Edital do Banrisul usa número de seguidores em redes sociais como critério de seleção

Edital Banrisul divulgação

O Banrisul, banco estatal do Rio Grande do Sul, lançou na última segunda-feira (22) um edital para patrocinar até 200 propostas de lives musicais de artistas gaúchos. As inscrições estão abertas até o dia 1º de julho, pelo site banrisul.com.br/patrocinios.


Atualização: na tarde desta terça-feira, dia 30, o Banrisul publicou em seu site que o edital 001/2020 foi suspenso “para reavaliação”.


O critério de seleção, no entanto, tem causado controvérsia entre a classe artística, uma vez que deixa aspectos artísticos de lado e privilegia performance nas redes sociais. Conforme o edital, “serão selecionados os 200 projetos, cujos proponentes tiverem, somados, o maior número de seguidores em suas redes sociais (Instragam (sic) e Facebook) e de inscritos no canal do Youtube”.

O valor destinado para cada live será de R$ 3,5 mil. Para garantir que projetos de todo o estado sejam contemplados, serão garantidas no mínimo 10 vagas para cada uma das seguintes regiões: Serra, Alto Uruguai, Centro, Fronteira, Leste Noroeste, Sul e Porto Alegre.

As lives devem ocorrer entre os dias 14 de agosto e 31 de outubro. As apresentações devem ser transmitidas em tempo real, nas plataformas YouTube, Instagram ou Facebook de cada proponente, com duração mínima de 60 minutos.

Reação de artistas

Após a publicação, o edital vem recebendo críticas de diversos artistas e entidades. Em nota, a Frente Ampla da Música afirma que “a popularidade na internet, em número de seguidores, configura critério excludente de seleção”.

“O uso da verba de uma empresa pública deveria visar a justa distribuição dos recursos, observando os critérios de qualidade, originalidade, impacto e valor artístico, garantindo também que haja a diversidade entre a banca examinadora”, ressalta ainda a nota.

O músico e arranjador Pedrinho Figueiredo se manifestou em seu Facebook: “Se o Banrisul pretende apoiar artistas, que utilize critérios artísticos. Número de seguidores, que podem ser comprados ou criados por robôs, não pode ser um critério válido”.

O flautista reconhecido por tocar ao lado de nomes como Renato Borghetti ainda deu um exemplo utilizando os números de seguidores do próprio banco. Nas páginas oficiais no Facebook, o Banrisul conta com pouco mais 69 mil seguidores, enquanto seu concorrente Sicredi possui 399 mil. “Isso significa que o Banrisul é quase 6 vezes pior do que o Sicredi?”, questiona ele.

Leandro Maia – Foto Kiran F. Leon

Já o músico e compositor Leandro Maia lembra que o banco sempre teve uma atuação tímida na área cultural, em comparação a instituições similares em outros estados, citando o Banco do Nordeste, como exemplo. Vencedor de três Açorianos, Maia ainda critica a falta de articulação entre órgãos, fundações e autarquias estaduais, e dá uma sugestão: “coloquem a grana na TVE e na FM Cultura e permitam que as emissoras façam editais e promoções com artistas gaúchos selecionados por gente que pensa programação”.

Artistas novos em desvantagem

Consentrio – Foto Diandra Cruz

A banda pelotense Consentrio, que iniciou suas atividades em 2019 e lançou seu primeiro EP em março deste ano, desponta como uma promessa no pop rock gaúcho. Com disco bem produzido, dois videoclipes e uma constante difusão de conteúdos nas redes sociais, eles teriam todos pré-requisitos para participar de um edital cultural. Os mais de mil seguidores conquistados em poucos meses de existência são uma boa marca para uma banda nova. Para a seleção do Banrisul, não.

O vocalista Lucas Consentins lamenta: “o edital está por apoiar os grandes artistas do Estado, os artistas já consagrados. (…) não tem nenhum propósito de apoiar artistas novos”. Outro ponto citado como empecilho para os novatos é a exigência de CNPJ.

O vocalista da banda Rota Luminosa, Marconi Voss, participou da reunião virtual em que o edital foi anunciado, representando a União das Bandas de Baile. Segundo ele, o Estado tem cerca de 2 mil bandas de baile e grupos de música regionalista, dos quais menos de 500 têm CNPJ.

O cantor e deputado estadual, Luiz Marenco (PDT), que chegou a elogiar a iniciativa do edital também fez ressalvas afirmando que as lives “não beneficiarão os que mais precisam e nem ajudarão a manter os 15 mil empregos com carteira assinada que a música gera no estado”.

Mesmo com as críticas, o Banrisul mantém o edital como está. Por meio de seu perfil oficial no twitter afirmou que: “o número de seguidores de cada músico nas mídias sociais reflete a intenção de, com critérios objetivos, ser transparente e imparcial, dentro de normas estabelecidas no edital público lançado”.

Sobre Cassio Lilge 110 Artigos
Jornalista, estudante de História, obcecado por música. Conhece menos atalhos em seu computador que a sua gata.

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