Beth/Clarice: maturidade em cena.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Quem compareceu ao Theatro Sete de Abril na noite de 11 de novembro (quarta-feira), teve a oportunidade de assistir um espetáculo completo e de conhecer um pouco do universo de uma das escritoras brasileiras de maior reconhecimento na literatura nacional. No monólogo “Simplesmente eu – Clarice Lispector”, a atriz Beth Goulart, aos 48 anos, se mostra em plena forma física, capaz não só de executar bem tecnicamente um trabalho (dizem que em 1985 estudou com o renomado teatrólogo inglês Peter Brook), tanto em interpretação quanto em partitura corporal – os movimentos são precisos, limpos – como de construir tão ricamente a personagem que nos confere a sensação de realmente estarmos na presença da escritora de temperamento forte e personalidade irreverente. Poderia dizer-se que foi “A hora da estrela”, da estrela Beth, que também assinou a direção da montagem.

Clarice estava ali, sem dúvida, com seu jeito firme, atrevido, quase arrogante… A sabida vaidade refletida no requinte de suas roupas (figurino simples, prático, em tecidos leves, com delicado caimento), maquiagem, jóias, no seu jeito de andar, de segurar o cigarro, de sentar-se, de falar (ainda que à atriz lhe “escapasse” o erre carregado em alguns momentos. Totalmente perdoável)… O cenário simples – um semicírculo demarcado por uma cortina feita em tiras, um divã, uma cadeira, uma banqueta, tudo em “tons de branco”… Belo. Ainda que eu teria imaginado uma escolha em tons acinzentados, para acentuar as matizes “grises” da escritora, mas, aí, cada cenógrafo teria pensado algo diferente… -, poucos adereços em vermelho e a iluminação, executada com precisão, contribuíram para valorizar as cenas. Projeção de imagens que ocupavam toda a extensão do palco, um recurso que poderia ser atribuído ao distanciamento brechtiano, mas que neste caso parecia ser usado puramente pela beleza plástica, sem pretensões de “lembrar o espectador” que se trata de uma peça de teatro e, assim, instigá-lo a um posicionamento crítico.

No palco, vimos maturidade. A maturidade da atriz, demonstrando domínio do que fazia – Beth intercalava trechos em que interpretava ora a escritora, ora algumas de suas personagens – e inclusive se arriscou a cantar e dar alguns passos de dança… A maturidade da personagem, refletida em trechos autobiográficos extraídos de seus escritos e entrevistas à imprensa, que não tinha medo de dizer o que pensava nem de expor suas dúvidas existenciais – é preciso estar muito segura para admitir as próprias fraquezas e incertezas.
No final da peça, Clarice se foi e “veio” Beth, acessível, humilde, colocando-se a disposição da plateia para conversar. Fez um pequeno discurso sobre o sentido de fazer teatro, desta esperança – vã? – que nós artistas temos de conseguir, de algum modo, tocar o espectador, de fazê-lo repensar seus próprios valores, sua postura moral e ética… De fazê-lo sentir-se capaz de sair na inércia, do estado de anestesia total diante da podridão e da impunidade que o rodeiam, de agir, de mudar sua vida, de mudar o mundo que o oprime e o insatisfaz. Beth comoveu duplamente, com seu espetáculo e com seu discurso sincero, sensível.

Que bom que o público pelotense soube aproveitar mais um “presente” oferecido pelo Sesc, que possibilitou preços populares (R$ 10,00 a inteira) – cerca de 550 pessoas, uma vez que o teatro estava lotado e ainda havia pessoas sentadas nas laterais. Que bom que Beth não usou microfone – sinceramente, eu tinha minhas dúvidas, já que muitos atores globais estão fazendo cada vez mais “TV no teatro”, mas ela soube aproveitar a acústica do local e mostrou o potencial de sua voz, fazendo-se ouvir em cada canto do Sete de Abril. Que bom que Beth teve a oportunidade de “trocar energia” – como ela própria mencionou ao final – com uma plateia atenta e respeitadora, que se manteve em silêncio quase absoluto durante todo o espetáculo. Que bom que nós tivemos a oportunidade de conhecer um pouco mais de Clarice Lispector através de um trabalho bem executado. Como enfatizou a atriz e diretora, “foi um momento mágico, único, destes que somente o teatro pode proporcionar – só o viveu quem estava ali, porque, exatamente igual àquele momento, jamais acontecerá de novo”.

Joice Lima – atriz, jornalista, integrante do CCETP
Fonte: www.ccetp.blogspot.com