Gabi vai tocar de Pelotas para a Capital

4163100118_a277f19ed3É noite de rock no Dr. Jekyll. Enquanto a primeira banda mutila seus instrumentos, em frente ao palco Gabi Lima se destaca em meio ao pequeno público com uma Nikon D40 nas mãos. Fotografia está entre suas paixões, mas não foi isso que a tirou de casa numa noite úmida de primavera porto-alegrense e a abalou até o decano bar da Cidade Baixa. A razão foi a mesma que a empurrou para fora de outra casa, fez fixar residência na Capital e, no meio da festa, tentou me convencer a comprar seu primeiro disco _ mesmo eu o tendo baixado, de graça e há muito tempo, em seu site oficial.

_ Mas esse aqui está com qualidade melhor. Vai, seis pilas, olha que impressão legal a da capa _ ela insiste, agora assumindo a identidade de Gru.

E aqui cabem algumas explicações. Gabi Lima é a porção civil de Gru, compositora, cantora e multiinstrumentista. A primeira acaba de chegar de Pelotas, onde viveu os últimos 27 anos, para morar com o namorado em Porto Alegre. Trouxe pouco mais que o violão, laptop, Ipod, quatro barras de chocolate Milka de meio quilo cada e o livro Alucinações Musicais, de Oliver Sacks.

A segunda é dona de uma voz rasgada, da escola de Cássia Eller e PJ Harvey, canta num inglês perfeito, gravou sozinha (somente garganta, violão e dor de cotovelo) o disco de covers Loneliness Keeps Company, em 2005. Nele, entrega as referências que usaria para construir, quatro anos depois, Kitchen Door, seu primeiro trabalho autoral _ e que, naquela noite, tentou me vender.

Óbvio, Gabi trouxe Gru para vencer em Porto Alegre. Depois que Pelotas ficou pequena, a Capital foi um movimento natural, onde espera encontrar terreno fértil para seu pop diferenciado. Veio em busca de contatos também, apesar de já conhecer figuras chaves da cena underground da cidade, ser apadrinhada pelos mineiros do Pato Fu (John Ulhoa produziu uma das faixas de Kitchen Door e a banda toda fez backing vocals) e estar pronta para se lançar nacionalmente pelo selo Senhor F Virtual, do prestigioso capo indie Fernando Rosa.

Nenhuma pressa, ela garante, enquanto trabalha num estúdio de gravações produzindo trilhas para jingles publicitários. Quer mostrar toda a potência de Kitchen Door, e para tanto precisa de uma banda de apoio _ por isso, também procura por parcerias musicais. Se conseguir espaço apenas para voz e violão, tudo bem, ela volta ao pocket show “Gabi vai tocar” que a fez conhecida em Pelotas.

_ Mas aí é uma apresentação mais de covers, no estilo do meu primeiro disco _ comenta, lembrando com carinho dos Wilco, Sublime, Elvis Costello e R.E.M. presentes em Loneliness.
Alguns números do “Gabi vai tocar” podem ser assistidos no YouTube. Entre músicas “sérias”, Gabi faz versões impagáveis de Crazy in Love, de Beyoncé, e Womanizer, de Britney Spears. Estranho? Inadequado?

_ Tento equalizar diversão com o que gosto. O importante é soar bem _ sentencia, sem ligar para uma eventual patrulha ideológica.

E como uma patrulha pegaria alguém que se identifica com os irmãos Hanson até fisicamente? Que canta Tom Waits com tanta vontade mesmo sendo abstemia? Que não tem pudor em compor um cancioneiro pop tão perfeito que caberia em qualquer propaganda moderninha de telefonia celular? Que escreve sobre todo tipo de amargura juvenil tendo uma máquina de algodão doce e coleção de latas de refrigerante em casa? Gabi responde:

_ Isso é um problema, sabe? Essa coisa de ter que fazer música assim ou assado, de precisar cantar em português, de ter essa ou aquela influência.

A música de Gru reflete a mulher do seu tempo que é Gabi. Adolescente classe média nos anos 90, ela é parte da geração que substitui a TV aberta pelo cabo, descobriu na incipiente internet uma janela para o mundo e nunca deu bola para o rádio. Por isso a naturalidade em escrever e cantar em inglês, as referências importadas (literalmente), a identificação com o Do It Yourself expressa desde tocar todos os instrumentos até montar o próprio site para divulgação.

Além de, claro, vender seu peixe com a certeza de que vale cada centavo investido. Como tentou fazer comigo naquela noite de quarta-feira. E quase conseguiu, não tivesse oferecido de bom grado, antes que eu abrisse a carteira, a cópia que havia levado para a festa. Sorte minha.

Kitchen Door (2009)
1. Saturday Morning Hope
2. The Same as Being
3. Pick up the Pieces
4. California (I´m Outta Here, Bitch)
5. Losing You
6. All This Time
7. Drugs
8. Maybe Today

Loneliness Keeps Company (2005)
1. 3rd Planet (Modest Mouse)
2. Frying Pan (Victoria Williams)
3. Almost Beating (Bill Janovitz)
4. Radio King (Golden Smog)
5. Sunken Treasure (Wilco)
6. New Realization (Sublime)
7. Bedlam (Elvis Costello)
8. This Cold (John Frusciante)
9. Saudade (Pato Fu)
10. Hope (R.E.M.)

Baixe os discos completos + faixas bônus aqui.

Texto e Foto: Gustavo Brigatti
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