Papo Cult com Caio Lopes

zx8k1m8Um cara curioso que quer experimentar a vida, pois nossa passagem aqui é muito curta; que são no máximo 80/90 anos para uma pedra? Uma pedra qualquer que ninguém dá bola está na terra há muito mais tempo que qualquer um de nós, sendo que nós temos a vantagem de estarmos vivos, sentir, pensar, quero tirar o melhor proveito disso, então faço o que gosto, procuro me manter digno com isso, procuro ser uma pessoa ética que não passa por cima de ninguém, porém, não deixo ninguém querer passar por cima de mim, não acho que ninguém que ocupe uma “posição social” tenha alguma autoridade sobre mim, somos meros mortais em aprendizado constante.

Qual a principal lembrança do seu início como produtor cultural, ou dos seus primeiros eventos?

Eu sou técnico em informática por formação, mas a arte sempre esteve em meu sangue, vivi minha vida toda buscando a arte sobretudo a música, que sempre esteve presente de alguma forma, seja nos primeiros rádios que tive consciência e ficava grudado pra ouvir, seja quando comecei minha coleção de discos de vinis, onde um mundo se abriu. Meu primeiro evento foi o zd9en4igrande amigo e violeiro de Minas Gerais, “Pereira da Viola” no Conservatório de Música da Ufpel, comecei como um hobby pois tinha meu emprego e ajudava um grande amigo, o Santana de Pedro Osório, que é um capítulo da história da cultura nesse estado, conhecido em todo Brasil, um marginal por opção, lavador de carros, ex -vereador em sua cidade, posto que ele jamais quer repetir, sensibilidade como a do Santana misturar com política é sofrimento na certa, ele realiza coisas fantásticas em Pedro Osorio, cantorias e recitais com nomes que nem por Porto Alegre passam. Santana é meu irmão de alma, nesse eu confio e acredito, não precisa de ternos, gravatas, retóricas e outras mordaças. Após isso tomei gosto por trabalhar com música, tive um programa por 6 anos na Rádio Com 104,5 Fm, chamava-se “Vozes do Brasil”, onde eu trazia os cantadores, violeiros e toda forma de cultura popular; trouxemos muitos cantadores e violeiros nesse período, tive o prazer de ser ouvido em muitas partes do Brasil pois a rádio transmite pela internet; em seguida aprovei o projeto Caixa Cultural onde levamos a cantora Giamarê à Salvador junto ao mestre Baptista, que deu oficinas de construção de sopapo por lá, o projeto era todo baseado na negritude do Rio Grande do Sul; esse projeto contava também com o grupo Odara e foi desenvolvido em parceria com o Alexandre Mattos, esse foi o primeiro projeto aprovado no estado pelo concorrido edital da Caixa, foi uma experiência fantástica levar 23 profissionais entre bailarinos, músicos, técnicos, produção e um monte de tambores e instrumentos até Salvador, fomos super bem recebidos lá, ovacionados na terra do tambor, foi parar sopapo na França através de uma percussionista baiano que dava oficinas por lá, sendo que a produção local desse evento foi feita por um ouvinte do programa de rádio que eu fazia.

O que achas que deve mudar na política da cultura aqui em nossa cidade?

zm9blgyPelotas tem política cultural? Nossa eu não sabia, em toda minha trajetória acho que usei um único recurso da cidade, uma única vez quando a Bia Araujo era ainda secretária eu fui oferecer um projeto que montei sobre os 50 anos do livro “Grande Sertão: Veredas” onde trouxe a histórica cantora e compositora paraibana Cátia de França, que musicou muitos textos de Guimarães Rosa, lembro que o máximo que conseguimos foi um cachê mínimo que levou 3 meses para ser pago , muito baixo mesmo pra ela participar ao ar livre de uma Feira do Livro, com direito a um debate público, sendo que ela fez mais duas feiras: S. Lourenço e Porto Alegre, que adoraram o projeto e receberam muito bem a cantora, ela é a única autorizada pela família de João Cabral de Mello Neto a musicar e usar os poemas de J. Cabral, Cátia é formidável. Eu sou um produtor independente, apesar desse rótulo estar muito vinculado hoje ao pessoal do rock apenas, acho que de forma errada pois acho que o rock tem muito mais aceitação do que o trabalho com cantadores, violeiros e shows em teatros que desenvolvo, sou um entusiasta do rock, mas não acho que esse termo independente esteja vinculado apenas a uma forma de arte, então o que quero dizer é que pouco ou nada dependo de secretarias de cultura e de políticas culturais, entrei nessa secretaria poucas vezes sendo que uma pra reinvidicar um direito de cidadão junto ao funcionário público que hoje é secretário de cultura, fui tão destratado pelo tal que tive de denunciar ele frente à imprensa, pois não tenho nada a temer e jamais vou tolerar atitudes como essa de ninguém. Acho que os governantes de Pelotas tem de descerem dos casarões suntuosos e irem pra rua verem o que realmente é a cultura, uma secretaria de cultura que ocupa seu orçamento apenas com casarões e com o carnaval em uma cidade que pulsa cultura eu acho uma vergonha, eu teria vergonha de ocupar um cargo público dessa forma inoperante. Acho válido o “movimento cultural” que está formado em torno do Pró Cultura, apesar de não ter participado diretamente do processo, sou sim um entusiasta, acho que a Vigilia Cultural deu resultado e colocou o então secretário de cultura em uma situação vergonhosa com declarações ridículas na imprensa sobre o movimento e depois teve de voltar atrás, espero que o Sr. prefeito tome uma atitude frente a essa questão, pois quando as eleições chegarem acho que vai ser tarde, ele está perdendo a chance de ser o prefeito que implantou uma Lei Municipal de Cultura, de entrar pra história!!

