Gru lança “Welcome Sucker to Candyland”

por José Antonio Magalhães

Hoje caiu na internet o terceiro disco (primeiro “de verdade”) da Gru: “Welcome Sucker to Candyland”. Antigamente, Gabi Lima ficou conhecida em Pelotas como “Gabi Vai Tocar”, nome que ela dava às apresentações que fazia de tempos em tempos pelos palcos e cafés da cidade, tocando de Hanson a Queens of the Stone Age, de Tom Waits a Beyoncé. Com o lançamento do seu “Candyland”, prensado em fábrica e produzido pelo amigo de longa data John Ulhoa, do Pato Fu, Gabi está a ponto de decolar de vez da nossa terra do doce. Confiram nossa conversa.

Então, Gabi, qual é a desse disco?

Well. Esse disco apesar de ser o meu terceiro, eu sinto como se fosse o primeiro, o “de verdade”. Teve a produção importantíssima do John Ulhoa, que é um cara que tem muitas referências em comum comigo, e por isso entendia em qual som eu queria chegar. E ele é muito flexível e eu co-produzi o disco com ele, chegando mais perto ainda da sonoridade que eu imaginava pras musicas. Começou porque ele tinha escrito uma musica do tipo Aimee Mann, Elvis Costello, que ele não ia usar pro Pato Fu. E tava pela metade, e eu fiz a outra metade. É a “Can’t Fool Me”. A gente nem ia gravar ela pro disco, mas aos 45 do segundo tempo resolvemos gravar e chamar o Frank Jorge pra cantar.

Pode crer. E o que é que esse disco tem que faz dele “de verdade”?

A produção. O lançamento físico, prensado em fábrica. eu consegui ter acesso à produção necessária para conseguir as sonoridades que eu queria. Tem muita diferença um produtor como o John, com muita paciência, gravar o meu vocal, ou eu ter que ficar eu mesma apertando o botão. O Kitchen Door, disco anterior, peca muito no vocal, na minha opinião, por causa da dificuldade de se auto-produzir e conseguir uma boa performance. O John me ajudou a evoluir muito nisso. Não só apertar o botão, mas as instruções, a segunda opinião, deram um formato melhor ao disco. Muitas músicas foram feitas em parceria com ele, porque ele tinha coisas pra melhorar nelas.

As referências em comum são esse tipo de coisa, Aimee Mann, Costello? Sempre lembro de ti quando escuto ele mesmo. Alguma coisa mais de referências?

Rilo Kiley. Hanson foi muito referência, nos backings, nos timbres de bateria e de piano elétrico. Buffalo Tom é referência, também nos backings. Hanson é referência na estrutura pop. 90% do que sei de pop, aprendi com eles, e não tenho vergonha de dizer isso, de soar pop. Pop é bom, é alegria, é contagiante, é a música que te pega, tem toda uma estrutura bem pensada por trás – o pop bem feito. O pessoal tem usado a palavra “pop” como algo denigrativo. Eu tenho orgulho de alguém vir me dizer que tá com uma música minha que não sai da cabeça. Isso é pop. Neko Case também, uma cantora country, que faz voz e violão. A Aimee também influenciou muito pelo seu estilo de mixagem. A Tracy Bonham também. Ben Folds Five me deu coragem de fazer uma musica no piano, mesmo que eu não chegue aos pés do Ben Folds, mas serviu de inspiração. Todos os meus rolos de bateria são do Greg Eklund do Everclear. O John diz que eu toco q nem o Animal dos Muppets (risos).

Estás tocando todos os instrumentos nesse treco? Dave Grohl, é você?

