Romeus – Crônica por Charlie Rayné

– Errado. Não é isto.
– Deixa eu ver… Comestível?
– Não. Errou, como sempre. Você sempre erra! Tapado!
– Tapado? E você é um espertalhão, Romeu!

Ele tirou da mochila um arsenal. Dentre os vários badulaques como camisinha, creme de rosto, chicletes e cadernos de aula, um pacote pequenino.
– Que bagulho pequeno!
– Dizem que nos menores embrulhos estão os melhores presentes.
– Não é aquele lance de frascos e perfumes que se diz?

Silêncio mortal. O rosto de Romeu escurece. Não foi por causa da famosa chatice dele em contrariar. Antes fosse. Era aquele barulho de sempre.
– O que foi?
– Ele chegou. Desembrulha isto de uma vez.
– Mas já?
– Não podemos esperar!

Diante dele aquele antídoto contra o mal que os cercava. Para a intolerância. Para a descrença no amor deles dois. Para chocar a humanidade mais próxima. Para cessar tudo.
– Calma. Estamos trancados. Comece primeiro!
– Eu? Por que eu?
– Porque você é mais velho. Porque você sugeriu este caminho…
– Por que você terá mais tempo para desistir?

Toc, toc. O outro bate, insistente. O outro brada, inconveniente como sempre:
– Abram a porta! Abram! Moleques!
– Vamos! Comece!
– Este troço é ruim para dedéu… Pronto! Agora é sua vez!
– Tire a roupa!
– E você? Não vai beber?

Ele bebe. Tira a roupa também. Um tum, tum, tum vai aumentando…
– Bando de imbecis! Abram esta porta! Vou arrombar.
– Eu sabia que quando eu me apaixonasse por outro alguém, igual a mim, seria assim. Que por mais que se fale em respeito às opções… Que por mais que se diga na televisão, na internet que não somos errados, aqui em casa nunca mudaria.
– Me beija?
– Eu te amo, sabia? E não consigo entender porque não posso te amar…
Beijo. Silêncio novamente. Sem toc, nem tum. Eles se beijam e se misturam.
– Falta de ar.
– Não sei se é nosso amor ou o efeito disto aqui.
– Pode ser os dois…
– A música! Põe a música!
– Onde fica o repeat?

No som, a música fala de um amor entre dois seres iguais também. Uma sirene brada forte e vai sumindo, sumindo, sumin… A música continua. Ela sempre continua.

Romeus – Crônica por Charlie Rayné

Receita de Sorriso Fatal… Crônica por Charlie Rayné

Era redonda. O espelho mostrava suas curvas disformes. As saliências da barriga a gargalharem dela. Um biscoito de chocolate. Outro. Mais outro. Mais outro. Ele chegaria em breve. Ele, de corpo harmonioso, de sorriso alongado.

Os cabelos arrumam-se como por encanto, o rosto rechonchudo enche-se de uma esperança doentia, impossível! Queria vê-lo, sentir aquele sorriso, mesmo sabendo que não passava de uma mera cortesia de cunhado.
A outra já estava no vestido azul, os cabelos de mel, trançados como numa foto de revista. A outra sempre suave, o rosto feito sob medida para ele.

– A carne já está pronta?
– Sim. Eu mesma preparei.
– Não é muito gorda, é?
– Não.

A carne é magra como a irmã. Tem um cheiro de temperos finos. Ao cortar, não oferece qualquer empecilho à faca e ao estômago: é macia, leve e suculenta. A faca desliza. A campainha toca. A carne estilhaça-se. O coração descompassa.

Ele e seu sorriso. A outra, feito uma hiena. Dois lábios feitos um para o outro. A outra a se exibir, a deixar que o vestido esvoace. As pernas delicadas de dama. Ele com o rosto lascivo, a contemplar, adivinhar o através do vestido azul.

A outra não cozinha. Não lava uma louça. A caçula da família. O estorvo que nasceu para matar a mãe. Papai sempre zeloso dela: a trazer bonequinhas para saciá-la, para sanar a sua orfandade. Ela a lavar, passar, varrer, cozinhar. Ela a consumir-se dos nervos, a engordar feito um animal prestes ao abate.

