Memorial do Amor Inquieto vira espetáculo teatral no Rio de Janeiro

O jornalista e publicitário Charlie Rayné está em festa. Tudo porque sua obra O Memorial do Amor Inquieto, lançado em novembro do ano passado, pela editora Berthier, está indo de vento em popa.

O livro de vinte e seis crônicas distribuídas ao longo de sessenta e duas páginas, terá algumas de suas histórias adaptadas ao teatro, em março, e promete continuar emocionando o público, mas, agora, também nos palcos.

por : Isabelle Domingues

Foto Divulgação
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Inspiração que vem do cotidiano
Rayné sempre cultivou um lado mais espiritualista em seus trabalhos. Personagens do cotidiano, emaranhados por seus dramas e amores, encontros e desencontros, aprendendo a lidar com seus próprios fantasmas na busca do verdadeiro sentido de suas vidas, são o ponto central de seu livro.
“Ele vai falando dessas inquietudes do amor, mas o amor em todas as suas nuances. É o amor às avessas. Ele é básico, simples, e trabalha todas essas relações de amor desajustadas e inquietas, onde algumas dão certo e outras nem tanto”, revela o autor, a respeito de sua obra. Então este foi o filho pródigo? “É, foi o meu primeiro bebezinho. Tá tudo na minha barriga ainda, por isso que eu estou gordo” brinca, Rayné.

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Um homem de muitas faces
O homem romântico e apaixonado, que não se reconhece pertencendo a esta época, também já fora chamado de Diabo Loiro – mas jura, divertindo-se com o apelido, que este não lhe faz o devido juizo. Ator, jornalista, publicitário, professor, escritor, dramaturgo e pai amoroso…Com tantas habilidades assim, Rayné parece não gostar de se limitar.
Pergunto ao autor se tem algum personagem com o qual ele mais se identifica. “Ah, tem muita coisa minha aí. Tem a minha versão feminina (…) É mentira quem diz que é mera ficção. Tudo é da gente”, revela Rayné, elegendo a crônica A Cachorra como uma de suas preferidas.
Na história, uma mulher de situação confortável financeiramente, encontra-se frustrada, pois sente que sua vida não lhe pertence, que todas as suas decisões, na verdade, nunca foram dela. Determinada a cometer suicídio, no meio do caminho eis que surge uma cachorra. Na medida em que uma relação de carinho e amizade vai surgindo entre as duas, o animal lhe ajuda a acreditar na vida novamente, encontrando um novo sentido para sua existência.
Outras duas crônicas bastante significativas para o autor são A Avó e A Bailarina Emprestada. Na primeira, uma avó muito bem relacionada recebe ninguém mais ninguém menos do que Érico Veríssimo e Bibiana Terra, no que virá a ser o seu último mate. Trata-se de uma homenagem a avó de Rayné, como também à cultura tradicionalista. A segunda crônica trata-se de mais uma homenagem, mas, dessa vez, à querida amiga do escritor, Janaina Jorge, bailarina e coreógrafa pelotense falecida aos 33 anos de idade.

Como tudo começou
Ainda na adolescência, foi aos 14 anos que Charlie Rayné descobriu o teatro do COP, naquela época, sob a direção de Clovis Veronez. Desde então, nunca mais parou. E lá se foram dezenas de espetáculos aqui na cidade de Pelotas, além de um curta-metragem, o Insólita Presença, com roteiro escrito por ele.
O teatro, de uma maneira ou de outra, sempre está presente, pautando suas escolhas e fornecendo o combustível vital de sua arte na criatividade de um artista inquieto, sempre em busca de novos desafios e a superar-se em cada novo projeto.
Foi assim no Jornalismo, cujo teatro fazia parte de uma das cadeiras da faculdade. Da mesma forma, enquanto professor, nos seus esquetes didáticos que davam vida aos conteúdos de história de um curso pré-vestibular que o havia contratado para encená-las. “A construção do ator é uma das coisas que mais aparece no meu trabalho, porque a minha construção do personagem na literatura é muito parecida com a construção do teatro”, afirma.

Um padrinho e tanto
Apaixonado pela cidade maravilhosa desde os dez anos de idade, quando a visitou pela primeira vez, foi lá que ele viveu grandes momentos no teatro, trabalhando em diversos espetáculos. Nelson Rodrigues que o diga, ou melhor, diria, caso pudesse parabenizar Rayné por sua aclamada interpretação ao viver o autor, nos palcos, de A Vida Como Ela É e outros tantos sucessos.
“Eu digo que o Nelson é o meu padrinho espiritual no teatro. É inecreditável a forma como as coisas aconteceram. Eu sentia a presença dele comigo”, emociona-se o escritor ao falar de sua estréia, na Estudantina, casa de gafieira tradicional do Rio de Janeiro, no espetáculo Traição, com texto de Nelson Rodrigues. “O ator gaúcho é muito bom. A gente chega e arrasa mesmo. E o carioca percebe que a gente tem isso!”

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Fazendo as malas
O sucesso das crônicas publicadas por Rayné no tempo em que mantinha uma coluna no jornal Diário Popular, chega até o Rio de Janeiro, onde um grupo de atrizes resolve adaptá-las ao teatro, devido ao potencial que as histórias tinham para serem encenadas.
Foram escolhidas crônicas que falassem do universo feminino. Iniciativa essa que rendeu um prêmio ao escritor num concurso de novos talentos da dramaturgia, realizado no centro cultural Laurinda Santos Lobo, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Era o inicio de Memorial do Amor Inquieto no teatro.
O espetáculo é composto por 15 crônicas, onde, enquanto confeccionam uma colcha de retalhos, cinco mulheres, vividas pelas atrizes Beth Monteiro, Elisangela Borges, Danielle Holanda, Francyne Araújo e Thatiana Losch, narram suas experiências de vida. No momento em que decidem continuar a viver pacatamente ou dar vazão aos sentimentos contidos na essencia do que verdadeiramente são, elas entram em contato com seus próprios dilemas existenciais. Trata-se do retrato da mulher contemporânea, ainda presa a certos valores, mas que deseja transpor a todos eles, seguindo o instinto feminino e o que seu coração diz.
Rayné confessa estar muito ansioso para ver a adaptação de seu livro no teatro. O espetáculo, dirigido pelo diretor Júlio Luz, estréia no sábado (25/03) e será apresentado na Casa da España, aos sábados, 20h30 e domingos, 19h30, no Rio de Janeiro.

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