Toquei a maioria sim. Deixei a guitarra pro John pq nao sou boba! Convidei o Arthur de Faria aqui de Porto Alegre pra contribuir com um acordeon, e convidei 2 bateristas mineiros que conheci quando fiz um show com o Rubinho Troll, ex-colega de banda no Sexo Explicito com o John – o Roger Bacoom (que também era do Sexo Explícito) e o Glauco Nastácia (da banda Tia Nastácia). E pra mim o mais especial e surreal foi ter o Chris Colbourn, da minha banda preferida, Buffalo Tom, cantando um dueto comigo. Ele gravou la em Boston e mandou. Admito que chorei quando ouvi os tracks solo de vocal dele, cantando uma música que escrevi.

Pô, que bonito! Queres contar brevemente pra galera tua história com o Pato Fu e como conheceste toda essa gente maneira?

Putz… não! (risos)

Por que? Muito grande?

Já contei mil vezes. Agora é a vez da Gru. Mas posso dizer que acompanhei a banda como fotógrafa e videomaker por 5 anos, e daí nasceu uma grande amizade com o John. A gente nunca marcou: vamos fazer um disco. A gente ia compondo e gravando, e quando viu ja tinha várias musicas. O John é uma pessoa que sempre acreditou no meu talento, mais até do que eu, e me incentivou a fazer coisas que eu achava que não conseguiria, então posso dizer que esse disco é culpa dele.

Assim já tá ótimo! Bueno, e pretendes tocar essas coisas por Pelotas em breve?

Tentei fazer dois shows em Pelotas e os dois caíram por terra, por culpa dos organizadores. São coisas assim que fazem eu cada vez mais me concentrar na produção em estúdio e perder o tesão por tocar ao vivo. Se alguém quiser me chamar, eu vou , mas não vou me mexer pra organizar nada em Pelotas. Vou estar aí no mês de junho, mas em breve me mudo pra Los Angeles.

A galera que produz essas coisas em Pelotas tá precisando de um puxão de orelha?

Não vou entrar no mérito da organização cultural de Pelotas. Mas não lembro qual foi o último show que consegui fazer aí. Acho que existe uma panela ao invés de uma comunidade, e uma exploração dos artistas independentes da qual eu não quero fazer parte.

Gostei do “Welcome to Candyland”. Ainda não cansei de escutar. Geralmente eu não conseguia escutar um disco teu inteiro. É tipo os primeiros discos do Costello, como comer um pote de sorvete de uma vez. Não significa que sorvete seja ruim. 

Ele só parece feliz, olha o próprio titulo. É sarcástico! O Costello mete o pau em todo mundo. Tem que prestar atenção nas letras. Pra mim as letras são importantes. É aí que meu disco engana. Ele parece pop fofinho, mas as letras são todas deprê. “Feel Like Running” descreve um ataque de pânico. “Welcome sucker to candyland” é o que se diz para o namorado novo de uma menina que não presta, segundo a deusa do country Loretta Lynn (risos). “Sucker” é “pirulito”, mas também “idiota”. Parece docinho, mas o cara vai se ferrar eventualmente. Trabalhamos na base do sarcasmo.

Saquei. Abana aí pra galera, Gabi! 

The music lives!

Fotos: Thiago Peraça

Canastra Suja lança disco e anuncia fim da banda

por José Antonio Magalhães

Esse dia 28, na Casa Fora do Eixo Pelotas, rolou um evento duplo de uma das bandas mais seminais do rock pelotense atual: a Canastra Suja lançou seu mais novo disco e, ao mesmo tempo, anunciou o fim da banda.

O segundo e último disco da Canastra se chama “Máquina Loucura” e chama a atenção pelo formato físico – o encarte-objeto tem formato triangular e, quando montado, assume uma forma geométrica cujo nome técnico desconheço. O conceito partiu de um objeto de autoria do guitarrista Teco Barbachan, que é artista plástico. Já a ideia de basear o formato do disco na obra do colega foi do tecladista Vini Albernaz.

UM DISCO DE TRANSIÇÃO

A Canastra Suja, nascida em 2006, fez o nome no rock pelotense como banda de (como eles mesmos chamavam) rock ‘n’ roll sem frescura. Suas raízes estavam no blues e no rock gaúcho e as letras do primeiro disco (“Três minutos pra água ferver” – 2010) partem da fórmula garotinhas-juvenis-sofrem-nas-nossas-mãos. A canção mais famosa dessa época talvez seja “Um Blues pra Você Chorar“.

