Um novo olhar sob Dona Flor

Releitura mostra os mistérios escondidos na obra*

Foto: Adriana Marchiori

Em um teatro no porão do Museu do Trabalho aconteceram os primeiros e últimos ensaios da releitura do texto de Jorge Amado: Dona Flor e seus dois maridos. Com espaço reduzido, calor de mais de 40 graus dentro do local e horários de ensaio alternando entre as tardes e a madrugada, o grupo pode se reunir com objetivo de preparação para os espetáculos.

Um dia antes da peça estrear, o espírito de concentração e a musicalidade eram evidentes. As músicas e cenas eram repassadas com ânimo, cansaço, suor, e muita alegria. No sorriso de Dona Flor, na malemolência e seriedade de seus dois maridos, ficava evidente as escolhas características dos atores gaúchos para a interpretação. A simplicidade do cenário ficava despercebida de encontro ao grande trabalho musical que já ficava claro nos ensaios.

Ao entrar no espaço era possível encontrar imagens de Iemanjá, santinhos nos chãos, os azulejos de pelourinho, além de muitas outras características do baianês. Tais atribuições que foram incorporadas tanto nos trejeitos, danças e, principalmente na fala dos atores. Para um dos diretores da peça, Zé Adão Barbosa, o mais interessante é de alguma forma se inserir na cultura baiana. “As cores, a atmosfera, os ritos, o sotaque, tivemos que estudar prosódia para chegar próximo do sotaque, pois é, em suma, um estado bem diferente do nosso”, ressalta o diretor.

Foto: Adriana MarchioriLarissa Sanguiné e Carlota Albuquerque completaram a direção do espetáculo. Para o grupo, a maior dificuldade foi retratar uma obra prima, já encenada no cinema e na televisão. “Queríamos trazer algo novo para o palco, diferente de tudo que já foi visto; tentamos, portanto, fazer uma linguagem de musical”, conta Barbosa. Ele já possui uma ligação afetiva com as obras de Jorge Amado desde a juventude, mas esta é a primeira vez que trabalha com um texto do autor.

A equipe é formada por: Álvaro RosaCosta, Angela Spiazzi, Bruno Pontes, Cassiano Ranzolin, Emílio Farias, Giovana de Figueiredo, Kaya Rodrigues, Leo Maciel, Maya Rodrigues, Tom Peres. Em cena, as musicistas Simone Rasslan (voz e piano) e Kiti Santos (flauta e violoncelo).

Jorge Amado por gaúchos

Atores comentam a importância desse espetáculo

Foto: Adriana MarchioriA peça de abertura do 17º Porto Verão Alegre foi aplaudida em êxtase pelas mais de 600 pessoas presentes nos dias 8, 9 e 10 de janeiro. Convidados e imprensa prestigiaram com olhares atentos a tão esperada obra. Na estreia oficial, com casa lotada, o sucesso foi espelho de todo o trabalho e dedicação durante meses de ensaio. A característica principal, ressaltada por todos os onze atores presentes, foi a possibilidade de cantar Dona Flor e seus Dois maridos, visto que a releitura é, em suma, um musical.

Mais de 100 figurinos inspirados na Bahia da década de 40 foi um grande desafio a ser alcançado. Retratar os espaços de jogatina, cabarés, vida noturna da capital Salvador em um espaço restrito, utilizando poucos cenários, foi evidenciado pelos organizadores.

Simone Rasslan e Álvaro RosaCosta foram responsáveis pela direção musical. Eles apresentam uma releitura do folclore da Bahia, onde se passa a ação. Com canções de domínio público e outras compostas para o espetáculo o repertório inclui samba, maxixe, ijexá, batuque, valsa e tango, tudo cantado pelos atores com acompanhamento ao vivo de Simone (piano e voz) e Kiti Santos (flauta e violoncelo).

Kaya Rodrigues – indicada ao Prêmio Açorianos de Teatro de 2014 pelo espetáculos Um Dia Assassinaram Minha Memória – que interpreta Dona Flor (Florípedes Guimarães), destaca que a preparação iniciou estudando as ideias de Jorge Amado. “Claro que todos já tínhamos alguma referência, a história é um clássico, um mito que circula sobre, mas descobrimos que ela é muito além do que imaginávamos, com personagens muito mais complexos”, comenta.

Para Kaya, a força da mulher de “Flor”, que na década de 40 já trabalhava, sustentava a casa, foi uma descoberta encantadora. “Apesar de frágil ela tinha uma grande força.” Em uma das cenas, ela cita: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Essa fala evidencia a fragilidade, mas o poderio dessa retratação.

