Oscars 2017 – La La Land: Cantando Estações

“No final das contas, La La Land é um bom filme. A maioria de suas indicações é nas categorias técnicas, e nesse aspecto a obra é sublime”.

Por Calvin Cousin

"Another Day of Sun": a Los Angeles de La La Land (Summit Entertainment)
“Another Day of Sun”: a Los Angeles de La La Land (Summit Entertainment)

“Another Day of Sun”: a Los Angeles de La La Land (Summit Entertainment)
Indicações:
• Melhor Filme
• Melhor Diretor – Damien Chazelle
• Melhor Roteiro Original – Damien Chazelle
• Melhor Atriz – Emma Stone
• Melhor Ator – Ryan Gosling
• Melhor Edição de Som
• Melhor Mixagem de Som
• Melhor Fotografia
• Melhor Montagem
• Melhor Desenho de Produção
• Melhor Figurino
• Melhor Trilha Sonora Original – Justin Hurwitz
• Melhor Canção Original – “City of Stars”
• Melhor Canção Original – “Audition (The Fools Who Dream)”

– A resenha contém spoilers.
Dois mil e dezesseis foi um bom ano para musicais. Na Broadway, Hamilton extrapolou os limites do teatro e se tornou um fenômeno cultural que, inclusive, recebeu tweets zangados de Donald Trump.Hollywood recebeu o lançamento de La La Land: Cantando Estações, que bateu o recorde de vitórias nos Globos de Ouro (sete) e empatou com Titanic e A Malvada como o maior indicado da história dos Oscars, com catorze indicações. Estrelando Emma Stone e Ryan Gosling (novamente como par romântico, após Amor a Toda Prova e Caça aos Gângsteres) e dirigido por Damien Chazelle, o filme criou uma aura de antecipação em sua volta que dificilmente se vê relacionada ao cinema musical, tido por muitas pessoas como antiquado. A obra excede as altas expectativas? Para responder a pergunta é melhor ir por partes.

A expressão em inglês “la la land” remete a um estado de espírito sonhador e aéreo, enquanto o título do filme, além de brincar com o termo, se refere à Los Angeles, cenário da trama, terra dos grandes estúdios de cinema e daqueles que sonham com fama e fortuna. Logo, os personagens principaisdo longa são Mia (Stone) e Sebastian (Gosling): ela, uma atriz frustrada por não conseguir papéis; ele, um pianista frustrado que sonha em abrir um clube de jazz, gênero musical que acredita estar morrendo. Os dois eventualmente começam um relacionamento, que desanda assim que Sebastian precisa sair em turnê com a banda de um conhecido (John Legend), contrário às opiniões dogmáticas do protagonista sobre o jazz, mas oferecedordo vil metal que faz o mundo girar. Após uma audição bem sucedida, Mia consegue o papel dos sonhos e, embora se ame, o casal é obrigado a se separar. Talvez essa seja a característica mais interessante de La La Land: o filme começa como uma comédia romântica clichê, mas evolui para uma história nem um pouco aérea, onde nem todos os sonhos se realizam e o casal de protagonistas não termina junto.

O diretor e roteirista Damien Chazelle, que abordou o jazz em seu trabalho anterior, Whiplash, orquestra o filme como uma homenagem ao cinema musical (com referências a Dançando na Chuva, Amor Sublime Amor, Os Guarda-Chuvas do Amor), embora a estrutura da obra não seja um sucesso completo.

A encantadora trilha sonora de Justin Hurwitz e as músicas de Benj Pasek e Justin Paul são parte fundamental do enredo. Os dois primeiros números, “Another Day of Sun”, que encara moradores da cidade dançando em meio a um engarrafamento, e “Someone in the Crowd”, a música de Mia e suas amigas enquanto vão para uma festa, são os mais marcantes, seja pela alta energia da coreografia e da sonoridade, pelo frequente uso dos planos sequência (fotografia de Linus Sandgren) ou pelos coloridíssimos figurinos de Mary Zophres. Um conto de fadas contemporâneo, o filme não se passa durante a época de ouro do cinema, mas em um período recente que celebra a sétima arte em um ambiente onde as cores e os sons explodem. Essas cenas são seguidas por um dueto entre Mia e Sebastian, acompanhado de uma pausa para sapateado (“A Lovely Night”), e uma idílica dança em um observatório, onde a fantasia encontra a realidade e os personagens dançam nas nuvens. Entretanto, a partir desse ponto o musical se perde.