A mesa bem posta. A Carne em baixela de prata. A outra a pedir privacidade no Jantar. Ela a resignar-se e emitir um sorriso fatal. Uma receita venenosa de sorriso. Era a segunda vez que este sorriso vinha à tona: o primeiro nasceu de uma noite em que a outra havia despencado da bicicleta. Um alicate a cortar os freios e enfim o sorriso fatal – A sua bicicleta é a mais linda que já vi!

Ela sabia que quando aquele sorriso apontasse mais uma vez tudo seria diferente, que por mais que lutasse, estaria fadada ao descontrole. Sabia que este segundo sorriso não teria aquela ingenuidade da infância, que ele traria o tempero maturado de anos de humilhações. Sim, aquela força a serpentear sua razão, insistente feito à caixa de música da outra. A caixa de música cheia de jóias com a bailarina a deslizar suavemente. Papai nunca deu a ela um mimo daqueles, como se ela não merecesse a sutileza, a suavidade. Ela, repleta de bonecas de massa e de trapo, a outra a cantarolar diante da bailarina de porcelana branca:-Sua irmã merece este agrado, nem o peito da mãe teve!

A caixa de música aberta. A bailarina a deslizar ao som de um noturno de Chopin. A força e a música turvando-lhe os sentidos. Os dois a gargalharem, a trocarem juras, febris de tanto bem querer. E ela? O que era ela?

Tirar a mesa. Trazer a sobremesa e o licor. A irmã a rir de sua fisionomia cansada. Ela uma palhaça disforme. Outro sorriso, o terceiro. Um alarme mais que tardio de que era inevitável aceitar passiva, aquele ultraje.

O licor e uma lágrima doente de sal. Gotas, gotas, gotas, gotas de raiva! Outra lágrima e várias gotas, infindas gotas! O quarto sorriso, transfigurado em gargalhada sonora e assustadora. Uma gargalhada alongada como o sorriso dele…

O pranto veio depois, quando teve de tirar a mesa e levar os amantes para o descanso. Ficou ali, no meio dos dois, admirando-lhes as feições serenas, as faces saudáveis…
Beijou-lhes como se fossem as bonecas que não teve na infância. Contou-lhes suas incertezas, sua inadequação diante de um mundo de vaidades. Deitou no meio dos dois e fez com que os braços deles a enlaçassem. Era amada e protegida. Também estava pronta para dormir.

Receita de Sorriso Fatal… Crônica por Charlie Rayné

Filho Prodígio – Crônica por Charlie Rayné

Ele escuta uma música que fala de filho pródigo. O ônibus sacode, o coração treme, esperançoso por voltar àquela terra. A terra nos faz nascer, ela doa os primeiros encontros, o clima propício, as palavras comuns, a primeira bagagem. A mesma terra nos faz sofrer, posto que ela é palco das nossas tragédias mais íntimas, posto que nascemos dela e nascer é trágico.

Viagem intensa: Selva de Pedra-Interior. Sente uma dor deliciosa, dor de voltar ao obscuro ventre que o cuspiu no mundo. Não, não foi a terra tão sua que o cuspiu, foram as gentes! Mas o que são as gentes senão a terra com comunicação verbal?

O ônibus para. Nada a sua espera. Nada. Tomou o táxi sem saber para onde ir, sem nada mais saber. Sangue descontrolado na veia, frenético, sem saber para onde correr.
– O Senhor vai para onde? Senhor? Aonde Senhor?
Ele nem sabe. Parado no táxi, na cidade parada para ele. Ele não é mais dela? Pensou tanto, planejou tanto voltar que percebe que não há amigos nem sonhos de infância. Só gente duvidosa dele e ele mais duvidoso ainda de si e deles. Eles quem? Nem existiam mais ou existiam no interior do seu interior?
– O Senhor está se sentindo mal?
-Meu jovem, leve-me para aquele hospital, aquele antigo… Foi lá que eu nasci.

