Quem tem boca vai a Roma… Peripécias de uma atriz pelotense na Itália

Maestro Bogdanov

As palavras do conhecido provérbio eram ditas no sonho por minha mãe, que dizia também: “Todas as estradas levam a Roma”. O sonho que narro aqui aconteceu no início do mês de julho. No dia seguinte lá estava no meu e-mail a convocação do Ministério da Cultura, avisando que eu havia sido habilitada no Programa de Intercâmbio e Difusão Cultural do Ministério da Cultura, para viagens culturais no mês de julho. A correria foi geral, pois as inscrições do curso já haviam sido encerradas e, fora os documentos do Ministério, eu deveria convencer o pessoal do Centro Internacional de Estudos em Biomecânica Teatral de Mejerchold, Perugia, Itália, que fazer o curso com o russo Gennadi Bogdanov era crucial para mim e para o meu trabalho. Foram dias de tensão os que se seguiram e a incerteza diante dos trâmites burocráticos me levou apenas ao stress e às lágrimas.

Na vida real, minha mãe repetia ao telefone as palavras do sonho. Com tal estímulo familiar, com a força para não esmorecer diante dos obstáculos e com muita saliva e créditos telefônicos gastos, corri contra o tempo para poder embarcar para a Itália no dia 25 de julho, rumo a um sonho há muito acalentado: o de fazer um curso com um mito vivo do teatro, um curso com o maestro russo Gennadi Nikolaevic Bogdanov. Sem dinheiro no bolso, sem amigos importantes ao final eu era o que sempre fui: apenas uma guria do interior.

Depois dos mais de 10 mil km percorridos em avião de Florianópolis/SC até Milão, na Itália, percorri mais 350 km até Florença e mais 150 km até Perugia. Quando cheguei à estação, o coordenador do Microteatro de Perugia esperava os alunos que advinham de todos os cantos do mundo. Alunos de todos os cantos da Itália e também da Turquia, dos Estados Unidos, da Alemanha, da Islândia, da Inglaterra, da Suíça, da Espanha, do México e do Brasil. Ao chegar ao alojamento, perguntei ao coordenador o nome da garota com quem dividiria o quarto e ele me disse: “Vitória”. Sim, vitória! Eu havia alcançado um sonho!

Os dias que se seguiram foram de trabalhos intensos, com cinco horas de aulas práticas ao dia e pausas de quatro a 12 minutos para comer e ir ao banheiro. O método russo, além de preparar a todos corporalmente para o trabalho atorial, sem dúvida prepara também para que possamos ir além dos limites que um ator ou um ser humano deve vencer. E entre estes estão, com certeza, a disciplina e a concentração.

Marta Franceschelli, atriz que trabalha junto à Companhia QuinteAttiveTeatro, em Roma, disse que o curso com o maestro Bogdanov “fez com que duplicasse o meu horizonte teatral; todo ator deveria pelo menos uma vez na vida aproximar-se desta técnica, para acrescentar e superar suas possibilidades atoriais”. Palavras justas que seguramente representam a voz da maioria daqueles que, durante cerca de 15 dias, estiveram imersos nas lições do maestro russo, o qual só o ministra aulas em Perugia e em Berlim.

Alunas do curso: Victoria DeCampora atriz de Napoles, Alessandra Nale atriz de Milão, Luciah Tavares atriz pelotense e Marta Franceschelli atriz de Roma

A Biomecânica Teatral de Mejerchold
Vsevolod Emilevich Mejerchold (1874-1940) era estudante de Música, junto à Escola Filarmônica de Moscou. Posteriormente dedicou-se ao teatro, tendo trabalhado ao lado de Vladimir Danchenko e de Sergei Kostantin Stanislavski, no Teatro de Arte de Moscou. Mas Mejerchold desejava uma arte viva do ator, achava que no trabalho em questão faltava uma relação de ritmo dos atores com o texto. Força que via presente nas companhias de rua, no circo, nos cabarés, na comédia dell’art, no trabalho com máscara. Sendo assim, as duas grandes bases do seu método são a música e o teatro de Stanislavski, associados a textos simbolistas, como os Maeterlink. Em seu teatro montou em pouco mais de três anos cerca de 150 espetáculos diferentes, onde a cena é a protagonista da ação e não um ator ou outro. E seu teatro servia também como um elemento de politização ao povo analfabeto, portando informações sobre a revolução. Stalin buscou destruir tudo que era diretamente coligado a Mejerchold, pois através de seu teatro o povo saía de sua alienação. E sua morte misteriosa deixa a certeza de que o trabalho maravilhoso que fez incomodava aqueles que estavam no poder. Seu treinamento está baseado em 44 pontos pedagógicos, em que o ator deve ser o dono do próprio espaço de atuação.

