Violência simbólica presente no Facebook é analisado em estudo na UCPel

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O Brasil é campeão mundial no consumo de mídias sociais. São cerca de 650 horas mensais dedicadas às redes sociais. Conforme dados do Pew Reserarch Center, 60% dos usuários da rede apontaram já ter visto alguém ser xingado no espaço e 27% já foi xingado.

Estudar esse novo universo, cheio de regras próprias, foi o que motivou a mestre em Linguística Aplicada do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Católica de Pelotas (PPGL/UCPel), Letícia Schinestsck, a dedicar sua atenção e estudo. E seu interesse recaiu, em especial, sobre a violência simbólica presente no Facebook.

Outros dados levantados por Letícia mostram que 22% dos usuários alguma vez já foram constrangidos intencionalmente e 53% presenciaram alguém sofrendo constrangimento. “Com meu estudo, quis saber de que forma as indiretas reproduzidas no Facebook podem caracterizar algum tipo de violência simbólica que ameaça a representação online dos usuários”, explica.

As páginas fictícias Olha só Kiridinha, Félix Bicha Má e Dicas Dollynho foram escolhidas devido à influência e engajamento, que podem ser medidos por número de curtidas, comentários e, em especial, compartilhamentos. “A violência simbólica na rede reproduz o valor e estigmas que já estão historicamente construídos”, comenta, ao justificar que muitas vezes essa manutenção não é consciente. “Na internet é muito forte o jogo entre palavras e imagens, e seus recursos e possibilidade são inúmeras”.

Fixar o outro como inferior, estigmatizar um grupo e afixar rótulos são alguns dos motivos que levam usuários a compartilharem posts com mensagens: “Kirida, ou você fala mal da pessoa ou você posta foto com ela. As duas coisas fica feio”; “Por um mundo onde a sua inveja me renda dinheiro”; “Sou desses que curte uma indireta sabendo que é pra mim, só pra deixar a pessoa com mais raiva”; “Quando me sinto feio visito o Facebook das inimigas e isso me conforta”; “Para de achar que tudo é indireta para você, você é insignificante” e “Seje um skinhead da cor do pecado”.

Foto: Wilson Lima
Foto: Wilson Lima

“Quando eu realizei o trabalho, a questão das indiretas estava muito forte e acabei achando curioso que quem compartilha esse tipo de post opta por marcar amigos ao invés das pessoas a quem a mensagem se destina”, comentou. De acordo ela, que atualmente realiza seu doutorado na UCPel, o usuário que compartilha um post como os das páginas analisadas precisa ter um engajamento e identificação muito forte porque imagem e mensagem passarão a ser fixados no perfil de quem compartilhou. “O post de certa forma passa a te representar e também constrói a tua identidade na rede social”, disse.

A representação online do selfie, ou seja, como pessoas constroem a sua personalidade dentro da rede social, também foi tratado no trabalho de dissertação. “O usuário vai dando recortes sobre determinados temas e situações que vão definindo sua personalidade”, contou. Quando alguém compartilha uma das mensagens estudadas, como “Por um mundo onde a sua inveja me renda dinheiro”, algumas das hipóteses são de que ela quer dizer que é muito boa para causar inveja, ou ainda que gostaria de ser invejada, explica a doutoranda.

Indiretas na timeline
Já que boa parte dos usuários que compartilha as imagens dos três perfis estudados não marca as pessoas para quem a indireta se destina, o real alvo precisa se identificar para entender a mensagem como sendo destinada a ela. “A carapuça precisa servir muito para a pessoa pensar: ‘Olha o que ela falou para/de mim’”, justifica. Conforme a pesquisadora, quando se diz de forma implícita aquilo que se pensa, acredita ou deseja, garante-se, pelo menos, maior isenção das responsabilidades sobre os conteúdos proferidos.

No perfil Olha Só Kiridinha, por exemplo, as postagens trabalham com a legitimação do cinismo e ameaça. “Quem fala não é qualquer pessoa, é a Audrey Hepburn, uma das mulheres mais bonitas de Hollywood, um ser que aparenta ter uma narrativa superior, por ser perfeita e cutucar seus subordinados”, atenta.

