Aquarius – recepção e resistência

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Um filme brasileiro chamou a atenção do mundo todo ao ser exibido no Festival de Cannes, em meados de maio. Aquarius, escrito e produzido por Kléber Mendonça Filho e estrelado por Sônia Braga, foi indicado à Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival.

Por Calvin Cousin

Sônia Braga protagoniza o longa-metragem de Kléber Mendonça Filho (Foto: Divulgação)
Sônia Braga protagoniza o longa-metragem de Kléber Mendonça Filho (Foto: Divulgação)

O longa obteve destaque graças à recepção extremamente positiva por parte dos críticos e, também, pela nuvem de controvérsias que sua exibição e eventual lançamento causaram.

Aquarius tem como principal cenário o edifício epônimo, da década de 1950, localizado na Praia de Boa Viagem, em Recife. Sua única moradora é Clara (Braga), jornalista aposentada que, após a transição dos filhos para a vida adulta, mora sozinha num apartamento repleto de discos de vinil e livros sobre música, alguns de sua própria autoria. De todos os moradores do Aquarius, Clara foi a única que não aceitou a proposta de uma grande construtora que compraria o apartamento e, no lugar do edifício, construiria um condomínio de luxo. O que segue é a jornada de uma inteligente mulher – pressionada por uma sociedade que a subestima – que busca preservar sua memória e as sensações que suas materialidades despertam.

Aquarius em cartaz
Aquarius estreou no circuito comercial brasileiro no dia 1º de setembro, em vinte cidades, sendo a segunda melhor estreia de um longa-metragem nacional em 2016, atrás apenas de Os Dez Mandamentos, que ganhou notoriedade pelo fato de muitas salas estarem vazias, mesmo com os ingressos esgotados. Pela primeira semana ter contado com mais de cem mil espectadores, para a segunda, o mercado ampliou para 33 o número de cidades em que o filme ficou em cartaz. Atualmente na quinta semana, o filme está sendo exibido em 35 municípios (ainda que não tenha estreado em Pelotas, apesar de movimentos no Facebook para que viesse à cidade). O longa já faturou mais de R$ 3,7 milhões, sendo a maior bilheteria da história do cinema pernambucano e tendo atraído mais de 250 mil pessoas para os cinemas, de acordo com o Diário de Pernambuco. Na França, o filme foi visto por 41 mil espectadores no primeiro final de semana, ao ser lançado em 28 de setembro.

No que se refere às críticas, as de Aquarius são majoritariamente positivas. O site Rotten Tomatoes, que agrega resenhas de diversos veículos, indica que o filme tem 95% de aprovação entre os críticos, que elogiam, sobretudo, a atuação de Sônia Braga, frequentemente comparando a obra a um estudo de personagem (Clara, em muitos momentos, fica totalmente sozinha em cena). O Metacritic, por sua vez, compara as avaliações antes de dar uma nota para o produto e avalia Aquarius com 85 de 100, trazendo louvores de jornais e revistas como o The Telegraph e a Variety. O site AdoroCinema, coletando críticas da imprensa brasileira, atribui nota 4,4 de 5 para o longa.

"Um golpe aconteceu no Brasil" - Equipe protesta em Cannes (Foto: Reuters/Yves Herman)
“Um golpe aconteceu no Brasil” – Equipe protesta em Cannes (Foto: Reuters/Yves Herman)

As controvérsias
O tapete vermelho da primeira exibição de Aquarius em Cannes aconteceu cerca de um mês após a decisão na Câmara dos Deputados de dar continuação ao processo de impeachment da então presidenta Dilma Rousseff.

Durante a gala, os atores e a equipe de produção portaram cartazes de protesto com dizeres, em inglês e francês, como “Um golpe aconteceu no Brasil” e “54.501.118 votos queimados”. Seguido por uma postagem de agradecimento de Dilma no Twitter, o acontecimento ganhou espaço na imprensa internacional e nos sites de redes sociais, gerando um interesse poucas vezes recebido por um filme brasileiro recente.

De fato, Aquarius, antes mesmo do lançamento oficial no Brasil, já despontava como o favorito para ser o representante brasileiro na seleção dos indicados ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Todos os anos, um júri definido pela Secretaria do Audiovisual, do Ministério da Cultura, escolhe o longa que representará o país na disputa, sendo que neste ano a seleção do jornalista Marcos Petrucelli para compor a comissão, após criticar abertamente o ato da equipe em Cannes, originou polêmicas em fóruns online a respeito de um possível partidarismo. Em matéria para a Folha de São Paulo, Petrucelli defendeu que não iria escolher apenas o melhor filme brasileiro, mas sim o melhor filme brasileiro com chances de ganhar o prêmio, tendo em vista o histórico da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, responsável pela premiação, de escolher obras com temáticas semelhantes às de anos anteriores. “Faço a cobertura dos prêmios da Academia há mais de vinte anos. E já estive no Oscar, em Los Angeles, cinco vezes […] Conheço, portanto, muito bem o Oscar e a mentalidade da Academia”, afirmou.

Após o anúncio do júri, para aumentar as chances de Aquarius ser escolhido, os cineastas Aly Muritiba, Anna Muylaert e Gabriel Mascaro retiraram a candidatura de seus filmes Para Minha Amada Morta, Mãe Só Há Uma e Boi Neon, respectivamente (o escolhido pelo júri em 2015, Que Horas Ela Volta?, contava com a direção de Muylaert). Entretanto, o selecionado para a disputa foi Pequeno Segredo, de David Schürmann. Mesmo assim, Aquarius vai ser exibido em sessões especiais em Nova York e em Los Angeles na tentativa de conseguir uma indicação para Sônia Braga na categoria de Melhor Atriz, uma vez que a artista tem história com a premiação: foi a primeira brasileira a apresentar uma categoria no Oscar, em 1987, ao lado de Michael Douglas.

Não bastando, discussões ainda maiores surgiram ao redor da classificação indicativa de 18 anos que o Ministério da Justiça originalmente concedeu ao filme, por exibir cenas de sexo explícito ou em que os personagens utilizam drogas ilícitas. A distribuidora Vitrine Filmes entrou com recurso, que foi negado, para baixar a censura, tendo em vista que o Brasil foi o único de sessenta territórios que deu a classificação máxima ao filme. Após novas manifestações nas redes sociais, a recomendação foi determinada para os 16 anos no dia da estreia.

Seguida a série de controvérsias, gritos de “Fora Temer” são frequentes ao final das sessões do filme. Os espectadores parecem ter entendido que, como bem diz Clara logo antes dos créditos rolarem, é preferível ser um câncer do que se ter um.

Acompanhe a programação de Aquarius na página do filme no Facebook: www.facebook.com/aquariusfilme/

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14264149_830693777030502_5101510297978826840_nCalvin Cousin é estudante no sexto semestre de Jornalismo na UFPel. Não acredita em horóscopo, mas é aquariano com Vênus em Peixes

1 COMENTÁRIO

  1. Aquarius é aquele filme defendido por gente que diz não falar fino com os EUA e grosso com a Bolívia enquanto busca reconhecimento do Oscar.

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