Beatriz Seigner X Fora do Eixo por Rafael Andreazza

Sobre as denúncias de Beatriz Seigner ao Fora do Eixo, pesquisei o que pude, sei que faltam informações, mas aí vão reflexões e dados. Como Professor de Produção Cultural e produtor independente de cinema estudo muito para tentar entender as questões do nosso tempo e meu único objetivo é pensar a cultura e os valores que ela gera. E nesse caso há questões importantes que vêm á tona, e apesar do texto ser longo, não se esgota a questão. Não vou discutir nenhuma questão pessoal nem bater boca com ninguém.

O filme Sonhos Bollywoodianos de Beatriz Seigner não foi realizado com dinheiro público, coisa rara no Brasil. Foi financiado por um produtor indiano e lançado em 2011 no circuito comercial de cinemas, em mais de 19 cidades brasileiras, distribuído pela Espaço Filmes, ou seja, muito bem distribuído.

Temos tradição de que poucos filmes brasileiros chegam ao cinema, e estar em cartaz em 19 cidades é um feito. Faça-se justiça em 2012 o número de filmes brasileiros que chegaram ao cinema passou de 100. Mas muitas vezes em única sala, por uma semana. Sabemos da dificuldade de distribuição e exibição de filmes brasileiros no próprio país e da hegemonia do cinema americano, em público e bilheteria, no mundo. Mas isso é outro papo.

Voltemos ao Bollywood Dreams.

Segundo o jornal O Globo, 30% da bilheteria era a remuneração da co-produtora indiana que pagou os custos de produção do filme, cujo orçamento desconheço. Mas os valores tangíveis, ou seja, os valores econômicos que o filme gerou, serão abordados adiante.

Quando Beatriz, segundo ela mesma, achou “o máximo” a ideia de distribuir seu filme nos cineclubes do Cine Mais Cultura, outros pontos de cultura, escolas, universidades, coletivos e pontos de exibição alternativos, que estavam conectados à internet nas cidades mais longínquas do Brasil, o que ela estava pensando? Segundo ela “na necessidade de democratizar o acesso aos bens culturais no país, e sei como é angustiante, nestas cidades distantes, viver sem acesso à cultura alternativa e mais diversas artes”. O valor a que Beatriz se refere é, portanto, intangível, ou seja, os valores simbólicos contidos no filme.

Mas Beatriz em seu texto mistura os valores tangíveis com os intangíveis e acaba por confundir a pessoa que lê seu texto de 6 páginas no Facebook. Eu li, e reli, com a certeza de que de uma forma geral poucas pessoas o fizeram. Não é tamanho de texto que se poste no Facebook, assim como esse, admito. Mas estou a refletir e compartilhar minhas reflexões.

Pergunto-me se a distribuição do filme no fora do eixo foi pactuada como PRODUTO COMERCIAL OU CULTURAL?

Antes de tudo, friso que pouco conheço do Fora do Eixo e que não conheço Beatriz.

Mas como indica Beatriz, o que foi tratado foi dentro da lógica da troca, ou seja, dentro da lógica do fora do eixo: “Com relação à remuneração eles me explicaram que aquele ainda era um projeto embrionário, sem recursos próprios, mas que podiam pagá-lo com “Cubo Card”, a moeda solidária deles, que poderia ser trocada por serviços de design, de construção de sites, entre outras coisas. Já adianto aqui que nunca vi nem sequer nenhum centavo deste cubo card, ou a plataforma com ‘menu de serviços’ onde esta moeda é trocada.”

Pergunta-se: Beatriz solicitou os serviços? Os procurou? Parece que não, ao que tudo indica, e creio que se tivesse nãoperderia a chance de dar maiores detalhes. Os elementos que tenho para pensar, leva-me a conclusão de que não foi pactuada nem exibição onerosa, nem distribuição onerosa entre Beatriz e o Fora do Eixo. Nem gratuita. Mas sim, uma parceria de troca.

A tentativa de aplicação da lógica comercial no caso da distribuição gratuita do fora do eixo me parece uma tentativa de insuflar os incautos, e favorecer quem vem perdendo prestígio. Há muitos interesses dos grupos midiáticos em conflito, nesses tempos de revolução digital. Sobretudo depois da entrevista dos representantes do grupo no Roda Viva do dia 05/08/2013.