Com a saída do baterista Marcelo Gafanha, a banda entrou em uma fase de instabilidade. Não se sentiam à vontade para buscar um novo baterista, então encararam o momento como um desafio à reinvenção. Vini Albernaz tinha entrado na banda como tecladista e estava experimentando com batidas eletrônicas, de modo que decidiram substituir a bateria por elas e ver no que dava.

A banda começou a desconstruir o seu próprio conceito, subvertendo em grande medida aquilo que a caracterizava. As canções, que antes nasciam de longos ensaios, passaram a ser criadas no processo de gravação, sobrepondo camadas de instrumentos às guias em voz e violão. Esse processo transcorria em madrugadas no quarto do baixista Alércio, na Casa Azul, onde morava com outros membros da banda.

O terreno que a banda estava pisando ainda era tão instável que preferiram não usar o nome “Canastra Suja” em shows dessa época. Adotaram para o que era, até então, um projeto paralelo, o nome “Vermelho Incidental”.

A nova fórmula, sem bateria, com músicas mais paradas e letras poetizadas (Alércio estreava como compositor e o guitarra/vocal Alex Vaz tinha mudado muito de estilo nas letras) desceu estranha para o público já estabelecido da banda. Muitos se sentiram alienados, não entenderam o que era aquilo – ou entenderam e não gostaram. Em um festival de rock pesado em Bagé, chegaram a ser vaiados no palco.

Com o tempo, a banda assumiu o novo conceito para o segundo disco. Chegaram a fazer shows como Canastra Suja e transformar versões de canções antigas para o novo estilo, como na apresentação que fizeram na Casa Paralela no início de 2012, onde até o visual da banda (olhos pintados, coisa e tal) era de causar estranheza nos adeptos do “rock ‘n’ roll sem frescura”.

A SEPARAÇÃO

Até porque alguns membros da banda moravam juntos, havia um sentido de família entre todos eles, que de certo modo se quebrou com a saída do Gafanha, contou Teco na Casa Fora do Eixo. Gradualmente, cada um dos membros restantes se ocupou das suas próprias coisas. Alex tinha o seu Projeto Massimiliano, Teco se enfurnou para trabalhar em projetos de arte como o objeto que veio a inspirar o encarte, Vini terminou sua graduação em Artes, Alércio ficou lendo, lendo, e começando a compor canções.

Vários fatores contribuíram para o fim da banda. Além dos focos divergentes, o dinheiro do procultura, para o qual tinha sido aprovado o novo disco, estava atrasando, e criou-se uma espécie de limbo, uma espera para divulgar um disco que não saía. Isso tudo somado a possíveis divergências pessoais dentro da banda – motivo que está longe de ser raro no mundo do rock – resulta agora no anúncio definitivo do fim.

CONVERSALHADA

Na Casa Fora do Eixo, o domingo foi tranquilo. Começou com uma conversa com os membros da banda, que contaram muito dessa história que está aqui reproduzida, expressaram sentimentos, falaram sobre o disco. Vini ainda tentou ensinar o público a montar o disco-objeto da banda – o que não deixa pela simplicidade de ser complicado. Acabada a conversa, foi o momento de escutar o disco, que foi reproduzido na íntegra para os presentes. Enquanto alguns sentavam atentos na sala onde estava o som, outros escutavam de forma mais casual entre conversas e cervejas.