Na segunda metade, os números de La La Land se tornam tão esporádicos que é fácil esquecer-se daqueles da primeira e, sem o brilho e a empolgação, o filme se torna indistinto e comum. Assim que o enredo fica mais sério, as músicas se tornam maçantes (“City of Stars”, a favorita ao Oscar).

A ideia tradicional de que musicais são obras exclusivamente alegres parece contribuir para a falha, embora essa ideia não possa estar mais errada. Cabaret e Chicago são extremamente cínicos e sombrios. Amor Sublime Amorapresenta todo o romance de Romeu e Julieta, embora o final seja, talvez, ainda mais trágico. Grandes solos dramáticos não são distrações, mas modos de avançar a história – e muitas vezes são pontos altos, vide o “And I Am Telling You I’m Not Going” de Jennifer Hudson em Dreamgirls ou o “I Dreamed a Dream” de Anne Hathaway em Os Miseráveis, que valeram Oscars para as atrizes. O próprio Hamilton, com uma trilha sonora recheada dos mais diversos gêneros, mostra que musicais não são antiquados.

Ainda assim, a cena final do filme é de tirar o fôlego: além de subverter o clichê, Mia e Sebastian vivenciam uma fantasiosa sequência que pondera o que teria acontecido se suas vidas tivessem seguido outro rumo. A despedida é uma nota alta e reflexiva, quase suficiente para apagar os problemas da obra.

Dos protagonistas, a Mia de Emma Stone é a mais interessante e a melhor cantora, com uma voz tímida durante os primeiros números e uma presença poderosa em “Audition (The Fools Who Dream)”, quando finalmente encontra seu valor. A frustração de Mia por não conseguir emplacar como atriz é palpável, embora suas dúvidas não tomem conta da personagem ou façam com que perca a simpatia. Ryan Gosling é um ótimo dançarino e está muito charmoso como Sebastian, personagem que, nas mãos de outro ator, poderia desagradar com suas neuroses de salvador branco do jazz. Entretanto, deve-se dizer: ele não sabe cantar. Seja em “A Lovely Night” ou “City of Stars”, a voz baixa do ator não o impede de quase desafinar inúmeras vezes. Ainda, enquanto o filme apresenta motivos para Mia não ser uma cantora tão boa quanto deveria, o mesmo não acontece com Sebastian.

Os coadjuvantes pouco aparecem, embora o Keith de John Legend talvez seja mais racional do que o protagonista quando se tratado futuro do jazz. Seu número, “Start a Fire”, é o melhor do segundo ato do longa.

No final das contas, La La Land é um bom filme. A maioria de suas indicações é nas categorias técnicas, e nesse aspecto a obra é sublime. Mesmo que ocasionalmente entediante, a conclusão da história romântica surpreende e possui passagens belas o suficiente para ser memorável. Os problemas dos personagens podem ser descritos como superficiais, mas isso seria injustiça. As questões do coração são escancaradas ao longo da narrativa, que equilibra o fantástico com o humano. A maioria das músicas – enquanto Ryan Gosling não estiver cantando – é ótima e o filme é um deleite para os olhos. Dá para pedir muito mais de uma obra audiovisual?

La La Land: Cantando Estações (La La Land)
Direção: Damien Chazelle
Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend
Duração: 128 minutos

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14264149_830693777030502_5101510297978826840_nCalvin Cousin é estudante no sexto semestre de Jornalismo na UFPel. Não acredita em horóscopo, mas é aquariano com Vênus em Peixes.

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