Freak encarna Rage no panóptico do Munaya

Essa quarta-feira, rolou no Munaya mais uma edição do já consagrado Freak Toca Rage. Eu estava lá pra contar o que aconteceu, e talvez unas cositas más…

Por José Antonio Magalhaes

Meu primeiro Freak Toca Rage foi naquela esquina do Porto que hoje se chama Wong Bar, mas não sei se não era ainda o Moicano. Sei que faz alguns anos – e que foi uma atividade física. A banda tocava no mezanino, enquanto eu, alguns metros abaixo, me debatia em meio a uma névoa de suor e gelo seco, com punks, emos, grunges, manos, mulheres e homens, descamisados ou não.

YOUR ANGER IS A GIFT, disparava a voz do vocal Danilo Ferreira, assustadoramente parecida com a do Zack de la Rocha. As letras inconformistas, articuladas com clareza, ecoavam no crânio de todo o mundo ali em baixo. O instrumental, na caixa torácica. Se alguém ia pensar nessas letras depois de sair dali, se ia assumir algum engajamento pragmático coerente com o proposto, era outra história, mas de segunda importância. Devia haver algo de verdadeiro nesse sentimento que movia – fisicamente mesmo – a todo o mundo, ainda que o seu alvo não fosse tão claro.

Nessa época eu já não era novato na cena rock pelotense, mas mesmo da primeira vez que tomei conhecimento da Freak Brotherz eles já eram uma banda tradicional na cidade, que organizava festivais, que servia como um eixo social em torno do qual a galera circulava – eram os patronos do underground local. Para muita gente, eles representaram a primeira experiência do ídolo de carne e osso, que está por aí, que bebe junto e troca ideia. Quem gostava conhecia as músicas deles como conhecia as do Red Hot Chili Peppers ou do próprio RATM.

No presente, chego no Munaya para uma reunião e vejo que alguém botou um disco do Rage pra tocar. Que nada, era a Freak ensaiando no estúdio – para mais tarde fazer exatamente isso, ensaiar no estúdio, só que dessa vez com uma plateia que assistiria tudo em um telão no pátio. É o projeto Ao Vivo no Estúdio do Munaya, esse coletivo que, sendo muito mais jovem do que a banda, compartilha com os Brotherz o ideal de suprir de carvão as caldeiras da cena local. Surpresa: fiquei encarregado de escrever meu primeiro artigo para o e-cult sobre esse evento, e aqui estamos.

A banda, é claro, entrou com os dois pés desde o início (não consigo nem imaginar outra opção, tratando-se de um set de RATM). Os ouvintes estavam sentados ou em pé, mas quietos – é estranho pular na frente de um telão. Cabecinhas pulando, porém, não faltavam, já que ninguém é de ferro. Ao fundo estava a velha guarda, gente que se vê pela noite desde tempos imemoriais; na frente, rostos novos, tanto de vista quanto de idade – e prestando atenção.

Numa certa altura do show, o Solano, baixista e irmão do Danilo antes citado, parou para comentar a condição estranha de tocar para uma plateia sem vê-la. Em um show do tipo em questão, onde a transferência de energia entre público e banda é tão fundamental – e, novamente, tão física –, tocar nesse Big Brother, onde a observação é de mão única, era uma experiência radicalmente diferente e, por isso mesmo, um desafio. Porém, “chega um ponto que tu desliga e rola como se fosse um ensaio normal”, explica o Solano, “Acho que essa seria a ideia. Como se o público estivesse junto com a banda no ensaio”. Solano até gostaria de ter uma tevê no estúdio em que pudesse ver o público, mas consegue curtir a sensação de dúvida. A cegueira não intimidou a banda, que tocou com confiança.

Se a dimensão física do show estava fora do jogo, as pedradas da letra vinham com força redobrada, e a atenção público, não tendo que se concentrar em punkear ou defender-se dos cotovelos alheios, voltava-se inteiramente às canções e à técnica dos músicos, que reproduzem os sons originais com uma precisão impressionante. Hinos do Rage vieram em série, como Bullet in the Head, Know Your Enemy, Sleep Now in the Fire e aquela do Tony Hawk’s 2.

Na segunda parte do ensaio-show, a banda começou a intercalar sons próprios. Não é nenhuma imposição indesejada pelo público: se nos shows da Freak sempre houve o “Toca Rage!”, nos shows dedicados aos covers sempre se ouviu: “Toca Freak!”. “Veja”, a música de trabalho atual, foi mostrada e bem recebida. Na hora de tocar “Pisa Fundo”, o grande clássico da Freak, os rapazes se atrapalharam e tiveram que começar umas três vezes. “A gente toca a mesma música há dez anos e ainda erra”, brincou o Solano, e bola pra frente – ninguém se incomodou.

O cenário mudou bastante desde que surgiu “Pisa Fundo”. Chegaram as bandas indie, as festas descoladas, a chamada “nova MPB”. Para alguns, a Freak Brotherz pertence a uma época que já passou – merecem todo o respeito, mas talvez não toda a atenção. Para outros, ainda são uma das principais bandas locais em atividade, e representantes de um rock impactante, intencional, em uma época em que atitudes indiferentes e canções introspectivas já não soam tão novas.

A Freak Brotherz está bolando um show para comemorar o aniversário de 15 anos dessa história toda, e tem feito shows aos domingos para que a gurizada mais nova possa entrar em contato com o som.

Fotos: Eduardo Souza (as duas primeiras) e Rafael Dornelles (abaixo)