No “velório da Canastra Suja” (para usar as palavras de Teco), ficamos com um demo de 2007 (“Rock ‘N’ Roll Canastra”), dois discos de estúdio (“Três Minutos pra Água Ferver” e “Máquina Loucura”), um EP (“Cozinha do Desespero” – 2011) e um “ao vivo” de 2009. Além disso, ficamos com a expectativa pelos próximos movimentos dos membros da banda. O Massimiliano, de Alex Vaz, prepara o lançamento do EP “Orleanza”. Teco andou se apresentando com seu projeto “Invaders”, que mistura música instrumental com vídeo. A Musa Híbrida, nova banda de Vini e Alércio, já tem feito sucesso com o primeiro disco, disponível para download.

Ps. Não deixem de conferir o belo texto publicado pelo Alércio no facebook da banda. Ele tem como expressar tudo isso com mais vida do que eu. O texto trata principalmente da fase mais inicial da Canastra, que não apareceu aqui.

fotos: Casa Fora do Eixo Pelotas

Grito Rock Pelotas 2013 – Melhores momentos

Nossa equipe de musicólogos de plantão acompanhou os shows do Grito Rock com olhos ouvidos atentos. Escolhemos as bandas que mais se destacaram para cada um de nós (não sem alguma concorrência) e expressamos nossas impressões, opiniões e divagações nas resenhas que se seguem.

ROBERTO SOARES NEVES

 

PETIT MORT
Programado para a praça Coronel Pedro Osório, o show do trio argentino foi levado pela chuva para o Wong Bar. Se por um lado pode ter perdido público na mudança em cima da hora, por outro ganhou o clima de show underground proporcionado pelo bar. No som, bateria (Sebastian Olarte) sendo espancada sem piedade, guitarra e baixo nas alturas soltando riffs inspirados no rock alternativo noventista e boas melodias nos vocais. No visual, além do referido espancamento, a dupla de vocalistas Michelle Méndez (guitarra), cabelo entre branco e rosa artificial, e Juan Manuel Recio (baixo), cabelo longo esculhambado na frente da cara, pulava e dançava freneticamente.

A intenção claramente era fazer valer o nome da banda (derivado da expressão francesa que mais ou menos significa “orgasmo”) para a plateia desconhecida, através dessa estimulação sensorial dupla. Recio chegou a pedir o acompanhamento do público: “quem quiser dançar, quem quiser pular, é possível”. Mas, seja pelo espanto causado pelo show, seja por letargia dos presentes, foi preciso muitos minutos pra nascer a primeira roda punk. Por dentro, no entanto, estavam todos pogando, rumo à pequena morte.

 

SATURNO DE JOSÉ

Pelo nome, as barbas, o violão, a flauta, enfim, parecia que o show do quinteto de Esteio traria um tradicional folk rock indie com vocal desanimado. E nas primeiras músicas, a expectativa parecia que ia se cumprir. Mas conforme o show foi se desenrolando, o volume foi subindo e a Saturno de José foi mostrando suas inúmeras faces, que vão da música brasileira até o rock mais “clássico”.

A versatilidade dos músicos, que se revezaram entre violão, baixo, teclado, bateria e percussão, e boas sacadas nas letras (“a fonte da juventude é o frio na barriga”) ajudaram a cativar o público. Por vezes se sentiu uma vibe circense, explicitada na música “Ladrões de Alegria” e seu “reeeespeitável públicooooo”. O ápice do show veio com “Felicidade”, que começa calminha e, do nada, vira marchinha. “Então deixa a felicidade vir”, cantava (se bem me lembro) a banda toda ao mesmo tempo. Tá bom, então.

 

THE SORRY SHOP

É espantoso que uma banda tão inesperada se esconda ali passando os porvoltade 60 quilômetros entre Pelotas e a vizinha Rio Grande. Idealizada pelo baixista Régis Garcia, a Sorry Shop tem seis integrantes, com duas guitarras (Kelvin Tomaz e Rafa Rechia), bateria (Eduardo Custodio) e dois vocalistas (Marcos Alaniz, que ainda contribui com o iPad, e Mônica Reguffe, com a meia lua). Todo esse aparato humano e sonoro tem um propósito. A referência principal é o shoegaze, e a barulheira e a melancolia que vêm com ele.