O taxista é jovem, não entende do que ele fala; o taxista não sabe que naquele cenário ele sorriu e chorou, às vezes, inúmeras vezes… O taxista desconhece os mortos dele, nada sabe de chão, ainda não. Ainda não é tempo.

Morrer onde nasceu. Ele tem o privilégio disto. Poucos podem planejar – a morte nem sempre avisa. Ele não, ele está ciente, ele recebeu este presente e futuro não existe mais.
Saudade e Raiva. Lembrança e vontade de esquecer.
Pára o táxi. Ele desce. O taxista cobra a corrida. Ele não quer pagar, mas paga. A cidade não o deveria indenizar os tempos injustos? O taxista é jovem, não entende de história, ainda não.
– Está vendo aquele prédio ali moço? Meu pai que fez e eu ajudei a construir.
O taxista sorri, inexpressivo. Ele fica ali, defronte do prédio e adiante não há mais. Outro carro, desgovernado desponta: apressado, engole o carro do taxista, que dança no céu e na terra pousa. Ele é velho, já viu muitas coisas, mas o jovem não verá! Aproxima-se do carro. Sangue vivo. Jovem morto? E o outro carro? Onde está?
O Hospital. Ele corre como se tivesse a energia de antes. Ele corre com a energia do rapaz que agora é velho, que agora é tarde demais. Transplante de vida?

O jovem nada mais pode fazer, mas ele pode ainda! Ele pode respirar o ar daquela noite triste e mágica. Ele pode ver aquela folha cair e levantar pela força do vento. A terra pode nos fazer nascer, morrer e nascer de novo- pensa.

Ambulância, gentes e sirenes. Ele se afasta, não quer saber de fim, mas de recomeço. A dor deliciosa do Filho Prodígio.

Filho Prodígio – Crônica por Charlie Rayné

A caixa de meu pai – Crônica por Charlie Rayné

Enquanto meu pai repousa num quarto de hospital, ouço seu ressonar suave- contraste da voz enérgica e militar de outrora. Os olhos marejados os do meu pai, quase do menino que fui um dia. Menino com medo de reprimenda severa, lágrimas antecipando a dor.

Ele nunca chora ou emite qualquer sinal de fraqueza, homem bronco, bruto, corpo rijo e alma indelicada. Um estranho conhecido. Sem nexo estar junto de um estranho que tem o mesmo sangue que corre em minhas veias. As enfermeiras alimentam de soro um homem acostumado a comidas apimentadas e vinhos de boa cepa.

O médico chega e diz irremediável o câncer que lhe consome. Ele ouve e numa majestade de general pede para ficar sozinho. Precisa de mim, penso. Eu fico. Ele ergue uma sobrancelha de superioridade e desdém. Eu fico mesmo assim.

Por entre hinos, baluartes, marchas e estandartes onipotentes, ele, agora impotente se dobra para a marcha inexorável da morte. Ele nada fala. Eu, tampouco. Zelo por aquele homem que um dia certamente me carregou no colo, me ensinou a plantar e pescar, me principiou nos deveres e direitos de um homem e me suplantou diante de tanta frieza. Sim, nunca um afago, um elogio sequer, jamais uma história para sonhar.

Marcha soldado, cabeça de papel…Sinto-me uma cabeça de papel, voando, voando sem pátria e lembro que nunca me senti importante. Nada que eu fizesse era digno de um sorriso.

Quem não marchar direito…Eu nunca marchava direito. Meus braços eram desengonçados, meu corpo era arqueado, eu não olhava com segurança, eu era uma criança presa no quartel do meu pai. Quando minha mãe morreu eu só lembro que meu pai mandou que eu rezasse um terço e não tocasse mais no nome dela.Ele se trancava no quarto e pelo buraco da fechadura eu o via escrevendo, escrevendo, escre…-Saia daí, menino!Curiosidade é coisa de mulher!