Teodoro Madureira é interpretado por Tom Peres. Ele surpreendeu-se com a escolha e com o desafio de fazer um personagem tão característico e participativo do triângulo amoroso. “O Teodoro ninguém imagina que tinha uma namorada, que não era tão durão quanto se pensa, como foi rotulado no cinema e seriados”, comenta. Para Peres, o personagem tinha sua malemolência através de outros caminhos. “Ele também gostava de música, de samba, de pagode, tinha seu amor por Flor, mas tinha uma forma diferente de viver”, conta.

>> Veja aqui algumas imagens da apresentação

Uma das principais dificuldades era o ser perfeccionista, em que Teodoro precisava estar alinhado em todas as cenas, mesmo com as inúmeras trocas de figurino. “Mas sem dúvida nenhuma foi o sotaque o grande divisor de águas, foi buscar o sotaque, sem esteriótipos”, ressalta.

Cassiano Ranzolin, que interpreta Vadinho, enfatiza a fala dos colegas: “Vamos lendo o livro e nos surpreendendo com a quantidade de personagens que aparecem.” Ranzolin conta que quando foi escolhido para o papel já tinha muito das características, tirando a parte da jogatina. “O Vadinho é muito bom, preciso defender ele; perdeu a mãe muito cedo e o pai já mandou ele embora, não teve uma presença feminina em sua vida”, destaca.

A principal mudança do ator foi o visual, com bigode e os cabelos tingidos de louro. “No livro disse isso, então vamos seguir a risca”, retrata. Ranzolin ainda defende seu personagem: “Na cena mais marcante para mim em que ele briga com a Flor, no filme aparece ele batendo nela, mas no livro ela que bate em Vadinho e apanha de sua mãe, Dona Rosilda, por mentir sobre seu marido; ele é um cara bom, porque em vez de usar todo dinheiro no jogo, ele encontra seu amigo Cigano, que perdeu a mãe, e lhe dá tudo que tinha pego”, ressalta.

O diretor Zé Adão Barbosa escolheu atores gaúchos e completos, que precisavam atuar e cantar. “A peça é praticamente toda cantada, foi um grande desafio, escolhemos contar a história de trás para frente. Procuramos criar a nossa visão a partir do livro, retirando esteriótipos criados e construímos nossa peça Dona Flor e seus dois maridos”, finaliza.

Peça de muitos amores

Obra de Jorge Amado leva inspiração para novos artistas

Um romance de encher os olhos; um livro para nunca esquecer, um filme de muitos amores. Essa é a descrição de A Dona Flor e seus dois maridos de Jorge Amado. O romance de 1966 nunca deixou de ser atual. Uma história de romance na década de 40 retratando cabarés, jogatina, vida noturna de Salvador, comidas baianas e muito mais. A peça de Jorge Amado já foi recontada em vários rostos. A forma que Zé Adão Barbosa, Carlota Albuquerque e Larissa Sanguiné apresentam no Porto Verão Alegre é uma delas, algo que não lembrasse nem o livro e nem o filme já consolidados, mas que surpreendesse o público com a fieldade ao livro.

O país dividido entre o compromisso e o prazer, a alegria e a seriedade, o trabalho e a malandragem é apenas uma das formas que o livro representa o cotidiano. A narrativa faz um retrato do Brasil da época, marcado pelas ambiguidades e realidades. O amor de Florípedes Guimarães por Teodoro Madureira ou quem sabe por Vadinho, ou pelos dois. Para o autor, toda forma de amor é livre. A grande personagem feminina da época, logo apareceria na televisões, protagonizada por Sônia Braga.

Jorge Amado contava que para escrever Dona Flor e seus dois maridos tinha se inspirado numa história que ouvira muito tempo antes: a de uma viúva que se casara novamente mas continuava sonhando com o finado marido. Dona Flor era a segunda personagem feminina marcante do autor, depois de Gabriela.

O romance ultrapassou as cinquenta edições e foi publicado em mais de vinte países.  Quando o livro foi adaptado para o cinema, em 1976, com direção de Bruno Barreto, o sucesso se transferiu para as telas, em que teve mais de 10 milhões de espectadores. O livro tornou-se peças teatrais, minisséries, filmes. Nunca deixou de ser atual, mesmo que seu enredo ainda seja da década de 60.

*Esse post foi oferecido pela Textura Agência de Comunicação. Conheça o trabalho desses profissionais aqui.

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