Resenha: Wicked no Teatro Renault

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Resenha referente à apresentação do dia oito de setembro, quinta-feira. Haverão spoilers.

A Bruxa Má do Oeste, conforme retratada por Margaret Hamilton em 1939, foi eleita pelo American Film Institute como a quarta melhor vilã da história do cinema e pela revista Empire como a 90ª maior personagem da sétima arte. A antagonista de O Mágico de Oz, que pouco aparecia no livro original (escrito por L. Frank Baum e lançado em 1900), incorporou tudo o que o imaginário popular associa a bruxas ao ganhar destaque na famosa versão cinematográfica: pele verde, vassoura voadora, chapéu pontiagudo, nariz enverrugado. Enquanto isso, Glinda, a Bruxa Boa, se tornou a personificação da bondade e da justiça, ao ajudar a inocente Dorothy e seus companheiros a chegarem à idílica Cidade das Esmeraldas, lar do poderoso Mágico de Oz.

Por Calvin Cousin

Wicked, no Teatro Renault (Foto: Divulgação)
Wicked, no Teatro Renault (Foto: Divulgação)

Sendo o livro e o filme amados por gerações, é natural que diversos spin-offs e adaptações tenham sido lançados ao longo dos anos. Entretanto, a obra Wicked talvez seja a que apresenta uma das maiores reviravoltas no mundo de Oz, ao contar a história do ponto de vista das bruxas. Lançada como um livro, por Gregory Maguire, Wicked foi adaptada como musical para a Broadway em 2003 e originou diversas produções teatrais ao redor do mundo, sendo que a primeira versão em português está em cartaz no Teatro Renault, em São Paulo.

A controversa Wicked
Para apresentar a história, o palco do teatro se transforma no Relógio do Dragão do Sono, torre itinerante que, no livro de Maguire, retrata situações escandalosas das localidades em que se fixa. E realmente, a trama de Wicked derruba todas as noções que se tem sobre Glinda e Elphaba, aquela que virá a ser a Bruxa Má do Oeste. Criatura rejeitada pelos pais, Elphaba é discriminada por possuir a pele verde, situação que só piora quando ela se muda para a Universidade de Shiz para cuidar da irmã Nessarose, que não consegue andar, e se depara com a popular Glinda, uma patricinha, mas não totalmente cruel. Ainda assim, a reitora Madame Morrible enxerga potencial em Elphaba para participar de seu seminário em feitiçaria, o que revolta Glinda, que se candidatou e não foi aceita. A rivalidade se transforma em amizade quando Glinda se arrepende de uma peça que pregou em Elphaba e as duas, juntas, acabam visitando a Cidade das Esmeraldas para conversar com o Mágico sobre o fato dos animais de Oz estarem perdendo a voz, algo que preocupa muito a protagonista.

O libreto de Winnie Holzman (adaptado, com diversas brasilidades, por Mariana Elisabetsky e Victor Mühlethaler) simplifica as questões políticas que o livro de Maguire levanta, mas em nenhum momento esquece a ideia de que não existem pessoas inerentemente más – existem pessoas que foram descritas como tal, sendo elas próprias expostas a inúmeras maldades. A Bruxa Má do Oeste, em Wicked, acaba ganhando a titulação ao descobrir que o Mágico é um charlatão e, além disso, o responsável por tirar a voz dos animais para agradar o povo. Nesse universo, os cidadãos de Oz precisavam de um líder que dissesse o que queriam ouvir e que apontasse um culpado para todos os males da nação, pois “nada une mais um povo do que um inimigo em comum”. A terra mágica da história original se transformou em um lugar sombrio, mas com frequentes pinceladas de humor, o que se reflete em todos os aspectos técnicos da produção (uma réplica da montagem da Broadway, contando com os mesmos criadores).

O colossal cenário de Eugene Lee, repleto de efeitos especiais, conta com um dragão de metal montado no topo do proscênio e plataformas cobertas por heras nas laterais, perfeitas para dar destaque aos personagens. Simulando o interior de um relógio, o palco frequentemente fica coberto por engrenagens e outras peças de aparência mecânica, o que também é evocado na angular coreografia de Wayne Cilento, passando a ideia de cidadãos de Oz que perderam o pensamento crítico. Os figurinos de Susan Hilferty, que incluem os uniformes de Shiz e uma luxuosa coleção para os habitantes da Cidade das Esmeraldas, dão um toque extra de fantasia para a produção, com seus cortes e estampas irregulares, enquanto o potente desenho de luz de Kenneth Posner define o clima das situações encenadas, sejam elas dramáticas ou cômicas.

A trilha sonora de Stephen Schwartz, adaptada para o português de maneira criativa e sem desrespeitar a métrica, apresenta uma sucessão de números de natureza épica – que envolvem toda a companhia –, baladas românticas e hinos de empodeiramento para as personagens, incluindo o climático “Desafiar a Gravidade”, ao final do primeiro ato, quando Elphaba se rebela contra o Mágico e voa pela primeira vez. Com a orquestração de William David Brohn e a sonoplastia de Tony Meola, cada canção é impactante e avança a narrativa, embora “Se Eu Tenho Você” seja, talvez, meloso demais e interrompa a ação em um momento crítico do enredo, sendo um dueto entre Elphaba e Fyiero (parte de um triângulo amoroso que envolve Glinda) na metade do segundo ato.