Depois desse programa, vem Beatriz se colocar como partidária de democratização do acesso a bens culturais, defensora dos valores intangíveis que gera a cultura, mas só quando a convém: porque no seu texto, sem mais nem menos adere à lógica econômica, e centra-se nos valores tangíveis que geram a cultura. Isso não me parece correto.

Mas no caso Beatriz X Fora do Eixo, me parece, não é possível conciliar as duas coisas. E que essa conciliação dos dois valores da cultura – valor simbólico e econômico – é o que todos queremos. Mas digo que não é possível essa conciliação no caso, simplesmente porque não foi o acordado entre as partes.

O resultado é uma confusão sistemática das próprias intenções de Beatriz: ora o intagível, simbólico, ora o tangível, econômico. E nenhuma menção ao imenso trabalho realizado pelos integrantes do grupo de fazer o seu filme chegar gratuitamente aos mais diversos públicos, em todo Brasil.

Lá no meio do seu texto, em meio à poesia da cultura que chega nos excluídos – poesia do valor simbólico, aparece a poesia da moeda real – poesia econômica. Trata-se do caso da exibição pelo SESC de SP. Mas era o SESC, e não o Fora do Eixo, que estabeleceu relação onerosa para exibição do filme de Beatriz. Me chega o dado, de que a remuneração do SESC pela exibição foi de R$ 350,00 (trezentos e cinquenta reais) pelo SESC de Baurú/SP e de R$ 435,00 (quatrocentos e trinta e cinco reais) pelo SESC de São Carlos/SP. E mesmo tendo recebido essa valor, acusa o distribuidor parceiro – o Fora do Eixo – de “tentar” apropriar-se dessa bagatela.

Acusa de tentativa de apropriação indébita, embora admita que recebeu o valor. Acusa um exército de produtores de sessões gratuitas que distribuiram seu filme. Ela reclama que demorou a receber do Fora do Eixo, eis o motivo da acusação.

Vem informação de que a sessão no SESC Baurú foi em 06/03/2012, e que a nota fiscal para pagamento foi emitida pela produtora de Beatriz somente em 05/12/2012 e que o SESC a pagou em 12/12/2012. Ou seja, a produtora de Beatriz, a Miríade Filmes, teria demorado 9 meses para emitir a nota. Se isso é verdade foi culpa da produtora, porque o SESC naturalmente dependia d emissão da nota para fazer o pagamento.

Da gravidade da acusação de Beatriz, se essa informação é verídica, há que se questionar a integridade do texto de Beatriz, e os interesses por detrás do texto. Certamente essas provas virão à tona.

O ponto que Beatriz ataca com suas acusações é o econômico, com alegações aparentemente concretas, mas, se bem analisado no seu longo texto, não fazem muito sentido. Na verdade, Beatriz toca no mesmo ponto que os jornalistas do Roda Viva no dia 5, o econômico, o que foi constrangedor aos jornalistas. Os dois jovens mostraram-se bem articulados e atentos a um momento muito dinâmico da história da humanidade.

Me pergunto por que razão a “denúncia” não veio antes do programa, que colocou o Fora do Eixo na pauta das redes sociais?

Ora que os jornalistas da velha escola não conheciam e nem conseguiam pensar o sistema que lhes era apresentado, como as motivações dos integrantes, relações não monetárias, tudo bem, pois para eles esse é um mundo desconhecido e sem lógica. Mas é real e contém uma lógica interna e própria, que precisa ser melhor explicada. Os jornalistas nem sabiam o que falar na entrevista e acabaram sendo informados pelos jovens. Poderiam ter estudado antes.

Mas Beatriz não. Desde o início entendia o sistema, ou podia entendê-lo, suponho.

Segundo Beatriz o Fora do Eixo havia prometido como contra-partida uma foto de cada exibição onde fosse visível o número de público destas, e uma tabela com as cidades e quantidades de exibições que foram feitas. Se é verdade, ela tem razão. Mas aqui não é dinheiro e é evidente que o Fora do eixo é uma superorganização espontânea, mas com problemas de organização, o que é compreensível, afinal a gênese do coletivo foi se realizando no caminho e de uma maneira bem tradicional brasileira: primeiro chegam as pessoas, depois a estrutura para elas. Mas nesse caso parece que as pessoas são a própria estrutura.