Turma do curso de Biomecânica teatral com o maestro Bogdanov

Bogdanov e a Biomecânica Teatral de Mejerchold
Gennadi Nikolaevic Bogdanov entrou em contato pela primeira vez com o método desenvolvido pelo também russo Meyerhold nos anos 1970, quando trabalhava como ator no Teatro Estabile, de Moscou, junto a Valentin Pluncek, que era um dos coordenadores de tal teatro e encantou-se com a preparação e a agilidade que a técnica permitia aos atores. Convidou Nikolai Kustov, que havia trabalhado diretamente com Mejerchold, para dar lições aos seus atores. Neste período, a Biomecânica Teatral de Mejerchold ainda não era conhecida do grande público e muito menos gozava da credibilidade que possui nos dias atuais.

Para Bogdanov, o ator deve ter um treinamento constante não para se transformar num atleta, mas, sobretudo, para poder fazer tudo que é feito cotidianamente de um modo vivo, sem a despreocupação que os movimentos cotidianos e automáticos do dia a dia têm. Entender a si próprio e suprimir todo e qualquer movimento desnecessário. Saber controlar seu instrumento de trabalho, o corpo, dominando também suas emoções.

Luciah com o diretor do Microteatro de Perugia

O Microteatro de Perugia
A parceria do Microteatro de Perugia com o maestro Gennadi Bogdanov se iniciou em 1998, quando, o hoje coordenador do Teatro, Claudio Massimo Paternò, foi aluno do russo junto ao Teatro Estabile da Umbria. Em entrevista concedida especialmente ao e-cult, Claudio me contou que a primeira sessão de trabalho promovida pelo Microteatro ocorreu em 2003 e contava com ele e mais dois alunos. De lá para cá a coisa mudou muito, pois já passaram mais de 800 alunos pelas sessões de Biomecânica, promovidas duas vezes ao ano pelo Microteatro. E as vagas ano após ano tornam-se escassas, diante do grande número de atores, professores e cantores líricos que buscam a técnica para seu trabalho. Entre estes, muitos brasileiros. Um deles é o gaúcho Marcelo Bulgarelli, do Teatro Torto, o qual passou um ano estudando a Biomecânica Teatral em Perugia junto ao Microteatro e hoje está estabelecido em Porto Alegre/RS. Ele é apontado por Paternò como o principal referencial do método em questão no Brasil. Perguntei a ele o que achava dos brasileiros. Respondeu-me que, em relação aos europeus, percebe que os artistas brasileiros que chegam a Perugia para fazer o curso tratam a oportunidade de maneira diversa. “O amor que trazem pela vida, faz com que os brasileiros tratem a Biomecânica com uma proporção maior, um maravilhamento e, sobretudo, uma espontaneidade e uma humanidade que fazem a diferença junto ao trabalho artístico.” Completa dizendo que “ao final, sempre choram”.

Os 12 dias de curso passaram rapidamente, transformando o corpo e o pensamento de todos. Ao final, as palavras de Bogdanov lembram que o curso não terminou. O que recebemos foi apenas uma perspectiva e agora é que o nosso trabalho deve começar.

Despeço-me dos amigos em português, em italiano, em russo, em alemão e em espanhol. Abraço a amiga alemã, que aprendeu a sambar nos pequenos intervalos das aulas. Para ser a exceção à regra, decido aplicar o controle atorial ensinado e não chorar diante desta difícil despedida.

Quando entro no trem rumo a Roma, chegam mensagens das amigas, com a palavra que lhes ensinei: “saudade”. De tudo e de todos. Dos dias intensos e das dores que ainda temos nos músculos. Da dor que fica também no momento da partida. No músculo de nome coração. Não aguento e choro no trem…

Luciah Tavares correspondente do e-cult em Roma na Fontana di Trevi

No dia seguinte, em Roma, ao deparar-me com a Fontana de Trevi, arremesso a moeda para garantir minha volta ali e agradeço aos sonhos realizados. Sim “quem tem boca vai a Roma”. E Roma é como o inverso de si mesma: o amor… o qual está em todas as partes… e todas as estradas devem nos conduzir para ali… para a certeza de que podemos sim realizar sonhos, ainda que absurdos. E amar a profissão que escolhamos trilhar.

A lembrança de que, ao final, somos todos uma coisa só na arte… como disse-me Claudio Massimo Paternò:

“No teatro são sempre tantos problemas…”

E como nos ensina Bogdanov:

“Como podemos resolver? O que não arrisco fazer?”

Na moeda que voa com um destino certo, a Fontana de Trevi, o pedido proferido por séculos: voltar a Roma. Por via das dúvidas, jogo mais duas para voltar a reencontrar todos. E cumprir a tarefa de levar a arte a mais e mais pessoas, seja através do teatro ou de minhas palavras, mas sempre como aprendi com o maestro russo: “Com tanto entusiasmo!”

* A ida de Luciah Tavares a Perugia, Itália, ocorreu através do Programa de Intercâmbio e Difusão Cultural do Ministerio do Cultura do Brasil. Como contrapartida, Luciah irá ministrar workshops em Pelotas/RS, em Florianópolis/SC e em Biguaçu/SC