Oscars 2017 – Moonlight: Sob a Luz do Luar

“Aqui, vemos a Miami real, com periferias e repleta de desigualdade, já que nem todos podem morar em coberturas na beira da praia.”

Por Calvin Cousin

Alex Hibbert e Mahershala Ali em Moonlight: Sob a Luz do Luar (A24)
Alex Hibbert e Mahershala Ali em Moonlight: Sob a Luz do Luar (A24)

Indicações:
Melhor Filme
Melhor Diretor – Barry Jenkins
Melhor Roteiro Adaptado – Barry Jenkins e Tarell Alvin McCraney
Melhor Ator Coadjuvante – Mahershala Ali
Melhor Atriz Coadjuvante – Naomi Harris
Melhor Fotografia
Melhor Trilha Sonora
Melhor Montagem
– A resenha contém spoilers.

No primeiro ato de Moonlight: Sob a Luz do Luar, o pequeno Chiron (Alex Hibbert) pergunta para Juan (Mahershala Ali) e Teresa (Janelle Monáe): “o que é boiola?” (Diga-se de passagem, escrevo esta resenha no Word, que não reconhece o termo). A resposta: “é uma palavra pejorativa para gay.” Chiron não tem a menor ideia do que é ser gay e ainda assim foi ridicularizado por isso, tanto por seus colegas quanto por sua mãe, Paula (Naomi Harris). Jovens homossexuais estão fadados a uma infância muito difícil. Jovens homossexuais negros e pobres, como Chiron, mais ainda.

Moonlight se passa em Miami, mas não a Miami turística, centro de compras e “exílio político voluntário” – seja lá o que isso signifique – dos brasileiros ricos. Aqui, vemos a Miami real, com periferias e repleta de desigualdade, já que nem todos podem morar em coberturas na beira da praia. Aqui, vemos o cenário de um longa-metragem com temática LGBT que foge dos tradicionais padrões brancos de classe alta. Aqui, encontramos Chiron, menino tímido e calado, vítima de severo bullying por ser menor do que seus colegas, além de possuir trejeitos diferentes, mais delicados, que ele não pode controlar. Aqui, encontramos Chiron em três fases diferentes: como criança, como adolescente (interpretado por Ashton Sanders) e, finalmente, como adulto (Trevante Rhodes, ótimo, assim como os outros atores no papel).

Em Boyhood, o diretor Richard Linklater passou de maneira tão rápida pelos diferentes segmentos da vida dos personagens que era impossível desenvolvê-los ou aprofundar a história, impedindo os espectadores de se importarem com o que estava acontecendo. O resultado foi um filme raso, cujo charme acabou tão rapidamente quanto a ideia mal-executada de que a vida passa voando. Do ponto de vista documental, é magnífico, quanto narrativa ficcional (categoria na qual se encaixa), nem tanto. Em Moonlight, o diretor e roteirista Barry Jenkins, ainda que mude os atores principais, segura o enredo em cada segmento por tempo suficiente para que a história se desenvolva plenamente e a plateia se acostume com as mudanças nos personagens. Soma-se a direção e o roteiro à fotografia de James Laxton e o filme é memorável tanto em seu conteúdo quanto em sua forma.

Chiron enfrenta, na escola, todas as tradicionais dificuldades que jovens que estão descobrindo sua homossexualidade enfrentam, desde o sofrimento nas aulas de educação física até o bullying que não acaba ao se atingir a adolescência. Aliás, ele aumenta. Rotulado como algo que só vai compreender muito mais tarde, o protagonista sofre agressões verbais e físicas diariamente em um ambiente que não apresenta espaço para expressão de diferentes sexualidades. Um dia, quando a situação foge completamente dos limites, ele desmonta uma cadeira na cabeça de seu maior agressor e vai preso. Por algum motivo, a sociedade bizarra em que vivemos permite que o valentão não seja punido por sua homofobia.

Anos depois, Chiron se transformou em um traficante rico que vive em Atlanta, embora esconda um espírito desmoralizado por aqueles com quem cruzou na juventude. Após uma significativa ligação telefônica de seu melhor amigo, Kevin (Jaden Piner, Jharrel Jerome, André Holland), o personagem precisa voltar para Miami e resolver questões do passado. Questões estas, logicamente, que envolvem o coração. Desde criança, Chiron sentia atração por Kevin, seu único defensor na escola, que traiu sua confiança ao ser coagido por outros colegas a bater no protagonista. Ao longo do filme, a relação entre os dois cresce, culminando no momento em que se beijam e masturbam um ao outro. Longe de ser obsceno, é um romance lindo, puro, verdadeiro, sincero.

Mahershala Ali é o favorito ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por sua interpretação como Juan, o traficante de crack mais humanizado que se tem registro no cinema.Ainda que sua participação seja curta, o personagem de Ali trabalha como uma figura paterna adotiva para Chiron, e em todos os momentos é visível seu afeto pelo garoto. Como um pai amoroso, Juan sente uma profunda tristeza ao explicar para o protagonista o motivo pelo qual é agredido, além de, provavelmente, se arrepender de vender drogas para a mãe biológica do menino, dificultando ainda mais sua vida.

Como Paula, Naomi Harris é a mãe que quer ser dedicada, mas não consegue. Seus surtos
causados pelas drogas são precisos e frequentes, ainda que, em sua sanidade, ela se lembre que precisa cuidar de Chiron. Tais momentos são completamente ambíguos, pois é difícil distinguir um real interesse no bem-estar do jovem da mais completa culpa e medo de que, talvez, seja punida por não agir como a sociedade espera. Janelle Monáe é Teresa, esposa de Juan e segunda mãe de Chiron, sendo o completo oposto de Paula. Amável e compreensiva, a personagem é responsável pela doçura necessária para o filme.

Moonlight é uma obra essencial, especialmente ressoante em um mundo pós-Pulse e pós-críticas à diversidade no cinema hollywoodiano. O elenco é impecável, assim como o roteiro, a direção e os aspectos técnicos. É refrescante assistir um filme LGBT que foge dos padrões, sincero e realista. Chiron e Kevin, que apresentam todas as dúvidas e angústias que jovens podem ter ao não verem suas sexualidades representadas na mídia, protagonizam um excelente filme para chacoalhar o tabu. Negros e LGBTs são perseguidos e demonizados diariamente, mas Moonlight é o exemplo perfeito de que, pelo menos na sétima arte, ainda há esperança, mesmo que o tom do filme não seja dos mais otimistas. Fazer parte de uma minoria é um ato político, mesmo que involuntariamente, e, no universo da obra, a terra dos tolos que sonham não é Los Angeles, é Miami.

Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight)
Direção:Barry Jenkins
Elenco: Alex Hibbert, Ashton Sanders, Trevante Rhodes, Jaden Piner, Jharrel Jerome, André Holland, Mahershala Ali, Naomi Harris, Janelle Monáe
Duração: 111 minutos

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14264149_830693777030502_5101510297978826840_nCalvin Cousin é estudante no sexto semestre de Jornalismo na UFPel. Não acredita em horóscopo, mas é aquariano com Vênus em Peixes.

 

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