, Eskröta de São Carlos-SP, Punkzilla! de Porto Alegre, Vomitose (Brasil/Chile), Quilombo de São Paulo. A seleção das bandas foi feita pelos curadores Francis Fussiger e Diego Aires. A capa é assinada por Jean Etienne (Xixo Tatoo) e a produção é do selo Som de Peso.

Ouça Punkadaria Antifascista: https://punkadariaantifascista.bandcamp.com/album/punkadaria-antifascista-volume-1

Another Green World Revisitado

Clássico seminal da música pop, “Another Green World” (1975), do músico e produtor inglês Brian Eno, completou 45 anos neste mês de setembro. Na última sexta-feira (04), foi lançado uma coletânea, com a colaboração de vários artistas da atual cena musical do Rio Grande do Sul, prestando uma homenagem ao disco. O álbum, organizado pela produtora Luiza Padilha e masterizado por Fu_k The Zeitgeist, conta com a colaboração de nomes como Rita Zart, Viridiana, Gabriela Lery. (Saiba mais)

Ouça: https://www.youtube.com/watch?v=ELZmKqEljUY

Trilha Hub Cultural Vol. 1

Essa coletânea, lançada no dia 10 de agosto, é uma iniciativa do estúdio Trilha Hub Cultural de Sapucaia do Sul-RS. Foi a forma que o espaço encontrou para divulgar algumas bandas que tinham shows agendados no local nos meses de março e abril. Os sons foram gravados seguindo os protocolos de acordo com os decretos vigentes do mês de março. Além das música também foram registrados os bastidores, via Undervideos, para produção de um clipe para cada banda. No total, são 10 bandas dos mais variadas vertentes do rock.

Ouça via spotify: https://spoti.fi/33Lx3Aw ou Youtube: https://bit.ly/3iwz8o5

Sangue Preto

A iniciativa de Leonardo Cucatti da banda Derrota, a Coletânea Sangue Preto transita entre o punk, o hardcore, o metal e o ground, reunindo 25 bandas de diversas localidades do Brasil. As músicas abordam essencialmente as questões raciais, de desigualdade e violência policial. A coletânea virtual está disponível nas plataformas de streaming e também deve virar um CD, por meio de um selo de Vila Velha, Espírito Santo. Participam bandas como: Vozes Incômodas, Ratas Rabiosas, Bertha Lutz e Sendo Fogo.

Ouça: https://sanguepreto.bandcamp.com/album/v-a-sangue-preto-nossa-luta-contra-o-racismo

Tributo ao Fogo Cruzado

Idealizado por Leandro Sampaio da banda OdioSocial, o “Tributo ao Fogo Cruzado” foi oficialmente lançado no começo de agosto. O projeto que homenageia a lendária banda punk contou com lançamento simultâneo no Brasil e na Alemanha, graças a reunião de vários selos do underground. O CD físico pode ser adquirido através do email socialsampaio@gmail.com. Entre as bandas participantes do disco temos Cólera, OdioSocial, Agrotóxico, Inocentes, Flicts, Killbite (Alemanha), entre outras. A coletânea ainda não está disponível nas plataformas, mas algumas faixas já podem ser conferidas como versão de Delinquentes feita pela banda Guerrilha.

Surf Music Contra o Fascismo

A produtora Orleone Records, em parceria com a plataforma CD Baby, lançou em maio a coletânea Surf Music Contra o Fascismo. O álbum conta com 13 bandas brasileiras de surf music instrumental e está disponível em todas as plataformas digitais. Participam nomes como Kingargoolas, The Almighty Devildogs e Reverendo Frankenstein.

Ouça: https://reverbbrasil.bandcamp.com/album/surf-music-contra-o-fascismo

 

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Sobre Cassio Lilge 167 Artigos
Jornalista, estudante de História, obcecado por música. Conhece menos atalhos em seu computador que a sua gata.

4 Comentários

  1. Muito boa a matéria Cássio! Sintetizou bem o momento atual das bandas, sêlos e espaços, que se reunem para divulgar o rock através de coletâneas!! Parabéns!!

  2. Linda matéria. No Programa ROCK DISORDER na MutanteRadio que eu apresento sempre rolo as coletâneas na íntegra. Só a tributo ao FOGO CRUZADO e GREEN WORLD que ainda não rolei. Parabéns!

  3. Banda DAMA ETÍLICA participou da coletanea SONS DE SATOLEP,no final do ano de 2019, junto com outros artistas da cidade de Pelotas.

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