O quartel prendeu fogo. Nada a fazer mais. Nem lágrimas jorram. Ele fecha os olhos e só. Nem um grunhido, uma expressão fora do normal.Vai-se sem nada dizer. Fico ali, atônito… Volto àquela praça em que caio do balanço e fico a chorar… Ele não me ergue do chão, meus braços franzinos clamam por ele – Levanta menino! Quem cai, levanta!

Eu caio do balanço de novo sem um olhar, uma resposta, uma terna palavra. Levanta! Levanto de mim e saio porta afora, fugindo de um amor que nunca tive, chorando de raiva, voltando aos meus poucos anos, sentindo vergonha por acreditar que pudesse ser chamado ao menos de filho.

Dias depois uma caixa me chega. O remetente, meu pai. A caixa de meu pai, proibida e chaveada com rigor agora está vulnerável. Abro como embrulhos de natal, afoito. Cartas de todos os anos, todas as palavras nunca ditas, fotos amarelecidas que eu nunca vira num porta-retrato sequer. Engulo as palavras na eterna fome de infante desajeitado- Palavras feito migalhas de bolo espalhadas pela sala, pelos quartos! Peralta, leio trechos, junto fotos, beijo cartas, cheiro perfumes- Gargalho de felicidade!

Meu pai, um artista sensível, tão sensível que se refugiou na mesma armadura que lhe tragou a vida. Em cada pedaço um pedido de perdão, uma reflexão amorosa… Volto a mim- criança estirada no chão com seu quebra-cabeças montado- Levanta, menino! Quem cai, levanta!

Levanto confiante e abro outra porta. Meu filho dorme. Pousado sobre o criado-mudo um chapéu de soldado feito de jornal que eu fiz para brincarmos de marcha. Penso em quanta gente que desiste da felicidade para não demonstrar fraqueza. Penso nas entrelinhas que assumem o poder e não nos deixam dizer as coisas essenciais, penso no meu Pai… Dirijo-me até meu pequeno e lhe dou um abraço. Mais tarde ele vai acordar e vamos até a praça, vamos cantar marcha soldado e quando ele cair do balanço eu vou dizer, orgulhoso: – Estou indo, meu filho! Estou indo!

A caixa de meu pai – Crônica por Charlie Rayné

Julieta e Julieta – Crônica por Charlie Rayné

Um disparate. Apaixonar-se por uma menina. Justo ela que era uma menina. Nunca fora daquelas que brincavam de carrinho e juntava-se aos meninos para jogar pelada. Antes, gostava das bonecas todas, gostava tanto delas que as admirava de forma estranha; beijava-lhes a boca, chamava-lhes de princesa.

Era admirada pelos meninos. Era delicada. Era inteligente.

Sentia arrepios quando roçava sua boca nas outras bocas fêmeas de mesmo hálito e textura. Quanta tontura lhe dava quando percebia que embaixo das saias havia prazeres iguais aos seus, odores particularmente femininos. Andava a suspirar enquanto os seios cresciam e queria ver seios já prontos, seios da mãe, das irmãs mais velhas, das primas.

Shakespeare. Romeu e Julieta. Era a peça do colégio. O Romeu era bonito, mas tinha cheiro de homem. Cheiro forte, intenso. Homens não lêem, não pensam, homens não falam de delicadezas, não sabem pôr a mesa, nem entender os altos e baixos da mulher!

Romeu era todo teso, encorpado. Olhos verdes, o Romeu, e jogava bola como ninguém. Ele se envolveu. Ela brincou de ser mulher e tascou-lhe um beijo. Um beijo de hálito quente e forte, um dinossauro a invadir a caverna forte, a língua dele uma hélice que ia do sul para o norte, sem leveza, sem nada!

A ama logo a despertou da tentativa vã. Era ensaio. E neste ensaio a vida dela seguia na constatação do que queria ser. A ama já sabia o que ela “ainda” já queria!

O ator Romeu queria mais beijo. Os homens querem sempre mais e invadem sem pedir licença. Ela, tensa, tentou fugir e acabou fugindo de si mesma. A ama já era amada…

Os pais fazem gosto. Rapaz bonito. Bom nome. Bom porte. Família de boa conta bancária.