A organização da distribuição democrática de filmes brasileiros, valorizando seu aspecto intangível é a grande questão que Beatriz Seigner traz à tona, mesmo sem querer. E que é necessário pensar uma forma de remunerar todos na cadeia de produção, mesmo na distribuição de acesso gratuito. Beatriz, e todo produtor de obras culturais, quer remuneração por seu trabalho. E ao mesmo tempo quer chegar em todos os recantos do Brasil. É o que todo artista quer. Se criarmos um sistema para que isso aconteça, e os meios estão postos, todos sairão beneficiados: artistas, produtores/organizadores e sociedade.

Há no Brasil a valorização da exibição de cinema pago. E não é contabilizada para nenhum efeito, a exibição de acesso gratuito. Um método de contabilização deve ser criado para sessões gratuitas.

Mas ao que transparece no texto polêmico, não foi combinada remuneração, nem cessão gratuita, mas relações de troca. E essa história não foi bem explicada.

Mas vamos aos valores tangíveis do filme O Sonho de Bollywood, de Beatriz Seigner.

Sem o fora do eixo, o filme Bolywwod Dream – O Sonho de Bollywood teve público comercial de 6.105,00 nos cinemas, com renda bruta de R$ 60.561,00, segundo os dados oficiais do OCA, no site da ANCINE.

Passo a fazer suposições, com base na praxis do mercado: dessa renda de R$ 60.561,00 metade da bilheteria provavelmente ficou com o exibidor, menos os tributos. Então pode-se supor que aproximadamente R$ 30.280,50, na verdade menos que isso, ficou com o exibidor, e a outra metade, com a produtora de Beatriz, a Miríade Filmes. Supondo que a distribuidora do filme, que o levou a 19 cidades em 23 salas ficou com a comissão de distribuição em 20% que é a praxis do mercado, sem considerar o possível reembolso por gastos de publicidade que são retidos pela distribuidora, sobraria R$ 24.224,40. Desse valor 30% por contrato foi para o co-produtor na Índia, o que se conclui que, na melhor das hipóteses, sobraria para a produtora de Beatriz o valor bruto de R$ 16.957,08 pela carreira comercial no Brasil em 2011. Considerando que se havia contrato de reembolso à distribuidora com gastos de publicidade, pode-se supor que a produtora do filme, assim como a maioria dos produtores de cinema no Brasil, receberam nada, muito pouco ou até ficaram devendo. O co-produtor indiano teve prejuízo, no Brasil. Calculou mal, a Ìndia tem uma superpopulação de 1,2 bilhões de habitantes, tem público formado – que consome o cinema do próprio país e o ingresso custa R$ 0,70. Não sei como o filme foi naquele país e se pagou seus custos, mas gostaria de saber.

Do ponto de vista do impacto cultural, de pessoas “sedentas por cultura” como Beatriz tanto discursa, 6.105 pessoas assistiram seu filme no sistema comercial de exibição no Brasil.

Lembrando que Beatriz cobrou R$ 50.000,00 do Fora do Eixo para colocar a “marca” do coletivo no filme. E que fala em “superfaturamento” na contabilidade de pessoas.

Por fim, pergunta-se: Quantos cidadãos o viram filme no circuito fora do Eixo?

Segundo informação do Fora do Eixo, que disponibilizou tabela com os números (doc) o público foi de 1.463 pessoas no circuito gratuito, em 41 exibições, em várias cidades do Brasil. É quase uma quarta parte do público total. Não me parecem números superfaturados. Parecem bem verossímeis.

Estamos muito longe de uma economia da cultura para o cinema nacional, na janela tradicional de exibição pública coletiva, paga ou não. Mas temos avanços no sentido de democratizar o acesso ao cinema nacional: a Lei 12.485 , o Recine, proliferação de cineclubes etc. O Fora do Eixo também realiza esforços nesse sentido, como o fez no polêmico caso em questão. Isso não se pode negar. E se as contas dos projetos que propõe não foram rejeitadas, nada se pode dizer quanto à gestão de seus projetos. E se as pessoas voluntariamente levantam uma bandeira sem fins lucrativos, ainda há esperança.

Por Rafael Andreazza

EXTRATO COMPACTO.CINE BOLLYWOOD DREAM

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