Myra Ruiz como Elphaba e Fabi Bang como Glinda em Wicked (Foto: Divulgação)
Myra Ruiz como Elphaba e Fabi Bang como Glinda em Wicked (Foto: Divulgação)

Versão brasileira
O principal eixo da trama de Wicked é a relação de Elphaba e Glinda, que começam o primeiro ato como inimigas e terminam como melhores amigas. No segundo ato, após descobrirem as intenções do Mágico, a relação das duas é abalada, não apenas por Elphaba ter se tornado a maior inimiga do estado enquanto Glinda se torna porta-voz dos interesses do governo, mas também por causa do já mencionado triângulo amoroso com Fyiero.

Como Elphaba, Myra Ruiz não desaponta no vocal, que tradicionalmente exige muito das atrizes que passam pelo papel. A personagem “belamente trágica”, como ela mesma se descreve, é um poço de fúria e mágoa, mas plenamente justificada e compreensível.

Contudo, o destaque entre as protagonistas vai para Fabi Bang, que ofusca toda a iluminação do Teatro Renault como Glinda. Exagerada e andando sempre no limite entre hilária e insuportável, mas sem ultrapassá-lo uma única vez, a atriz domina o papel e faz com que cada momento em sua presença seja uma dádiva, arrancando aplausos da plateia em diversas cenas abertas. Sem desafinar, seu solo “Popular” (que incorporou beijinhos no ombro e uma breve sambada) é um dos pontos altos do espetáculo, assim como falas na linha de “Miga, são só sapatos, supera”, que quebram a tensão da sempre preocupada Elphaba. Bang não deixa que os espectadores esqueçam, apesar de tudo, que Glinda tem um bom coração, o que facilita a amizade entre as personagens.

Sérgio Rufino é um Mágico amável, fazendo com que sua personalidade dúbia seja quase aceitável (“cinza para o mundo não é cor”). Adriana Quadros está extremamente pomposa como Madame Morrible, o que lhe serve bem, além de ser uma presença distinta e, eventualmente, ameaçadora. Giovanna Moreira convence como a desabilitada Nessarose, que se torna a Bruxa Má do Leste, enquanto Bruno Fraga representa toda a carência do nerd Boq, apaixonado por Glinda. O global Jonatas Faro está escalado como Fyiero, mas na apresentação atendida foi o seu substituto, Rodrigo Negrini, quem vestiu as calças brancas justíssimas do personagem, embora não possuísse química com Ruiz nem com Bang e fosse melhor cantor e dançarino do que ator.

Chega um ponto em Wicked em que a história das bruxas encontra a de O Mágico de Oz, ainda que Dorothy nunca seja vista (exceto como uma sombra no clímax) e o Leão, o Espantalho e o Homem de Lata acabem sendo apenas participações especiais. Por serem personagens tão amados, talvez se sentisse falta deles. Mas não é o caso. O espetáculo técnico criado no palco do Teatro Renault e a complexa história protagonizada por duas criaturas tão peculiares (uma delas extremamente citável) tornam impossível assistir ou ler O Mágico de Oz do mesmo jeito novamente. O musical tem coração, cérebro e coragem também. E em tempo, com uma versão para o cinema planejada para dezembro de 2019, “Desafiando a Gravidade” talvez se torne tão reconhecível quanto Over the Rainbow.

Conheça mais de Wicked no site: http://wickedomusical.com.br/
Teatro Renault: Av. Brigadeiro Luís Antônio, 441 – República, São Paulo, SP
Duração: 2h45, com um intervalo de 15min

Créditos: Melodia e letras originais de Stephen Schwartz; Libreto de Winnie Holzman; Obra original de Gregory Maguire; Cenografia de Eugene Lee; Figurinos de Susan Hilferty; Iluminação de Kenneth Posner; Som de Tony Meola; Direção de Lisa Leguillou; Orquestração de William David Brohn; Coreografia de Wayne Cilento; Versão brasileira de Mariana Elisabetsky e Victor Mühlethaler; Direção residente por Rachel Ripani.

Elenco: Myra Ruiz (Elphaba), Fabi Bang (Glinda), Sérgio Rufino (Mágico), Adriana Quadros (Madame Morrible), Jonatas Faro (Fyiero), Giovanna Moreira (Nessarose), Bruno Fraga (Boq), César Mello (Doutor Dillamond), Rodrigo Negrini (Cover de Fyiero).

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14264149_830693777030502_5101510297978826840_nCalvin Cousin é estudante no sexto semestre de Jornalismo na UFPel. Não acredita em horóscopo, mas é aquariano com Vênus em Peixes

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