Tanta pressão, tanto disparate. O espetáculo estrearia e junto com ele a hierarquia jurássica: Romeu e Julieta!

– Quero tocar em tuas tetas – Ele falou numa ânsia decisória. Falou das coxias, tocando em seus seios e coxas que nada sentiram.

Troglodita Romeu! Ela não é vaca! Não tem tetas, tem seios! Ela não tem dúvidas, tem certeza de que ele, de que eles nada entendem do corpo misterioso da mulher.

A apresentação começa. Romeu se desdobra em versos românticos. Ela é atriz neste momento, mas ama a ama. Pode avistar os pais, de olhos lacrimejantes, pedintes daquilo que ela não é!

A peça que se exploda! Abandona a atriz! Shakespeare que se revire no túmulo! Shakespeare que se choque! Julieta larga Romeu e tasca um beijo na ama. Escândalo na plateia. Que se dane a plateia! Que se danem as donas e madonas de todas as igrejas e séculos.

A mãe e as irmãs choram. O pai balança a cabeça. Romeu se faz pequeno, os músculos não servem para mais nada!

Abandonam o teatro as duas. Famílias antagônicas na vida real. Ficção e realidade se misturam. Romeu que vá procurar outra Julieta. Ela e Ela… Vão enfrentar a fúria do convencionado. Elas não vão morrer, não! Não vão fugir da natureza. Não dirão “não” uma para a outra. As estrelas não serão castas estrelas. Não haverá veneno. Sem Montechios e Capulettos. Serão Julieta e Julieta.

Julieta e Julieta – Crônica por Charlie Rayné
Originalmente publicado no livro Memorial de Amor Inquieto

Crônica: E agora Papai? por Gabriel Barenho

Sofia, você tá vindo mesmo? Que loucura! Que alegria! Justo agora que papai ficou desempregado. Não tava preparado. Mas tudo bem. Darei um jeito.

Já estou listando as coisas que você vai precisar. Fraldas, fraldas, muitas fraldas! Providenciarei fraldas. Fraldas a rodo. De todos os tamanhos. Fraldas P, M e G. Algumas GG também. Não sei ao certo qual tamanho usará. Na dúvida comprarei todas. Toda a prateleira, todo o estoque, o supermercado inteiro! Se bem que papai usou fraldas de pano que eram mais baratas, bastava lavar e podia usar de novo depois. Dá pra economizar algum dinheiro aí. O que mais? Berço. Um berço e um mosqueteiro pra te resguardar dos mosquitos. Um berço bem bonito, colorido e confortável com arco cheio de brinquedinhos pra te entreter e instigar teu desenvolvimento motor e cognitivo. Um arco flexível pra que papai possa ajustar os brinquedinhos pra você. Pensei num arco com borboletinhas. Será que você vai gostar de borboletas?

Ah, sobre os mosquitos… Já alertei mamãe, ela deve usar roupas compridas e não esquecer do repelente, do inseticida também. Tem um mosquito que tá picando as pessoas e tá fazendo mal pra elas, papai tá preocupado com você. Mas fica tranquila, comprarei aquela raquetinha que dá choque e mata insetos. Enquanto mamãe estiver descansando, papai cuidará de vocês. Sei brandir uma raquetinha de choque como ninguém. Com o aedes aegypti, não se preocupe. Talvez eu não consiga pagar pelo melhor berço. Quem sabe não sobra mais dinheiro se eu poupar usando fraldas de pano? Daí posso comprar aquele berço grande e fofo. O carrinho! Meu Deus, tem o carrinho de bebê. Vi um que tem todo tipo de regulagem, encosto reclinável, fácil de carregar porque é bem levinho, de alumínio, tem porta-objetos e até cinto de segurança de cinco pontos. Freio e suspensão. Tem tudo. O problema é que papai tá sem emprego. Terei de economizar no berço pra adquirir o carrinho possante. Daí a gente pode passear. Papai, mamãe, você e Amora. Amora é uma cachorrinha coisa mais querida, é da mamãe, uma lhasa apso toda peludinha. Vai gostar dela.

