Folhetim Cores Primárias – Capítulo 4: Encontro por Lucian Brum

Capítulo 4: Encontro (Confira aqui o Capitulo 1: O Jornal)

A fumaça dos cigarros encobria o teto do quarto. Escorados na cabeceira da cama, nus e satisfeitos, Ruy e Cora fumavam olhando o céu pela janela aberta.

Seus corpos suados repousavam em uma fadiga voluptuosa. Haviam se amado com o desejo feroz da saudade. Acendendo suas cobiças. Sem respeitar etapas. Violando o instinto das carícias. Ela tomou iniciativa, apoiou as mãos e os joelhos na cama e mandou que ele se posicionasse atrás. Queria sentir impacto em suas nádegas, ser penetrada com intensidade e força. Ele a segurava pela cintura, e controlava o ritmo das investidas. Num instante de retração e ardor, juntos, gozaram. Ainda ofegante, Ruy catou no bolso da camisa o maço de Camel.

— Não esperava te encontrar no Papuera — disse Cora, soprando fumaça.

— A cobiça por dinheiro me botou numa sinuca — levantou e foi até a janela, lançou a bagana com um peteleco, virou-se pra Cora — Queria te agradar com um presente, pois sentia tua falta.

Foto Lucian Brum

Cora desarmou-se num sorriso. Ruy se enroscou novamente no corpo da mulher que queria chamar de sua. Alisou os seus seios. Se beijaram com gana e ele a penetrou com força. Seus clamores de prazer soaram janela afora. A madrugava foi se desfazendo em delírios.

O movimento na delegacia estava calmo. Um homem passava informações para o soldado que preparava um boletim de ocorrência. “O silêncio se torna estranho onde é comum a algazarra”, pensou Ruy. Dr. Guedes o recebeu em sua sala. Sentado em uma cadeira giratória, atrás da uma escrivaninha abarrotada de papeis, o delegado ironizou:

— Em que posso ajudar esse nobre jornalista?

Conhecia o policial desde criança. Dr. Guedes foi colega do pai de Ruy na faculdade de Direito. A longevidade de sua carreira na reportagem policial se deve a informações que recebia em primeira mão. Um escrevia com dados sigilosos e o outro figurava como servidor exemplar. Para eles uma troca justa. Ruy foi respeitoso:

— Gostaria de saber como está a investigação da morte de Antônio Castro?

Em contraste com sua camisa e seus cabelos brancos, o delegado se converteu numa expressão nebulosa. Olhou para Ruy e despejou:

— Aí tem coisa ¬— ajeitou-se na cadeira, remexeu um papel na mesa e seguiu — Mas eu não quero nem saber, em alguns meses eu me aposento, vai ter que cavar outra fonte jornalista.

Ruy contou que havia tirado uma folga no jornal e sua matéria não havia sido publicada. Na televisão também não saiu nada. Falou sobre a popularidade do pintor. Era uma estranheza fora do comum ninguém falar sobre o assassinato de uma personalidade. O delegado olhou esbravejante para Ruy:

— O cara tomou um tiro de revolver trinta e dois a queima roupa. Morreu na hora. Logo que eu desci da viatura na ocorrência, me ligou o secretário de segurança. Aquele puto queria me dar ordens, nem militar ele é, um cargo político. Disse que era uma vítima especial, que não queria rebuliço, iria me procurar novamente para organizar as providências da investigação. Mandei ele longe e desliguei o telefone. Não gosto daquele cara, mas entendi o que ele quis dizer. Se fosse outros tempos iria atrás, agora só quero minha aposentadoria.

Ruy saiu da delegacia decidindo abandonar o caso. Sonia havia lhe pagado por dois dias. Era o terceiro que estava tentando dar uma de detetive. Por descuido do destino havia reencontrado Cora, estava contente. Iria voltar para o jornal. Não achava interessante entrar num jogo de poder sem ser a reportagem o seu instrumento. Sonia poderia já estar de volta a São Paulo essa hora. Caminhava em direção ao Mercado Central, quando tocou o seu telefone:

— Quem fala é o Guto, sei que tu estás andando por aí fazendo perguntas sobre a morte do Antônio. Eu vou lhe contar tudo.

Continua… (Confira o último capítulo de Cores Primárias aqui no ecult, na primeira quinzena de Janeiro/2020).

Leia: Cores Primárias – Capitulo 1 : O Jornal

Texto e foto: Lucian Brum – lucian.brum@ufpel.edu.br

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Folhetim – Apresentação:
O folhetim nasceu na França nos idos da primeira metade do séc. XIX, como uma estratégia de comunicação para conseguir fidelização dos leitores com o jornal diário, e consolidar a venda por assinatura. Todo dia o jornal publicava um capítulo da história, que girava em torno de temas cotidianos, e chamava atenção de leitores nobres, burgueses e assalariados. Ocorreu certa democratização da literatura, e se criou uma vitrine para escritores divulgarem seus nomes para um público mais abrangente que o das livrarias. Grandes obras foram publicadas no formato popular: Honoré de Balzac escreveu Ilusões Perdidas no jornal La Presse de Paris; Machado de Assis publicou Memórias Póstumas de Brás Cubas em edições da Revista Brasileira. Até os dias de hoje o estilo é o mais consumido nos meios de comunicação, no entanto, com o passar dos tempos, foi convergindo em radionovela, telenovela e atualmente chamamos de séries.

Acompanhe o folhetim Cores Primárias aqui no e-cult.
Capitulo 1 : O Jornal |  Capítulo 2: Retrato | Capítulo 3: Retrato Capítulo 4: Encontro Capítulo 5: em breve

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