Oscars 2017 – A Chegada

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Retomando a cobertura da corrida do Oscar 2017, onde inicialmente listamos vinte longas cotados para uma indicação a Melhor Filme [parte um  e parte dois], elaboramos agora uma série de análises dos indicados.

Por Calvin Cousin

Todos os filmes figuraram nas listas anteriormente publicadas, sendo eles: A Chegada, A Qualquer Custo, Até o Último Homem, Estrelas Além do Tempo, La La Land – Cantando Estações, Lion – Uma Jornada para Casa, Manchester À Beira-Mar, Moonlight – Sob a Luz do Luar e Um Limite Entre Nós. A Chegada dá início a nossa série (resenha com spoilers).

Amy Adams em A Chegada (Paramount Pictures)

Amy Adams (right) as Louise Banks in ARRIVAL by Paramount Pictures
Amy Adams (right) as Louise Banks in ARRIVAL by Paramount Pictures

Indicações:
Melhor Filme
Melhor Diretor – Denis Villeneuve
Melhor Roteiro Adaptado – Eric Heisserer
Melhor Edição de Som
Melhor Mixagem de Som
Melhor Fotografia
Melhor Montagem
Melhor Desenho de Produção

A comunicação é o pilar mais importante na construção de uma sociedade. Seja real ou fictícia, ela não apenas apresenta as normas que regem um universo como também pode ser uma poderosa arma para resolução de conflitos. Essa ideia é evidente em A Chegada, obra de ficção-científica que está entre os filmes mais indicados ao Oscar neste ano.

Inspirado no livro História de Sua Vida, de Ted Chiang, o longa-metragem apresenta uma raça de alienígenas, os heptapods (batizados a partir de suas sete pernas), que chegam a Terra em doze espaçonaves espalhadas por lugares aleatórios do globo. Enquanto esperados ataques não acontecem, o exército dos Estados Unidos convoca a linguista Louise Banks (Amy Adams) para encontrar uma maneira de se comunicar com os extraterrestres que aterrissaram em Montana e compreender o propósito de sua visita ao planeta. O que segue é um espelho fantástico e assustadoramente real do que acontece quando humanos se deparam com adversidades: os heptapods possuem uma linguagem (e concepção de tempo e espaço) completamente diferente das conhecidas pela humanidade, abrindo espaço para múltiplas interpretações de seus objetivos e, consequentemente, discórdia entre nações e pânico generalizado.

O roteiro de Eric Heisserer é o principal responsável pelo sucesso do filme, mais cerebral e complexo do que os de recentes filmes do gênero que chamaram a atenção da Academia (Gravidade, Interestelar). A representação de uma sociedade em estado de alerta, que ataca o que é diferente antes de raciocinar e está propícia a seguir teorias da conspiração, é bastante crítica e ressonante, especialmente em meio à onda de intolerância que parece tomar conta do planeta. Ainda, o desenvolvimento dos extraterrestres e suas formas de comunicação é bastante criativo. O fato de os heptapods não compreenderem o tempo como um processo linear, mas cíclico, possibilita que eles (e quem aprenda sua linguagem) enxerguem o futuro, resultando em uma brilhante reviravolta. A montagem de Joe Walker abusa de flashforwards posicionados estrategicamente, a ponto de transformar o próprio formato em conteúdo e vice-versa.

O diretor Denis Villeneuve acerta o ponto no balanço dos elementos humanos da trama com a manipulação da parte técnica, em especial com a fotografia limpa de Bradford Young e a trilha sonora de Jóhann Jóhannsson (deixada de fora da lista de indicadas). Os efeitos visuais não sufocam o espectador, embora sejam ocasionais problemas da obra: ainda que sejam criaturas com, possivelmente, uma composição orgânica diferente das costumeiras, os heptapods não parecem reais, enquanto uma visita de Louise aos aposentos dos aliens, com uma gravidade distinta da terrestre, mostra uma Amy Adams com os cabelos claramente digitais.

O filme gira em torno de Adams como a linguista Baker, que encarna com credibilidade a mulher consciente de que é a pessoa mais inteligente – e tolerante – dos lugares que frequenta. Inicialmente ríspida, a atriz equilibra a intelectualidade da protagonista com um lado sentimental que é onipresente durante os vislumbres do futuro. Amy não foi indicada à Melhor Atriz, mas isso é problema da Academia. Jeremy Renner interpreta o físico convocado junto de Louise pelo exército, que pode não ser o personagem mais interessante entre os retratados (simpático e prestativo, só), mas cumpre seu papel na narrativa. Forest Whitaker é o preocupado e ansioso Coronel Weber, e Tzi Ma é o General Shang, militar chinês carrancudo que incita o ataque aos extraterrestres.

E o ataque acaba sendo desnecessário, uma vez que os heptapods são pacíficos e criaturas superiores aos humanos em todos os sentidos. O longa aponta que somos seres que buscam exterminar tudo que contradiz nossas ideologias, sem ponderar que as tais ameaças talvez estejam tentando nos ajudar de alguma forma. Nesse genial filme, os extraterrestres e Louise representam a importância da paciência e do diálogo como armas de combate à intolerância e à violência. A comunicação é o pilar mais importante na construção de uma sociedade.

A Chegada (Arrival)
Direção: Denis Villeneuve
Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker
Duração: 116 minutos

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14264149_830693777030502_5101510297978826840_nCalvin Cousin é estudante no sexto semestre de Jornalismo na UFPel. Não acredita em horóscopo, mas é aquariano com Vênus em Peixes.

 

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