O que mais? Fraldas, berço, carrinho… Sim, mamadeira, chupeta. Duas chupetas para o caso de perdermos uma. Roupinhas. Que cor? Primeiramente preciso saber como te vestir. Depois pondero sobre as cores. Pijaminha, meinhas, sapatinhos, lacinhos. Certo que mamãe vai querer colocar lacinhos e te deixar que nem a Amora. Amora usa chuquinhas. Se eu economizar no carrinho posso comprar muito mais roupas e chupetas, uma centena delas, mais uma centena de lacinhos de todas as cores com estampas de bichinhos e da Peppa Pig.

A alimentação é outro item da lista, tem que comer bem. Depois você vai crescer e terá necessidade de roupas maiores, novos brinquedos etc. Então você já estará grandinha e terá pronunciado a primeira palavra. Será “papai”? “Mamãe”? Seria engaçado se sua primeira palavra fosse “Amora”. Daí vem as canetinhas coloridas, lápis de cor, folhas de ofício A4, cadernos, tinta guache e todos os demais itens do material escolar. Se papai poupar nas roupinhas, dá pra pegar a caixa de lápis com vinte e quatro cores pra você expressar sua curiosidade e criatividade em todas as nuances. Quanta coisa, Sofia! Mas tá tudo bem, papai dá um jeito. Bom, preciso organizar bem essa lista. Logo, logo você chega e é bom que esteja tudo preparado. E vai estar. Confie em mim.

Pode ser que papai economize algum dinheiro agora até que não arrume um novo emprego. Tenho certeza que não terá importância pra você se não puder andar naquele carrinho que, pela descrição, mais parece um Audi R8. Mas papai não vai economizar nalgumas coisas: carinho, afeto, cuidado e todos sentimentos bons. O mundo aqui fora anda complicado. Tudo tem preço. Eles estão comprando até as pessoas, Sofia! Por sorte ainda não precificaram o amor. E isso, papai e mamãe te darão de sobra. Espero-te ansiosamente.

Com carinho,
Papai.

11218910_930097290375963_1549618068877126824_nGabriel Barenho é jornalista e radialista. Já trabalhou como repórter do jornal Diário Popular e foi locutor da rádio Atlântida. futuro pai. desempregado. escrever, assistir ao Video Show e enviar currículos são suas principais atividades no momento.

Crônica: Ruas de Corcel azul

Tem essas ruas em que as casas e as árvores têm um ar tranquilo. São como aqueles parentes que, quando a gente é pequeno, acha que estão ali desde sempre. Elas têm uma constância, são a mesma do começo ao fim; são largas, tias gordas que adoram abraçar.

Nessas ruas, os fios de luz têm mais passarinhos. E no inverno úmido, uma calçada ou outra tem pequenas ilhas de limo. São ruas por onde passam carros modernos, mas sorriem de canto de boca, quando dobra um Corcel azul. Quando chove, os paralelepípedos, insistentes, pedem fotografia em preto e branco.

Caminho por elas devagar. Com respeito mesmo. Porque até os cães que circulam ali, são diferentes. Como o velho, que já anda meio rebaixado e lento. Em cima dos olhos tem uma sombra branca e quando late, o que acontece raramente, parece o Tom Waits. Os gatos são os donos dessas ruas. Desfilam arrogantes e não ligam pro cachorro, que nem vira o pescoço pra ladrar um “auf” preguiçoso e rabugento.

Casas de cimento penteado me lembram da infância. Eu ficava raspando a unha, tentando arrancar os “vidrinhos” brilhantes de uma dessas que tinha perto de casa.

Apesar de viver em regime semiaberto (quatro horas diárias de ciências, religião, português, matemática e cantar o hino), livre disso não havia mais nenhum compromisso. E arrancar os vidrinhos me parecia uma boa maneira de esperar o amigo terminar de tomar o Nescau e sair pra jogar bola.