A palavra cultura é muito abrangente, você acredita que as pessoas conseguem definir seus significados?

z1dcu2j5Eu acho que vivemos uma época de um bombardeio de informações muito grande, isso confunde muito. Hoje tudo está acessível a um clique de distância, e hoje quem tem o poder da mídia na mão comanda a sociedade, e isso é muito perigoso, pois ao mesmo tempo que temos toda uma gama de informações à disposição, somos direcionados diariamente a consumir o que nos é estabelecido, e das formas mais sutis, criam-se “personagens” que se dizem significativos pra cultura de um povo e mascaram outras faces dessa mesma cultura. Um exemplo é a cultura gaúcha. Todos sabemos de cor quem são os artistas da “música gaúcha” que estão na mídia, mas pouco sabem que foi Barbosa Lessa, por exemplo, e eu pergunto quem representa mesmo a nossa história como gaúchos? E isso acontece em todas instâncias, no rock, na literatura e por aí afora. Quando comecei a trabalhar com cantadores e violeiros  conheci profundamente a nossa cultura popular e cada vez mais vejo como esse bombardeio de informações afasta muito de nossa origem como brasileiros, acho que podemos e devemos estar atentos a tudo, eu sou um ávido estudante de todas culturas, mas faço questão de me reconhecer profundamente brasileiro. Penso também que o termo cultura passa por nossa vida diária, atitudes como educação no trânsito, gentilezas diárias que demonstram o quanto a pessoa assimilou ou não do que de melhor a raça humana realizou na terra.

Que estratégias pensas que podem expandir a cultura a todos os pelotenses, e não apenas restringir-se a pequena parcela da população?

zsj16w3Não sou um estrategista, mas acho que esse projeto do Pró-Cultura pode vir contribuir e muito nesse processo, pois dará margem para que se escrevam projetos que possam contar com um mínimo de estrutura pra poder descentralizar a cultura. Eu adoraria poder fazer um evento onde não cobrasse um centavo de ingresso e que estivesse ao alcance de todos; conheço muitos artistas da cultura popular brasileira que adorariam vir a Pelotas transmitir seu conhecimento, suas vivências, dar oficinas de cultura popular e semear uma mudança de pensamento, mostrar caminhos diferentes de pensamentos as pessoas, fazer enxergar que valorizando suas vivências mais simples podem se tornarem importantes pra seu local. É quase inacreditável que uma cidade que se orgulha de sua “herança cultural” não tenha uma Lei de Incentivo, Rio Grande possui uma lei e recebo gente que vem em duas, três vans pros eventos que a produtora realiza, reservam ingressos comigo, tem o maior interesse pois lá não acontecem eventos. Então acho que uma politica pública para a cultura é urgente sim, já está atrasada e não tem mais desculpa, espero que as pessoas lembrem disso nas próximas eleições.

Quais os próximos planos e projetos da Caio Lopes Produções Culturais?

Eu estou debruçado como faço sempre em editais nacionais, estou concorrendo a alguns até o fim do ano, aprovamos uma Rouanet pro grupo que trabalho – o Batuque de Cordas – de Porto Alegre para uma circulação pelo Nordeste brasileiro estamos vendo quais desdobramentos disso, e fechamos uma pequena turnê do Batuque de Cordas pela Bélgica e Suíça em 2010. Fora isso, faço a produção local da Branco Produções e lá no meu blog www.caiolopes-caio.blogspot.com tem uma enquete sobre algumas possibilidades de shows pra 2010 aqui em Pelotas que a Branco quer realizar, eventos fantásticos como o Circo Acrobático da China e outros, também alguns shows que quero fazer aqui como a cantora mineira Ceumar e o grupo de jazz bossa Delicatessen que adiamos por conta da paranóia da gripe suína esse ano, tudo ainda depende de muita coisa, apoios principalmente, mas vamos em frente!!

Uma mensagem aos leitores do e-Cult

zru75f9Em primeiro lugar, parabéns pela publicação! Acho que Pelotas carecia de uma publicação desse tipo, de âmbito cultural mesmo. Minha mensagem é para as pessoas irem aos teatros, se permitirem assistir eventos de âmbito cultural, e não apenas o que está na grande mídia; a arte é isso, conhecer novos caminhos, se permitir! Acho também que as pessoas estão priorizando locais onde se pode beber e fumar e pouco está se indo a teatros assistir shows, estamos vivendo a paranóia coletiva da festa pela festa. Minha mensagem é a mesma, se permitam ficar uma hora e meia sem fumar e sem beber e se embebedem de arte, afinal, estamos vivos e a vida passa rápido.

Contato Caio Lopes

WWW.CAIOLOPES.COM.BR
http://caiolopes-caio.blogspot.com
“Democracia se faz com Arte”

Equipe e-Cult

Sobre Deco Rodrigues 6334 Artigos
Jornaleiro/Produtor cultural, social mídia, gestor de conteúdo web, pretenso escritor, autor estreante com o romance Três contra Todos.