Oscars 2017 – Manchester à Beira-Mar

“Uma obra de proporções modestas, Manchester apresenta uma fotografia clara e surpreendentemente viva (por Jody Lee Lipes), características que também podem ser atribuídas à trilha sonora de Lesley Barber”.

Por Calvin Cousin

Michelle Williams e Casey Affleck em Manchester à Beira-Mar(Amazon Studios)
Michelle Williams e Casey Affleck em Manchester à Beira-Mar(Amazon Studios)

Indicações:
• Melhor Filme
• Melhor Diretor – Kenneth Lonergan
• Melhor Roteiro Original – Kenneth Lonergan
• Melhor Ator – Casey Affleck
• Melhor Atriz Coadjuvante – Michelle Williams
• Melhor Ator Coadjuvante – Lucas Hedges

– A resenha contém spoilers.
A morte é inevitável e resistir é inútil. Um final absoluto e incontestável, ela desperta medo e imprevisíveis reações naqueles próximos aos que partiram. O falecimento de irmãos, filhos e amigos é impactante e pode danificar de forma irreparável a personalidade dos vivos. As diferentes facetas do luto são trazidas à tona em Manchester à Beira-Mar, com uma galeria de personagens traumatizados por perdas e tribulações, ainda que lidem com elas de maneiras bastante distintas.

O filme de Kenneth Lonergan começa com Lee Chandler (Casey Affleck), um faz-tudo, recebendo a notícia de que seu irmão Joe (Kyle Chandler) faleceu, vítima de um ataque cardíaco. Lee descobre que foi escolhido como tutor do sobrinho adolescente, Patrick (Lucas Hedge), e precisa resolver questões familiares – e de negócios, pois o testamento inclui a gerência de um barco de pesca – na cidade de Manchester. O personagem nasceu e foi criado no local, partindo de lá após um misterioso incidente que é, desde então, pauta de fofocas. Em uma série de flashbacks, é revelado aos espectadores o que aconteceu: anos antes, Lee se esqueceu de colocar a grade na lareira antes de ir ao mercado, acidentalmente incendiando a própria casa e matando seus três filhos no processo. A tragédia também lhe custou a esposa, Randi (Michelle Williams), que pediu o divórcio.

Uma obra de proporções modestas, Manchester apresenta uma fotografia clara e surpreendentemente viva (por Jody Lee Lipes), características que também podem ser atribuídas à trilha sonora de Lesley Barber. Tais elementos entram em conflito e, ao mesmo tempo, salientam a seriedade das situações retratadas, que possuem um tom funéreo, mas sutil. O roteiro, que apresenta alguns momentos cômicos, traz personagens que não se desesperam diante da morte de Joe, uma vez que seus problemas de saúde eram conhecidos e os dramas do passado sejam tão assustadores que fazem com que qualquer eventual tragédia empalideça (ainda que a introdução e a execução dos flashbacks, muito demorados, atrapalhem o ritmo da trama). A caracterização das diferentes formas de encarar a morte é pontual e realista, reforçada pelo excelente time de atores.

Como o atormentado Lee, Casey Affleck recita suas falas de maneira subestimada e calma, quase não alterando o tom de voz entre as cenas em que está perplexo e as que está tomado pela raiva. Diferente da fala, o temperamento do homem, que desistiu de viver e apenas existe, é explosivo e irreverente, sem se importar com o que faz ou com o seu estilo de vida voluntariamente baixo, reflexos de uma alma corroída pela culpa. Lee fica visivelmente menos aflito com a morte do irmão do que com a tarefa de cuidar do sobrinho: além do medo de falhar novamente, ele sabe que a vida não piora depois de se atingir o fundo do poço. Uma das melhores atuações e um dos personagens mais complexos da temporada, o pobre ser, após tentar suicídio, decidiu que sentimentos são inúteis e só servem para trazer dor.

Lucas Hedges funciona como alívio cômico, que consegue superar a morte do pai (e o abandono da mãe alcoólatra) com o apoio de seus amigos e de suas duas namoradas, em um relacionamento nem um pouco romantizado, mas suficientemente divertido. Michelle Williams é Randi, aquela que seguiu a vida depois da morte dos filhos, mas que carrega feridas muito profundas. Mesmo que sua participação seja mínima, Williams protagoniza uma das cenas mais desoladoras do longa, quando encontra Lee a sós.

Manchester não traz lições sobre como aproveitar a vida ao máximo ou reflexões sobre como nosso tempo na Terra é limitado. Ao invés disso, o filme traz algumas das melhores caracterizações do ano e um retrato sobre as diferentes maneiras de enfrentar as aflições causadas pela morte de entes queridos. No final, mesmo com arrependimentos, Randi forma uma nova família, Patrick resolve consertar o barco condenado e Lee se abre para receber empatia do sobrinho. A vida de Joe acabou, mas a deles segue. Antes do final absoluto, sempre segue.

Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea)
Direção: Kenneth Lonergan
Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedge, Michelle Williams, Kyle Chandler
Duração: 137 minutos

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14264149_830693777030502_5101510297978826840_nCalvin Cousin é estudante no sexto semestre de Jornalismo na UFPel. Não acredita em horóscopo, mas é aquariano com Vênus em Peixes.

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