As casas com degraus, que na minha imaginação infantil eram significado de que gente importante morava ali, hoje têm grades e chaves buldogue. Também não há mais crianças brincando na rua, pra sentar nos degraus…

Não me espanta que os tempos estejam confusos. É como se alguém houvesse fabricado verdades em excesso durante muito tempo, para que agora, todos possam carregar seu punhado delas no bolso.

Alguma coisa se perdeu no caminho. As tias gordas que gostavam de abraçar foram desaparecendo, como o Corcel azul. O tempo cobra a sua parte pelo tempo que dá e talvez o cachorro velho e rabugento, já tenha brincado naquelas mesmas calçadas.

Talvez o hoje deva ser agora… e o importante, mesmo, não seja exatamente aquilo que se acumulou, mas justamente o contrário: tirar dos bolsos os pregos tortos de tanto tentar consertar a vida e as chaves que não abriram nenhuma porta.

Talvez assim seja possível andar por aí, quase como se não fosse são, olhando essas ruas em que as casas e as árvores têm um ar tranquilo. Como aqueles parentes que, quando a gente é pequeno, acha que estão ali desde sempre.

Não sei. Talvez…

 

MARCELO NASCENTE

Do lixo ao luxo e ao lixo de novo

Por: Gilda Satte Alam Severi Cardoso (advogada)

Hoje pela manhã, assisti uma reportagem sobre o mercado de luxo no Brasil e descobri que dentro da espécie humana existe uma outra “espécie” formada por pessoas especiais, excepcionais, que merecem um tratamento diferenciado. Pessoas que são atendidas pelos seus irmãos menos afortunados, mas que mesmo assim têm de subir seu padrão físico e intelectual para merecer estar junto dos clientes de luxo, servindo sua comida diferenciada, vendendo seus produtos diferenciados, limpando seus resíduos diferenciados.

Pois esta espécie de luxo vive num mundo apartado onde os demais membros da humanidade, de categoria inferior, sonham em poder ingressar, nem que seja para servir, pois é uma honra servir aos clientes de luxo.

Fiquei pensando sobre o que faz estas pessoas tão especiais a ponto de merecer esse destaque. E mais. O que faz os demais membros da “espécie” comum não serem merecedores de desvelo, de atenção, de carinho. Sim, porque segundo os consultores entrevistados na reportagem acima o humano que serve tem de ser carinhoso e amar muito o que faz.

Pois eu não sei se todos concordarão comigo ou mesmo perceberão o absurdo da situação. Não estou falando do fato de existirem pessoas que tem muito dinheiro (pessoas que sequer vemos circulando por aí) e que vivem num mundo à parte, resguardadas da realidade que não tem interesse em saber ou enxergar. Agora dizer que estas pessoas são especiais e que por isso merecem esse tratamento excepcional, aí é demais para o meu limitado cérebro decodificar.

É como se existissem humanos, mais humanos sendo que esse plus não está relacionado à solidariedade ou à inteligência ou mesmo à qualquer contribuição em prol da humanidade comum onde bilhões carecem do mínimo necessário para sobreviver.

E não. Não é recalque. Nunca desejei fazer parte de um mundo de coisas supérfluas. Gosto de viver bem com conforto e alegria, mas sempre privilegiei outro tipo de bens que não estão propriamente relacionados à posses materiais, até porque, mesmo no extremo luxo temos limites, onde já não existe mais o que ser adquirido. Felizmente já descobri que a felicidade está nas coisas simples e que muitas vezes não são gozadas pelos clientes luxo, por medo.

Também não critico propriamente as pessoas que fazem parte dessa espécie diferenciada, o que me intriga mesmo são os membros da espécie comum que se curvam aos clientes de luxo assumindo o papel de seres menos evoluídos. Me preocupa que os cuidados e atenção não sejam voltados também aos seres comuns que vivem mendigando direitos (e aqui está um outro paradoxo), e que não tem acesso à uma educação de qualidade, numa escola bonita, limpa, com professores felizes e bem remunerados ou a um tratamento de saúde com tecnologia de ponta que permita a cura ou o alívio digno, ou ainda a um transporte público eficiente e confortável. Infelizmente, estes ainda são artigos de luxo.