O último show do festival foi dentro da Casa Fora do Eixo, por causa da chuva. A troca, afinal, favoreceu a experiência de quem entrou pra ver. No ambiente já praticamente lotado pelos integrantes e a plateia, o espaço que sobrou foi ocupado pela massa sonora da banda. Os vocais, já baixos de fábrica, se tornaram praticamente inaudíveis, enquanto a distorção e o delay das guitarras como que oprimiram os presentes a entrar no clima. Transcendência em sussuros pra terminar o Grito Rock.

 

JOSÉ ANTONIO MAGALHÃES

 

TOPSYTURVY

Quando escutei a Topsyturvy na internet, o peso alternado com partes melódicas, as guinadas repentinas, o tom irônico e insano dos vocais e da música como um todo, me lembraram System of a Down. Mas quando começaram a tocar, no hoje simbólico largo do fechado Sete de Abril, logo vi que as influências iam bem além. Logo na primeira música, escutei Mars Volta/At the Drive-in, referência corroborada pela postura frenética-empertigada – pensa Omar Rodriguez-López – do vocal e guitarrista Alexandre Lima.

Ao avançar do show, foi se tornando mais evidente a originalidade da banda – a combinação de um som moderno e pesado com uma liberdade formal buscada no jazz e no rock dos anos setenta, os ritmos quebrados. Quem muito roubava a cena era o baterista Gustavo “Gummer” Rodrigues, tanto pela técnica absurda quanto pelos pulos que dava, levantando-se da bateria, quando as pausas davam tempo. A banda passeia por ritmos, como o reggae em “Wake Me Up” e o samba em “Sambo,” não raro se mostrando brasileira a despeito das letras em inglês. A improvisação, para a qual as canções dão muito espaço, se expande ao vivo, e a dosagem dessa liberdade com a clara não-chatice das canções é feita com uma maestria raramente vista.

 

CONVÉS IMAGINÁRIO

O Convés Imaginário abriu a tarde de shows no Parque Dom Antônio Záttera, representando um certo espírito da época que envolve um rock em registro baixado, que mistura a influência gringa do indie com a vontade de ser brasileiro e o intimismo herdados do Los Hermanos. Eu diria que os vocais ébrios do Duda “Duba” Ribeiro imitam demais os do Rodrigo Amarante, se eu não soubesse que esse é realmente o jeitão do Duba quando está fora do palco. Além do mais, “Só Hoje eu Vi” é uma das melhores canções amarantianas que eu lembro de escutar ultimamente.

A banda tocou uma série de sons, segundo Duba, nunca antes tocados “nessa conjuntura do universo”. Nas canções novas, pelo que me lembro, se via mais do que antes a influência clara do folk, que parece vir mediatamente do Bob Dylan e imediatamente do Vanguart – banda que faz parte das raízes do Fora do Eixo. A Convés Imaginário é hoje uma das bandas que melhor representa, em Pelotas, tanto essa vertente do folk quanto a dos filhos dos Hermanos.

 

ZUDIZILLA

Quando voltei à praça na noite de sábado, o público ao redor do palco tinha mudado de cara. Muitos bonés, muitas camisetas tamanho XXL e um contingente negro que não se viu nos outros dias do Grito. Quando Zudizilla subiu no palco, deu para entender por que “representar” é um verbo tão importante no mundo do rap. Esse pessoal não estava ali só para olhar o show. Era evidente que a voz no microfone não era só do artista e sim que falava por muitos.

Auto-descrito como “pesado e sujo,” o som chegou com uma força de tirar o fôlego, e mesmo quando não se entendia uma parte da letra dava para sentir a potência na intenção das palavras. Participações como a de Johnguen, da Aedyz Crew, cuja voz de possuído não passa despercebida, deram dinamismo à cerimônia. A energia do show parecia estar se aproximando de um ápice, ao redor do quinto ou sexto rap, quando um estalo elétrico deixou tudo escuro. Por vários minutos o pessoal esperou, não querendo acreditar no coitus interruptus, mas o problema técnico não pôde ser contornado e um dos shows mais promissores do festival teve que ficar na metade. A plateia, na vontade.

