Potterianos de Pelotas e o fandom de Harry Potter

Era inimaginável para a britânica Joanne (J.K.) Rowling que sua história sobre um menino que descobre ser bruxo e vai para uma escola de magia iria transformá-la na primeira escritora a atingir o patamar de bilionária, cuja obra seria traduzida para 67 idiomas, venderia mais de 450 milhões de exemplares e seria adaptada para uma série de cinema que fica entre as mais rentáveis de todos tempos.

Por Calvin Cousin

Foto Divulgação
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Harry Potter e a escola de Hogwarts, em menos de vinte anos (o primeiro livro da franquia, Harry Potter e a Pedra Filosofal, é de 1997), se tornaram ícones sem precedentes da cultura pop, além de terem incentivado toda uma geração de crianças e adolescentes a buscar prazer na leitura.

De fato, ainda que o último livro tenha sido lançado há quase uma década e não se tenha um novo filme há cinco anos, grupos de fãs ainda se reúnem para organizar eventos e celebrar a saga. No domingo, quatro de setembro, aconteceu em Pelotas o III Hogwarts in Fest, no clube Caixeiral, com brincadeiras como a “Caça às Horcruxes” (no mundo mágico, objetos que podem aprisionar parte da alma de alguém) e jogos de perguntas e respostas nos moldes dos Níveis Ordinários de Magia, que Harry presta em seu quinto ano em Hogwarts.

Também houve concurso dos tradicionais cosplays e a apresentação das Rainhas Arcanas, banda folk que apresentou canções que aparecem nos filmes da série, como Double Trouble e Do the Hippogriff, além de clássicos do dia das bruxas na linha de This is Halloween e I Put a Spell on You. O evento foi organizado pelo Potterianos de Pelotas, que celebra dez anos de existência em 2016.

O Potterianos de Pelotas
O grupo surgiu quando Rafaela Louro, fundadora e presidente do fã-clube, descobriu, em 2004, que haviam encontros de fãs da saga e eventos em convenções de cultura pop, mas que estes costumavam acontecer em regiões mais ao norte do país. “Eu pensei: preciso fazer um encontro desses aqui na cidade. Depois, quando o Orkut estourou, tudo ficou mais fácil” relata Rafaela. Ela criou uma comunidade para o grupo na rede social em 2006 e, no início, adicionou apenas pessoas conhecidas e que sabia que gostavam do tema. Essas pessoas foram adicionando outras e Rafaela procurou em diversas comunidades de Harry Potter por fãs que morassem em Pelotas e quisessem realizar encontros na cidade. Em 2011, o grupo migrou para o Facebook, onde contabiliza mais de seiscentos membros, e, posteriormente, criou perfil no Instagram, com quase trezentos seguidores.

O primeiro encontro do Potterianos aconteceu em dezembro de 2006, e se manteve de forma mensal (geralmente no segundo sábado do mês) por todo 2007 e 2008. Em 2009 os encontros se tornaram trimestrais e, desde 2010, vêm sendo semestrais, devido a conflitos de agenda dos membros e também por não se ter tanto material para debates. Conforme Rafaela salienta, o objetivo principal do Potterianos é, além de celebrar a nostalgia, o de não deixar o fandom morrer e introduzir novas gerações ao mundo de Harry Potter, por incorporar pessoas da faixa dos onze até os trinta e cinco anos, adolescentes quando os primeiros livros foram lançados.

Fandom é diminutivo de fan kingdom, reino dos fãs, usado para se referir a um grupo de pessoas que idolatram um mesmo assunto.

Para isso, o grupo costuma se fazer presente em eventos para fãs, como foi o caso AnimaTRI em 2009, o primeiro evento de animes em Pelotas, onde o clube se apresentou com uma sala temática. A tradição continua em eventos como o AnimeBomb – cuja próxima edição acontecerá em novembro e no qual o Potterianos apresentará, também, uma sala com temática de Star Wars – e o Animextreme, em Porto Alegre, além de encontros em Bagé, Rio Grande e Pedro Osório.

O Hogwarts in Fest, cuja primeira edição aconteceu em 2012, foi o primeiro evento organizado pelo Potterianos, com a intenção de entreter os fãs e também de difundir a literatura fantástica. Contando com apresentações artísticas e concursos de cosplay, atraiu cerca de 120 pessoas, mas, devido ao grupo não contar com qualquer patrocínio, não foi realizado nos dois anos seguintes. Em 2015, foi organizado o segundo Fest, pela primeira vez no Clube Caixeiral de Pelotas, para celebrar os dez anos de fã-clube que se aproximavam.

O fenômeno do fandom
2016 marca uma espécie de renascimento para o universo potteriano, pelo fato de Rowling publicar regularmente informações adicionais no site Pottermore (no início do ano escreveu sobre Castelobruxo, uma escola de bruxaria no coração da Amazônia); pela estreia em Londres no mês de julho da peça Harry Potter and the Cursed Child, escrita por Jack Thorne e John Tiffany e supervisionada pela autora; e pelo iminente lançamento de Animais Fantásticos e Onde Habitam, baseado em material adicional, em novembro.

O fandom de Potter explodiu no final dos anos 1990, quando os três primeiros livros já haviam sido lançados e, graças à internet que estava cada vez mais presente, fizeram os fãs mergulharem em debates para compartilhar teorias acerca dos desdobramentos dos próximos volumes. As fan fictions (histórias escritas por fãs) do assunto dominaram a web, fossem elas sobre realidades alternativas da trama potteriana ou contos românticos sobre casais que não existiam nos livros. Surgiu o wrock (ou wizarding rock, rock bruxo), representado por diversos grupos que compunham canções baseadas em Potter.

As regras de quadribol, esporte mágico que se pratica montado em uma vassoura voadora, ficaram conhecidas, o que gerou adaptações para que trouxas (quem não é bruxo, no universo criado por Rowling) pudessem jogá-lo. Os fãs esperavam à meia-noite nas portas das livrarias para os lançamentos, muitos fantasiados como seus personagens favoritos. O fenômeno ficou ainda maior com a estreia da versão cinematográfica de A Pedra Filosofal em 2001, o filme com maior bilheteria naquele ano. Por dez anos terem se passado entre o lançamento do primeiro e do último livro – mesmo tempo entre o primeiro e o último filme – muitos fãs cresceram com a série, que vai do inocente Pedra Filosofal até sombrio sétimo capítulo, Relíquias da Morte. Com essa magnitude, o bruxinho encantou pessoas de diversas gerações ao redor de todo o mundo.

Um dos projetos do Potterianos de Pelotas é o braço Multisagas – Phoenix Nest, que celebra outras séries de ficção além de Harry Potter na tentativa de unir o maior número de pessoas possível para se entreter com a literatura fantástica. O grupo mantém alianças com fã-clubes de Belo Horizonte, Recife e com a Potter’s Army, de Rio Grande, o que demonstra como um fandom pode fortalecer relações. “Algumas pessoas dizem que Harry Potter é o Star Wars dessa geração, e é. É um número imenso de pessoas que cresceu e fez parte disso, todos juntos” conta Rafaela. Nada mais justo, afinal, o poder das relações humanas sempre foi um dos principais pontos da obra de J.K. Rowling.

3º Hogwarts in Fest aconteceu no domingo, 04 de setembro.
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hp

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14264149_830693777030502_5101510297978826840_nCalvin Cousin é estudante no sexto semestre de Jornalismo na UFPel. Não acredita em horóscopo, mas é aquariano com Vênus em Peixes

 

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