Feira do Livro: Começa a ruir o feudo livreiro em Pelotas

Muito se tem ouvido e lido na imprensa pelotense sobre os embates que envolvem o Governo Municipal e a Câmara Pelotense do Livro, para a realização da Feira do Livro de Pelotas, em 2013. Entre mudanças de local, quebra da tradição e outros elementos, fica tudo no campo das subjetividades e das preferências, sobre qual espaço se mostra mais confortável, mais atrativo e até mais rentável para os envolvidos e participantes, fato que suscitará sempre impasses e opiniões divergentes, sem qualquer mínimo comum.

No entanto, nessa onda toda de novidades, declarações e oportunismos disfarçados de informação, um ponto delicado e de extrema importância dever ser destacado e refletido com extremo cuidado. Nos últimos dias, alguns espaços virtuais, conhecidos pelo seu sensacionalismo oportunista difundem a ideia de que a Prefeitura de Pelotas cobrará dos livreiros um valor de locação do Mercado Público para a realização da Feira do Livro. Esse engodo se difunde pela cidade, pelo fato de que a Prefeitura, que investirá em torno de 100 mil reais, em um evento do qual ela é apoiadora, acreditar que a Câmara Pelotense do Livro, realizadora da feira, deva arcar com o valor de 25 mil, uma vez que não terá custos de locação de áreas expositivas; e mesmo que os tivesse, como já dito, é a entidade promotora do evento.

Em lugar algum do mundo, não pode uma entidade realizadora de um evento assistir de braços cruzados a sua apoiadora bancar uma quantia de 100 mil e ela, realizadora, se sentir usurpada ou coisa que o valha por ter de investir 25 mil em seu próprio projeto. Dizem os espaços oportunistas que os livreiros sempre “colaboraram” com apenas 15 mil para exposição de seus livros, e que agora a Prefeitura lhes impõe um custo extra e absurdo. Paremos e analisemos os pontos: primeiro, quem colabora com o evento é a Prefeitura, e não a Câmara Pelotense do Livro, segundo, 25 mil para que mais de 20 livreiros lucrem com vendas de livros a preços idênticos aos praticados o ano inteiro, sem qualquer desconto e sem a concorrência de livreiros de fora é vida mansa demais, terceiro, temos de lembrar que a lógica das feiras de livro não é a da venda, mas sim a da fruição de artistas consagrados, a da valorização da produção de artistas regionais e locais, a montagem de uma programação cultural que coloque o livro como agente da cultura e do conhecimento em destaque, bem como o estímulo do hábito da leitura, a integração de espaços e entidades da cidade, assim como foi feito recentemente no Dia do Patrimônio, em Pelotas, entre outras atividades de cunho literário e cultural, que a população espera de um evento desses. E quem está propondo isso é a Prefeitura e não a Câmara do Livro.

Exposição de livros, com preços sem desconto e sem livreiros de fora, temos o ano inteiro, não precisamos de uma feira para isso. Nos últimos anos, pulularam as organizações culturais em Pelotas, coletivos de todas as ordens, cineclubes, festivais e prêmios de música, o Procultura oferecendo empoderamento e viabilidade para realizações culturais de todas as linguagens, entre outras ações qualificadoras da cultura na cidade. E nessa esteira parece rumar a literatura, saindo do foco comercialesco e entrando forte e propositiva na valorização do livro e no hábito da leitura, mas sobretudo em colocar Pelotas no roteiro de grandes escritores e valorizar a produção literária da cidade. Portanto, que fique bem claro, a Prefeitura não está cobrando aluguel do Mercado Central para a Feira do Livro, apenas não acha justo com a população pelotense e o orçamento público arcar sozinha com uma programação cultural qualificada, de um evento do qual ela é apenas apoiadora, ou seja, arvora-se uma nova visão para a literatura na cidade e isso começa a ruir com o Feudo daqueles que até agora somente visavam o lucro e que histericamente choram o despendimento de uma mísera lasca do soldo.

Por: Wladimir L. Karpov
Publicado originalmente em 10 de outubro de 2013, 0h45min via facebook.com/wladimir.l.karpov

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