 

LEON SANGUINÉ

 

SUBURBAN STEREOTYPE

Sou um grande fã de Hardcore, embora não pareça. Sou porque poucas coisas na música me soam tão sensacionais quanto misturar peso e pop, tanto nas guitarras quanto na música em si. At the Drive-In é uma das minhas bandas prediletas na vida por esse e outro motivo que me faz ter simpatia pelo gênero: As boas melodias normalmente são acompanhadas de letras pertinentes.

A Suburban Stereotype, nova do gênero na cidade que tem como principal representante a Freak Brotherz, começou um pouco tímida, mas as guitarras carregadas e a presença de palco do vocalista Diego Gularte logo trataram de trazer força ao ambiente. Juntamente com a Hardcore Pride, a Suburban mostrou que trará grande fôlego ao gênero mais legal e engajado de Pelotas.

 

DR. HANK

Há mais ou menos um ano eu fui visitar amigos em Porto Alegre. Em um dos dias por lá, fui convidado a prestigiar uma banda de “surf music”, um estilo muito confuso pra minha cabeça meio lerda. Nunca sei se assistir a um show desse estilo de música significa ouvir Beach Boys ou Jack Johnson. Enfim, a banda não era muito boa e fiquei desde então com certo pé atrás em relação às bandas de “surf music”. Até porque sempre tive inveja do sucesso que os surfistas fazem com as mulheres. Surfistas músicos então…

Quando o André, gestor de música da Casa FdE Pelotas e meu amigo, me contou que uma banda portoalegrense do gênero se apresentaria no grito, confesso que me assustei, pelos motivos que vocês já leram ali em cima. O fato é que eu sou um bobão e fui surpreendido pela excelência instrumental da Dr. Hank, a melhor na minha opinião no quesito, dentre todas as apresentações de fora do festival. Como se não fosse o bastante, o grupo trouxe ao público letras interessantes e um discurso preciso sobre ocupar os espaços da cidade.

Não era Beach Boys e nem Jack Johnson. Era Sublime, vertente que eu havia esquecido de contar como surf music.

 

Fotos: Mídia colaborativa Fora do Eixo Pelotas

Freak encarna Rage no panóptico do Munaya

Essa quarta-feira, rolou no Munaya mais uma edição do já consagrado Freak Toca Rage. Eu estava lá pra contar o que aconteceu, e talvez unas cositas más…

Por José Antonio Magalhaes

Meu primeiro Freak Toca Rage foi naquela esquina do Porto que hoje se chama Wong Bar, mas não sei se não era ainda o Moicano. Sei que faz alguns anos – e que foi uma atividade física. A banda tocava no mezanino, enquanto eu, alguns metros abaixo, me debatia em meio a uma névoa de suor e gelo seco, com punks, emos, grunges, manos, mulheres e homens, descamisados ou não.

YOUR ANGER IS A GIFT, disparava a voz do vocal Danilo Ferreira, assustadoramente parecida com a do Zack de la Rocha. As letras inconformistas, articuladas com clareza, ecoavam no crânio de todo o mundo ali em baixo. O instrumental, na caixa torácica. Se alguém ia pensar nessas letras depois de sair dali, se ia assumir algum engajamento pragmático coerente com o proposto, era outra história, mas de segunda importância. Devia haver algo de verdadeiro nesse sentimento que movia – fisicamente mesmo – a todo o mundo, ainda que o seu alvo não fosse tão claro.

Nessa época eu já não era novato na cena rock pelotense, mas mesmo da primeira vez que tomei conhecimento da Freak Brotherz eles já eram uma banda tradicional na cidade, que organizava festivais, que servia como um eixo social em torno do qual a galera circulava – eram os patronos do underground local. Para muita gente, eles representaram a primeira experiência do ídolo de carne e osso, que está por aí, que bebe junto e troca ideia. Quem gostava conhecia as músicas deles como conhecia as do Red Hot Chili Peppers ou do próprio RATM.

