Música, Propaganda e Capitalismo Selvagem Parte I

No livro Na Toca dos Leões, Fernando Morais aborda os aspectos que construíram não somente a história da W/Brasil de Washington Olivetto; ao relatar as histórias de outros grandes monstros da propaganda mundial, Francesc Petit, Gabriel Zellmeister e Javier Llussá, por exemplo, o autor nos leva ao complexo mundo das relações humanas em empresas bem sucedidas e lucrativas. Não bastava ter grana entrando aos montes, não bastava o talento em profusão dos profissionais ali envolvidos, não bastava a criatividade que entraria para a Hall of Fame da propaganda. O que pautou a trajetória dos caras foi a superação, a busca pelo novo, um senso crítico bárbaro e o respeito pela ética. Foi Olivetto quem teve a idéia de inserir músicas já existentes nas propagandas. É um livro muito útil não só para profissionais ou acadêmicos da área pois serve como referência para quem trabalha com produção cultural, marketing e afins.

Estava passeando em uma cidade da região metropolitana quando resolvi retomar a leitura referida acima, acontece que me deparei com um fato um tanto quanto absurdo um dia desses, vi uma promoção onde a empresa lançou uma campanha em caráter competitivo que versa o seguinte: Você envia uma sugestão de letra de jingle ou o jingle pronto e concorre a um valor x em compras na própria empresa, algo em torno de um salário mínimo. Agora analise comigo o leitor e me corrija se eu estiver errado, e do jeito que eu sou birrento e indignado com essas coisas duvido que não será perda de tempo a tentativa de correção. Um jingle hoje, fora do preço de tabela, não baixa de R$ 1.200,00. O lucro mínimo de uma empresa no varejo, para que esta não encontre a falência tem que ser de no mínimo 30%, ou seja, ao invés de pagar um preço justo e razoável a uma empresa que produza jingles, uma agência de propaganda ou músico, a contratante irá pagar R$ 350,00 em termos reais. É uma barbada, e tem gente que vai entrar nessa barca furada. A minha bronca é que os músicos locais já são explorados e se deixam explorar, ou na pior das hipóteses, exploram uns aos outros. Só pra exemplificar: Um colega que voltou da região de Florianópolis se deparou com um mercado extremamente deteriorado; enquanto lá ele cobrava, no mínimo, R$ 800,00 por jingle aqui ele sofria pra receber R$ 250,00 (isso me foi relatado em 2006). Lá se vai o mito de cidade-cultura-valorização.

Daí eu pergunto que tipo de ética está sendo ensinada dentro das instituições que preparam os profissionais de marketing e propaganda? Será que a lógica do capitalismo continuará sendo desumana em tempos em que se discute tudo que ataque a solidariedade? Discutimos corrupção, discutimos homofobia, genética, economia, educação infantil e o baralho a quatro! Temos opinião pra tudo, exceto pra nós mesmos quando questionados ou criticados. Parece que existe um compromisso irrefutável com o ganho, com o status e com a sua própria vaidade. Ou você se mostra um vencedor perante seus pares ou você não é bem vindo nesse mundo, por aqui fica mais evidente que alguns só se sentem bem sucedidos na medida em que enxergam fracassados ao seu redor; Para isso vale mentir, roubar ideias, explorar o semelhante, vender a alma pro diabo. Faz tempo que eu queria escrever sobre esse tema de forma mais literária, poeticamente eu já tinha feito há exatamente um ano atrás, quando vi um amigo brigando pelo mesmo motivo. “Eles pensam que o mundo gira ao seu redor, juram que estaremos sempre ao seu dispor, que erro, que erro…”.

Daniel Balhego
Turismólogo / Músico
balhego@gmail.com
twitter.com/danielbalhego

 

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