Conforme Letícia, a escolha do personagem Dollynho (representado por uma garrafa pet) associada a montagens de imagens caseiras choca pelo grotesco e reforça a violência simbólica. “Eles utilizam posts pesados com a intenção de abalar. Muitas vezes os comentários da publicação são bem piores do que o texto que acompanha a imagem”.

Já para que o usuário entenda o perfil Félix Bicha Má, que teve início em uma novela da Rede Globo, ele precisa ter acesso a um histórico das características que o personagem apresentava. “O dono do perfil do Félix se apropria de uma cena recortada e inserida com o discurso semelhante ao do personagem da TV, mas refeita com características comuns ao espaço online”, comentou. O perfil atrai pelo humor e demonstra frequentemente que para amenizar um sentimento negativo o usuário busca outras personas para elevar o seu status.

Para a pesquisadora, o jogo com as imagens no Facebook é muito representativo. “Se tu não souberes quem foi a Audrey Hepburn, por exemplo, a mensagem não será a mesma”, avaliou. Ao compartilhar uma imagem, o usuário se utiliza da representação do conteúdo para se autodefinir. “Eu gostaria de ser uma pessoa importante, mas como eu vou parecer importante sem fazer coisas importantes? Eu vou lá e coloco no Face que eu sou importante e por isso me invejam, aí pareço importante”, comenta.

Orientações de utilização
Para fazer a análise de seis publicações (sendo duas de cada um dos perfis citados acima), Letícia se utilizou da teoria Conversação Mediada por Computador (CMC), que tem a professora da UCPel e pesquisadora Raquel Recuero como uma das pensadoras. Por ser um ambiente online e não existir o contexto visual e verbal, por exemplo, novos elementos passam a ser importantes para o entendimento da mensagem.

“Estrutura, interação, sentido, comportamento social, comunicação multimodal são tópicos importantes para a análise que foi embasada no método chamado de Computer-Mediated Discourse Analysis”, pontua. Letícia chama a atenção sobre a necessidade da população usuária do ambiente online, e em especial às mídias socais, entenderem a dimensão da mediação. “O usuário, quando posta, acha que poucas pessoas vão visualizar, mas existe uma teoria chamada audiência invisível, isto é, um público que nos observa e que jamais teremos plena convicção de quem se trata, por mais que tenhamos alguns palpites”, informa.

Outro ponto destacado por Letícia é o cuidado que usuários precisam ter com o algoritmo do Facebook, que aproxima pessoas com pensamentos parecidos. “Isso pode gerar a ilusão que a sua opinião é compartilhada pela maioria das pessoas”. De acordo com a pesquisadora, muitas pessoas têm dificuldades de usar as redes e acabam divulgando fotos inapropriadas ou ainda expondo de forma demasiada a sua vida sem refletir sobre o que está tornando público.

Atuação
A doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Letras da UCPel é integrante do grupo de Pesquisa em Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais (MIDIARS), sediado na Católica e coordenado pela pesquisadora e professora Raquel Recuero, também responsável pela orientação da dissertação. Ela também integra o Laboratório de Análise de Discurso (LADIC), também sediado na UCPel e coordenado pela professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Rebeca Recuero. Letícia ainda é professora do curso de Jornalismo da Universidade da Região da Camanha (Urcamp), onde é responsável pelas disciplinas que abordam a temática redes socais e jornalismo.

Inscrições Mestrado e Doutorado
A UCPel está com Processo Seletivo aberto para cursos de mestrado e doutorado. São oferecidas vagas para os programas de pós-graduação em Letras (PPGL), em Política Social (PPGPS), em Saúde e Comportamento (PPGSC), Mestrado Profissional em Saúde da Mulher, Criança e Adolescente (PPGSMCA) e Mestrado em Engenharia Eletrônica e Computação (PPGEEC). As inscrições para todos os programas podem ser realizadas até o dia 19 de julho através do site link http://bit.ly/1tuQY1o, mesmo endereço em que estão disponíveis os editais com demais informações.

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