No presente, chego no Munaya para uma reunião e vejo que alguém botou um disco do Rage pra tocar. Que nada, era a Freak ensaiando no estúdio – para mais tarde fazer exatamente isso, ensaiar no estúdio, só que dessa vez com uma plateia que assistiria tudo em um telão no pátio. É o projeto Ao Vivo no Estúdio do Munaya, esse coletivo que, sendo muito mais jovem do que a banda, compartilha com os Brotherz o ideal de suprir de carvão as caldeiras da cena local. Surpresa: fiquei encarregado de escrever meu primeiro artigo para o e-cult sobre esse evento, e aqui estamos.

A banda, é claro, entrou com os dois pés desde o início (não consigo nem imaginar outra opção, tratando-se de um set de RATM). Os ouvintes estavam sentados ou em pé, mas quietos – é estranho pular na frente de um telão. Cabecinhas pulando, porém, não faltavam, já que ninguém é de ferro. Ao fundo estava a velha guarda, gente que se vê pela noite desde tempos imemoriais; na frente, rostos novos, tanto de vista quanto de idade – e prestando atenção.

Numa certa altura do show, o Solano, baixista e irmão do Danilo antes citado, parou para comentar a condição estranha de tocar para uma plateia sem vê-la. Em um show do tipo em questão, onde a transferência de energia entre público e banda é tão fundamental – e, novamente, tão física –, tocar nesse Big Brother, onde a observação é de mão única, era uma experiência radicalmente diferente e, por isso mesmo, um desafio. Porém, “chega um ponto que tu desliga e rola como se fosse um ensaio normal”, explica o Solano, “Acho que essa seria a ideia. Como se o público estivesse junto com a banda no ensaio”. Solano até gostaria de ter uma tevê no estúdio em que pudesse ver o público, mas consegue curtir a sensação de dúvida. A cegueira não intimidou a banda, que tocou com confiança.

Se a dimensão física do show estava fora do jogo, as pedradas da letra vinham com força redobrada, e a atenção público, não tendo que se concentrar em punkear ou defender-se dos cotovelos alheios, voltava-se inteiramente às canções e à técnica dos músicos, que reproduzem os sons originais com uma precisão impressionante. Hinos do Rage vieram em série, como Bullet in the Head, Know Your Enemy, Sleep Now in the Fire e aquela do Tony Hawk’s 2.

Na segunda parte do ensaio-show, a banda começou a intercalar sons próprios. Não é nenhuma imposição indesejada pelo público: se nos shows da Freak sempre houve o “Toca Rage!”, nos shows dedicados aos covers sempre se ouviu: “Toca Freak!”. “Veja”, a música de trabalho atual, foi mostrada e bem recebida. Na hora de tocar “Pisa Fundo”, o grande clássico da Freak, os rapazes se atrapalharam e tiveram que começar umas três vezes. “A gente toca a mesma música há dez anos e ainda erra”, brincou o Solano, e bola pra frente – ninguém se incomodou.

O cenário mudou bastante desde que surgiu “Pisa Fundo”. Chegaram as bandas indie, as festas descoladas, a chamada “nova MPB”. Para alguns, a Freak Brotherz pertence a uma época que já passou – merecem todo o respeito, mas talvez não toda a atenção. Para outros, ainda são uma das principais bandas locais em atividade, e representantes de um rock impactante, intencional, em uma época em que atitudes indiferentes e canções introspectivas já não soam tão novas.

A Freak Brotherz está bolando um show para comemorar o aniversário de 15 anos dessa história toda, e tem feito shows aos domingos para que a gurizada mais nova possa entrar em contato com o som.

Fotos: Eduardo Souza (as duas primeiras) e Rafael Dornelles (abaixo)