Oscars 2017 – Até o Último Homem

“Como Desmond, Andrew Garfield é um dos principais responsáveis pelo sucesso do filme. Dono de um ótimo senso de humor e de um perpétuo sorriso bobo que exala bondade, o ator faz daquele que poderia ser um papel sem graça um ícone de esperança e paz, que acredita no melhor da humanidade mesmo diante de desgraças.”

Por Calvin Cousin

O pacifista: Andrew Garfield em Até o Último Homem (Summit Entertainment)
O pacifista: Andrew Garfield em Até o Último Homem (Summit Entertainment)

Indicações:
• Melhor Filme
• Melhor Diretor – Mel Gibson
• Melhor Ator – Andrew Garfield
• Melhor Edição de Som
• Melhor Mixagem de Som
• Melhor Montagem

Até o Último Homem é o filme de guerra mais romântico já feito. Baseado em fatos reais e dirigido pelo católico conservador Mel Gibson (vencedor do Oscar de Melhor Diretor por Coração Valente, 1996), o longa apresenta um contraste de estilo gritante entre suas metades: a primeira funciona à base do mais puro charme, enquanto a segunda apresenta os horrores presenciados por soldados durante a II Guerra Mundial. Para apreciar a obra, é necessário que os espectadores estejam em um bom estado de espírito, algo que o próprio enredo parece solicitar.

O protagonista, Desmond Doss (Andrew Garfield), mora em uma cidadezinha dos Estados Unidos no final dos anos 30, levando uma vida guiada pelos dez mandamentos, em especial, “não matarás”. Aderiu ao estilo após quase matar o próprio irmão na infância durante uma brincadeira, e por desaprovar o temperamento violento do pai (Hugo Weaving), um ex-combatente da I Guerra, traumatizado pelo que vivenciou. Doss se apaixona por Dorothy Schutte (Teresa Palmer), uma enfermeira, e a pede em casamento, ao mesmo tempo em que se alista no Exército para apoiar Aliados. Entretanto, o personagem apresenta uma condição aos seus superiores: não irá portar armas em momento algum, preferindo trabalhar como médico.

O roteiro de Andrew Knight e Robert Schenkkan é piegas, principalmente no que se refere ao relacionamento de Doss e Dorothy e no modo como o cristianismo é representado. São poucas e ligeiras as interações do casal e,como é esperado nos filmes de Mel Gibson, a religião é norteadora e fonte de salvação para os personagens. O nacionalismo, que não é tão exacerbado quanto poderia, também está presente. Ainda assim, por algum motivo, esses fatores problemáticos funcionam. Talvez a responsável seja a adorável atuação de Garfield – mais sobre isso depois –, ou o clima romântico, ou a trilha sonora de Rupert Gregson-Williams, ou a fotografia de Simon Duggan, mas o fato é que a primeira hora de filme (incluindo o treinamento de Desmond no exército) é tão charmosa que se torna impossível desacreditardas situações apresentadas ou não gostar da obra.

A segunda metade da narrativa (ligeiramente arrastada), por sua vez, vê a ida de Doss para a guerra e a despedida do charme. Aqui, as cores vivas da cidade são substituídas por tons acinzentados, a trilha sonora quase desaparece e cadáveres nos mais diversos níveis de decomposição são expostos. A guerra é frenética e alucinante da pior maneira possível, e Gibson não deixa que esqueçamos isso. Em meio ao caos dos tiroteios e explosões, o protagonista busca socorrer os feridos,encontrando nos equipamentos do exército formas de salvar os companheiros que não envolvem acabar com a vida de outras pessoas. Um rifle se transforma em barra para amarrar uma maca, uma corda vira um meio de abaixar enfermos até os veículos que os levarão em segurança para o acampamento.

Como Desmond, Andrew Garfield é um dos principais responsáveis pelo sucesso do filme. Dono de um ótimo senso de humor e de um perpétuo sorriso bobo que exala bondade, o ator faz daquele que poderia ser um papel sem graça um ícone de esperança e paz, que acredita no melhor da humanidade mesmo diante de desgraças. Hugo Weaving é Tom Doss, o pai do protagonista, uma figura trágica, agressiva e, no fundo, infeliz. Dos demais membros do exército (toda a trupe é apresentada, mesmo que poucos tenham destaque), o principal é Vince Vaughn como o Sargento Howell, mais sensível do que aparenta. A Dorothy de Teresa Palmer é quase uma modelo pin-up, contribuindo para o encanto geral da obra.

Ao final de um dia triste, Até o Último Homem pode ser encarado de forma mais cínica. O filme tem seus problemas e eles se tornam mais evidentes em repetidas visitas, mas não atrapalham a experiência e a mensagem final que o longa busca passar. O diretor e alguns dos principais elementos da história são temas de acirradas discussões, embora isso não mude a realidade de que, realmente, guerras são terríveis e pequenos atos de compaixão e paciência podem ressoar de formas inimagináveis. Por acaso, Desmond é o último protagonista a ser apresentado nessa série sobre o Oscar.

Até o Último Homem (Hacksaw Ridge)
Direção:Mel Gibson
Elenco: Andrew Garfield, Vince Vaughn, Hugo Weaving, Teresa Palmer
Duração: 139 minutos

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14264149_830693777030502_5101510297978826840_nCalvin Cousin é estudante no sexto semestre de Jornalismo na UFPel. Não acredita em horóscopo, mas é aquariano com Vênus em Peixes.

 

 

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