Thetro Sete de Abril e Cia Z

Festival de Teatro, 1986, elenco do espetáculo “A Menina e o Vento” Grupo Art’Dance que deu origem ao Grupo Z que posteriormente transformou-se em Cia Z de Teatro.


Falar da importância do Theatro Sete de Abril em nossa história e na história daqueles que passaram pela Cia Z, às vezes nos parece até redundante, pois este teatro de 1832, localizado em Pelotas, no Rio Grande do Sul, foi por muitos anos mais do que um lugar onde fazíamos apresentações, ele foi a nossa casa, o nosso lar. Nossa angústia por saber que encontra-se fechado há mais de dois anos é mais do que gigantesca. E não trata-se apenas de uma relação onde a distância sabemos que a casa de infância está abandonada… é muito maior do que isto. É aniquilar o espaço do público, da população! E quando fala-se de teatro como espaço, a palavra público é muito mais ampla do que quando a usamos cotidianamente, pois o público do Teatro vai da população que o vivencia, como espectadora em seus espetáculos, aos artistas locais.

Alcançando ainda companhias, bandas, músicos, artistas, produções que se propiciam dela provindas não só do município que a Casa de espetáculos está localizada, mas dos mais variadas localidades, e serve de referencial àqueles que escolhem a arte teatral como caminho, seja a população que desfruta da cultura que ali se produz e reproduz.

Festival de Teatro, 1986, elenco do espetáculo "A Menina e o Vento" minutos antes da estréia, o início da Z.
Fernanda Avellar e Nilo Corrêa no espetáculo "A Menina e o Vento" , 1986.
E o espaço do teatro, como arte, sua circulação também sofre quando um teatro como o Sete de Abril fica fechado. Sem falar nas consequências para a população que pouco a pouco vai mudando o olhar em relação a casa de espetáculos para enxergá-la apenas como um prédio velho…mais um entre tantos… E assim o referencial de nossa cultura transforma-se em um cão de rua, que ainda que possua pedigree, está sarnento e causa asco. Vira apenas mais um prédio mofado e úmido. Mais um cachorro de rua pulguento e asqueroso. E com o tempo as pessoas acostumam-se a não mais sentir sua falta como espaço público e o quanto é essencial a cultura, mas a olhar para ele como algo que já não presta.
Espetáculo "Crônica de um Brasil com Z", co -produção entre o Grupo Z e o Grupo Casa de Brinquedos, Festival de Teatro, 1989.
Elenco do espetáculo "Os Saltimbancos", (março/1993) no palco do Teatro Sete de Abril, antes de uma das tantas apresentações que o espetáculo fez no teatro ao longo dos anos 90.
O elenco do espetáculo "O Sítio do Pica-pau Amarelo"na frente do Teatro em outubro de 1993, no dia da estréia.
Nós apresentávamos no Teatro Sete de Abril num tempo em que não se podia pisar muito forte para respeitar sua estrutura. E foi assim que aprendemos a respeitar o espaço de nosso ofício. Era tradicional ouvir antes de cada sessão uma vinheta em que dizia:

“Theatro Sete de Abril a casa de espetáculos mais antiga do país em constante funcionamento…”

Frase que hoje seria obsoleta …pois antigo o teatro segue sendo, mas não mais funciona.
Passou a ser ser uma ruína. Um leproso a mais entre tantos outros prédios podres que esperam uma decisão das autoridades competentes.
E bem sabemos que falta vontade para reabrí -la pois por detrás da interdição há sempre interesses que vão muito além do que possa supor nossa vã filosofia. E o fato é que dois anos não são dois dias, bem sabemos o valor de dois anos sem tratamento na vida de uma pessoa doente, num câncer …
E se o Theatro foi fechado porque haviam infiltrações qual o real diagnóstico do câncer que fez com que fosse ‘internato na CTI” ? ? ?
Espetáculo "Em busca da Terra de Noel", dezembro de 1994.


Espetáculo "A Viagem de um Barquinho", outubro de 1995.
Isto causa angústia… Por que não se fala… ok, o teatro não pode ser usado, mas sua portas tem que ficar constantemente trancadas para o mofo se alastrar??? E para os equipamentos que lá dentro existem (ou existiam) deteriorarem-se ? ? ?
Por que as coisas não são transparentes, para que a população possa junto aos administradores públicos unir forças para reabrir o teatro…???
Pode parecer utopia, mas se não for no berro e com a união de todos os que amam o teatro ele vai ruir e será mais uma lenda, uma lembrança de um tempo de uma Atenas perdida no sul do Brasil.

Qual a medida paliativa para que ele não desabe e morra ???
Platéia da Escola Assis Brasil, para assistir ao espetáculo "Eu chovo, Tu choves, Ele chove..."em março de 1996.
Espetáculo "Eu chovo, Tu choves, Ele chove..."em março de 1996.
Atores da Cia Z de teatro com o público ao término do Espetáculo "Eu chovo, Tu choves, Ele chove..."em março de 1996.
O mais paradoxal que Pelotas, a cidade que desde sempre levou o título de Atenas do Sul , Princesa do Sul, cidade das artes, da cultura na festa de seu aniversário vai ter o Theatro de portas fechadas… e isto é no mínimo vergonhoso, entristecedor, mais ainda no ano de seus 200 anos. Não apenas pela sua história, como edifício teatral, mas por toda a diferença que ele fez, faz e poderá fazer na vida cultural do município. Por toda a diferença que um Theatro como o Sete de Abril trás para a vida da praça e da cultura da cidade. E sem falar que assim fechado nos tornamos todos um pouco obsoletos, analfabetos de uma Atenas latino Americana, de uma Tubiacanga do sul, de administradores inoperantes.
Queríamos deixar bem claro que se não fosse a nossa vivência junto ao Theatro Sete de Abril, entre os anos de 1986 a 2002, certamente nossa história seria diferente. Nossa formação passa por ali. Nossa aprendizado, nossa prática na profissão.
E é desta diferença que nós falamos a de ter o teatro de portas abertas e a arte de Pelotas e sua história viva com direito ao seu templo em pé. Não queremos ver este pedaço do império helênico pelotense ruir.

Atrizes da Cia Z de teatro ao término do Espetáculo “Chapeuzinho Vermeho” em outubro de 1996.
Pelotas é uma rara cidade pois não possui uma Igreja na Praça Central…
e nós viajando por aí nunca nos deparamos com nenhum lugar assim…
o templo de nossa Praça é o theatro Sete de Abril,
e se nada for feito para reabri-lo de fato
tornar-se-á apenas um espaço sagrado
de nossas míseras lembranças.
Fica aqui nosso grito de VIVA O TEATRO
e o apelo
THEATRO SETE DE ABRIL DE PORTAS ABERTAS!
Originalmente publicado em ciazdeteatro.blogspot.com.br
Sobre Deco Rodrigues 6731 Artigos
Jornaleiro/Produtor cultural, social mídia, gestor de conteúdo web, pretenso escritor, autor estreante com o romance Três contra Todos.