Entrevista com Renato Canini, cartunista responsável por criar histórias do Zé Carioca

Zé Carioca é um dos personagens da Disney, consagrado por ser representante do Brasil da maior mídia de entretenimento do mundo.

“Herdei o gosto de meu pai, que também tinha esse prazer. Ele me incentivava muito. Comecei com 10 anos de idade. Eu não tinha muito contato com gibis, cinemas, televisão, nem jornal.”

Foto: coletiva.net

Sabe de quem são essas palavras? Renato Canini, um dos cartunistas responsáveis por criar histórias para as revistas em quadrinho de Zé Carioca. Nesta entrevista você pode conhecer este gaúcho, que se considera pelotense e que tem orgulho de suas criações. Nascido em Paraí, na serra gaúcha, Canini foi condecorado, no dia 14 de outubro de 2005,  pela Câmara de Vereadores da cidade com o título de Cidadão Pelotense.

Como surgiu o personagem Zé Carioca?

O próprio Walt Disney, quando veio conhecer a América do Sul, criou o personagem como forma de homenagear o Rio de Janeiro. Outros personagens também foram criados para homenagear outros países, como o Mexico e seu personagem Panchito. A Disney nunca chegou a desenhar o Zé Carioca como ele era no Brasil. Na época em que foi criado, as HQ’s nos EUA não vendiam tão bem. Foi mais como forma de homenagem mesmo.

Qual o seu primeiro contato com o personagem Zé Carioca?

Morava em Porto Alegre. A minha vida vida profissional começou em 1957 na revista infantil Cacique da Secretaria de Educação e Cultura. Enquanto trabalhava, eu desenhava para outras editoras. Com 21 anos permaneci como concursado público fazendo desenhos técnicos de engenharia, mas no fundo não era isso que eu queria. Conjuntamente com isso, mandava meus desenhos a São Paulo para a chamada Imprensa Metodista. Depois veio um diretor de São Paulo dessa mesma imprensa e perguntou se eu nao queria ir para lá, substituir outro rapaz que havia ganhado uma bolsa para os Estados Unidos.

Esta oportunidade iria me abrir algumas portas, além da experiência que iria adquirir, então, aceitei. Ao passar por um banca de São Paulo, conheci a revista Recreio da editora Abril. A proposta me agradou. Apresentei meus desenhos e deu sorte de me aceitarem como desenhista. Naquele tempo era um sala bem grande, dividida em duas partes, a parte propriamente do pessoal da revista e a outra voltada para o pessoal que produzia desenhos da Disney para serem publicados pela Recreio. Eu não desenhava histórias em quadrinho, mas fui fazendo amizade.

Fiquei 2 anos em São Paulo querendo voltar a Porto Alegre, pois achava uma loucura o modo como levavam a vida. Entre uma conversa e outra, comecei a ter mais contato e logo surgiu a proposta de desenhar o Zé Carioca. Quando a saudade bateu, estava decidido a voltar para Porto Alegre. São Paulo se encarregava de distribuir os exemplares para o resto do brasil. Então, surgiu a oportunidade de mandar as histórias para eles. As histórias do Zé Carioca muito raramente saiam. Comecei a regularizar isso. Era uma rotina boa.

O Zé Carioca foi se moldando com o tempo. E isso se deve grande parte a você que foi lapidando o personagem, sendo considerado por muitos como o “Pai” do Zé Carioca. Como você vê esse processo?

(risos) Eu só ilustrava as histórias que mandavam de São Paulo. Eles roteirizavam e eu ilustrava. Então, retornava minhas criações para serem publicadas. Ficamos 6 anos nisso. A Disney criou o Zé Carioca com charuto, entre outras caracteristicas não muito brasileiras. Conforme o tempo passava eu ia mudando alguns traços sutis, e ia transformando outros adereços. Tentava torná-lo mais “brasileiro”. Colocava outros detalhes como campo de futebol, feijoada e morros, por exemplo. Depois desse tempo, veio a ironia do destino, uma ordem da Disney para me demitirem, pois estava fugindo da proposta inicial do personagem. Alegaram que eu não estava no padrão Disney exigido. Quando trabalhava na revista Recreio, tinha a liberdade de criar situações, mas quando veiculado com o nome Disney envolvido, tinha uma linha a ser seguida e me distanciei dela. Algo como uma “disciplina” e não podíamos fugir muito do que pediam.

Sem dúvida o Zé Carioca foi o personagem que mais me reconheceu como profissional, mas o que me dá orgulho mesmo são as minhas criações, meus filhos, por assim dizer (risos).

E quanto ao reconhecimento?

Hoje existe a internet e é muito mais fácil para veicular alguma informação. Na minha época não ficávamos muito conhecidos. Como eu não fui o criador do Zé Carioca, fiquei conhecido como mais um dos seus desenhistas. Mas ele nunca foi minha “criatura”.

Quais são os projetos futuros? Quais as ideias que você tem mente?

Não pode parar, né? (risos). Vamos ver até onde vai. Quando fui demitido, comecei a fazer outros trabalhos para outras editoras que não tinham mais nada a ver com o Zé Carioca. Hoje faço trabalhos próprios, como o Tibica que é um indiozinho, um personagem ecológico. Depois reuni todas as suas melhores histórias, melhorei os desenhos e mandei para editora Saraiva e ela os publicou. Projetos que envolvem Xilogravuras, também. E ainda livros infanto-juvenis.

Não pensa em fazer novas histórias do Zé?

Hoje em dia não. É tudo naquela continuidade. Vai do momento. Hoje não daria mais. A nova geração já está bem representada pelos profissionais que existem. O Maurício de Souza pegou todo mundo (risos). De todos os trabalhos o que mais me marcou foi o Zé Carioca. Comigo, todos os meses saiam histórias diferentes. Voltaram a me convidar para tentar desenhar novamente, mas não tenho interesse. “Tentar acertar a linha deles?” Eu tenho os meus traços e não vou me desfazer deles. Eu tinha meu jeito e pronto.

Curiosidades:

– As pessoas se identificaram com o Zé Carioca. Como o nome de Canini não saia nos créditos, outros recursos serviram para burlar esta regra como por exemplo: na casinha do Zé carioca Renato colocava remendos de madeira com o nome “Feijão Canini”; “Arroz Canini”. Era uma maneira que ele encontrava para colocar seu nome nas histórias e ter como provar sua autoria nas obras veiculadas.

– 30 anos depois a Disney americana queria homenagear os melhores desenhistas do mundo que ilustravam seus personagens. Brasil, Inglaterra, Estados unidos. Então, criaram o álbum especial “Mestre Disney”. Fizeram uma enquete com os leitores da editora Abril e escolheram Renato Canini como “melhor desenhista brasileiro”.

Renato: O que é uma ironia.

– Renato sempre gostou dos personagens da Disney. Hoje, ele não recebe royalts, embora suas histórias continuem sendo publicadas.

Entrevista realizada por:
Luiz Germano
Acadêmico do curso de Comunicação Social – Habilitação Jornalismo pela UCPel