A reinvenção de Gessinger em Pelotas

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Show traz todos os 1bertos dos últimos 30 anos.

Foto: Marcelo Fialho
Foto: Marcelo Fialho

A gélida quinta-feira, 21 de julho, foi a data escolhida por Humberto Gessinger para renovar sua visita a Pelotas, hábito praticamente anual.  Perto das nove da noite, no interior do Theatro Guarany, além da lojinha da Stereophonica (com seus bibelôs relacionados ao artista), aroma de quentão no (b)ar. Boa metáfora para o vinho da concepção musical que em instantes aqueceria o local centenário, em produção da Martius Entretenimento. Com três de suas cinco décadas vivendo a música a pleno coração, 1berto está entre os artistas que se permitem subverter a “lógica do mercado”. Algo que ele faz já ao adentrar o palco, abrigado em um poncho esverdeado: sem necessidade de poupar para o bis um de seus maiores hinos, manda de cara “Infinita Highway”, reproduzindo algumas linhas de baixo das versões mais clássicas. Outra subversão gessingeriana é a da reinvenção constante: a maioria das canções da noite vão muito além de reproduções dos discos. Humberto sempre regurgitou sua obra com a propriedade máxima do autor, vide as recriações capturadas em seus discos ao vivo. No show atual, as músicas em vários momentos vêm encartadas dentro das outras, e/ou costuradas ao estilo medley, e/ou rearranjadas de forma mais ou menos radical, conforme o caso – tem que ser divertido para os músicos também. Mas os “clichês inéditos” continuam presentes, e ao final da quarta música, “Ando Só”, Humberto arrisca o tradicional salto em altura, com o instrumento, para a posteridade das fotos.

Foto: Instagram.com/1Gessinger
Foto: Instagram.com/1Gessinger

Duas canções mais tarde, com “Bora”, da introdução ao efeito de vocoder, a coisa começa a ficar seriamente progressiva, recordando-nos que estamos ante um dinossauro do róque brasileiro. Um epílogo em reggae para dar uma variada e logo… um blues ? É o que parece “Surfando Karmas & DNA”, mas no estilo Gessinger de ser. Intimista, a iluminação se reduz ao foco no autor durante a letra confessional, típica de sua filosofia. Muitas letras de Humberto parecem declarações de princípios: a recusa em desistir, a resignação em andar só, mesmo acompanhado, como sempre esteve. Mais tarde, Gessinger anuncia “Alexandria”, que pretende lançar em versão de estúdio em 2017. Parceria com Tiago Iorc, já gravada por este em disco, a exemplo do Jota Quest, que lançou “Tudo Está Parado” bem antes de Humberto. “Pose” é um dos ápices de protagonismo da platéia, através das palmas. Em seguida, intensa aclamação a Gessinger, quando este retorna da lateral do palco de posse do acordeão. O som lúdico do kit melódico tocado por Rafa Bisogno introduz um momento de clima onírico com “Somos Quem Podemos Ser”, cujo refrão fala mesmo em sonhos, fato explorado por Humberto para interagir. É o início de uma seção de estética menos rock e mais folklore, com um pé nos cancioneiros a la Nico Nicolaiewsky, que apropriadamente figura entre os convidados do disco Insular (2013), último de inéditas. O tratamento delicado se estende ao que viria a seguir: a primeira de duas homenagens aos aniversariantes do ano. O álbum Longe Demais das Capitais, completando 30 anos, é lembrado com o que Humberto blefou ser um par, e na verdade surge como uma trinca de canções: “Segurança/Crônica/Toda Forma de Poder”, em versões acústicas, seminuas, (des)pretensiosas, e com interessantes vocalizações de apoio de Nando Peters e Rafa, dupla que completa a escalação atual. Este tributo é o que restou do projeto inconcluso de regravar o disco de estréia este ano, ao modo Insular: com alternância de músicos e viés regionalista.

Foto: Marcelo Fialho
Foto: Marcelo Fialho

Segue-se um set eletro-orgânico incluindo “Alívio Imediato” em roupagem simplificada e “Pra Ser Sincero” dedilhada na guitarra. Nova comemoração de aniversário, agora do álbum do Humberto Gessinger Trio, 20 anos. “De Fé”, “Vida Real”, “Freud Flintstone” e uma evolução de “O Preço” com intervenções de órgão timbre Jovem Guarda e riff guitarreiro mais “visceral”. Ainda teríamos mais um punhado de canções mantendo as variações de formas, e um bis, onde a banda volta em clima mais informal para três músicas, atingindo ao todo mais de hora e meia de apresentação. Toda a discografia de estúdio foi representada, exceto “Simples de Coração” (1995) e “Pouca Vogal” (2008).

Apesar de promover um compacto em vinil com reinvenções de duas canções antigas, o show Louco Pra Ficar Legal não está atrelado a um novo álbum long play, por isso representa o encontro de todos os Humbertos até então conhecidos. O guitarrista, o milongueiro jovem, o da gaitinha folk, o do power pop trio autoproduzido, o desplugado do bootleg “Woodstock”, o das ressurreições roqueiras, o multi-instrumentista experimental das twitcams, o buscador de novas “soluções” musicais do PcVgl, o milongueiro tardio. Sem hologramas nem dançarinas, a experiência oferecida por Gessinger é a projeção da grandeza de seu universo musical interior.

Setlist – reorganizado na ordem da discografia
Longe Demais das Capitais (1986)
Segurança
Crônica
Toda forma de poder
A Revolta dos Dândis (1987)
Infinita Highway
Refrão de Bolero
Terra de Gigantes
Ouça o que Eu Digo, Não Ouça Ninguém (1988)
Somos Quem Podemos Ser
Alívio Imediato (1989)
Alívio Imediato
O Papa é Pop (1990)
O Papa é Pop
Pra Ser Sincero
Exército de Um Homem Só
Exército de Um Homem Só II
Várias Variáveis (1991)
Ando Só
Muros e Grades
Piano Bar
Gessinger, Licks & Maltz (1992)
Pose
Humberto Gessinger Trio (1996)
De Fé
Vida Real
Freud Flintstone
O Preço
Minuano (1997)
A Montanha
Faz Parte
¡Tchau Radar! (1999)
Eu Que Não Amo Você
3 X 4
Surfando Karmas & DNA (2002)
Surfando Karmas & DNA
Pra Ficar Legal
Dançando no Campo Minado (2003)
Até o Fim
Dom Quixote
Insular (2013)
Insular
Bora
(inédita em disco)
Alexandria

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