Entrevista: Luciano Mello dá detalhes de sua colaboração em novo álbum da Elza Soares

Não é exagero nenhum afirmar que o novo disco da Elza Soares está entre os discos mais aguardados de 2018. O sucessor do premiado A Mulher do Fim do Mundo tem lançamento previsto para maio, pela gravadora Deckdisc, e foi batizado de Deus é Mulher.

lucianoO compositor e músico pelotense Luciano Mello está entre os colaboradores deste novo trabalho e contou ao e-Cult um pouco dessa experiência.

Embora já tivesse uma carreira consolidada, com dezenas de discos lançados, o álbum de 2015 representou um grande marco na carreira de Elza. A Mulher do Fim do Mundo foi o primeiro álbum de músicas inéditas da carreira da cantora. Ela fez questão de escolher músicas que enfatizam temas muito presentes na sua vida, como violência doméstica, negritude, vida urbana, entre outros.

Unanimidade entre os críticos, o disco de Elza foi eleito o melhor álbum de 2015 em diversas listas como da revista Rolling Stone e dos sites TMDQA e Na Mira do Groove. Em 2016 foi coroado com o Grammy Latino na categoria de melhor álbum de MPB.

O aguardado novo disco contará com as principais peças do time que trabalhou no anterior, incluindo a produção musical de Guilherme Kastrup e a direção artística de Romulo Fróes. No último dia 24, o jornal O Globo apresentou a letra de uma das músicas que estará presente no novo disco (veja aqui). E eis aí uma surpresa para nós pelotenses e quem acompanha o trabalho do Luciano Mello. A faixa Dentro de Cada Um, parceria dele com Pedro Loureiro, está entre as 11 escolhidas para o disco. A seguir, Luciano detalha o processo de sua participação neste trabalho.

– Desde quando tu conheces o Pedro Loureiro e como que é o processo de criação de vocês?

Eu e o Pedro nos conhecemos desde 2016. O Pedro teve uma carreira artística como cantor e, além de ser um talentosíssimo produtor executivo, é um excelente compositor, ainda que, muito tímido pro meu gosto, pois é difícil fazer com que ele mostre algo.
Dentro de Cada Um foi encomendada pela Elza. Ela pediu ao Pedro uma música com um tema muito específico, ela queria falar do empoderamento feminino, mas ela queria mais: ela entende o empoderamento feminino como uma revolução pessoal. Ela entende que cada um tem necessariamente uma mulher dentro de si e que qualquer repressão contra mulheres, gays, trans e oprimidos em geral só se extinguirá quando cada um deixar fluir a mulher que tem dentro de si. Falando assim, certamente uma grande cota de machistas imbecis (vale para homens e mulheres, sem distinção, machista tem em todo o canto) vão imaginar que estou falando que eles devem se tornar gays ou colocarem alguns desejos secretos em prática, mas a questão é mais profunda. Deixar a mulher que existe dentro de cada um fluir é, pra Elza, pra mim e pro Pedro também, uma forma absolutamente revolucionária de mudar as coisas que estão à volta. A maioria esmagadora da população mundial teve uma mãe ou uma presença feminina forte na sua criação e, a bem da verdade, há muito pouca diferença entre os sexos. Ao contrário do que se prega por aí, o que não é natural é ser tão macho ou tão fêmea. Isso vale pra os que gostam do papo do que é da natureza ou não.

Compor é uma tarefa íntima, não há exatidão no processo, o rigor e a exatidão estão no resultado. Mas o fato é que eu e o Pedro fizemos a letra por telefone. Conversávamos e eu anotava. Muitas coisas que ele dizia já saiam com métrica e, sem que ele percebesse, eu já estava anotando. Depois de uma hora de conversa eu disse para ele que a letra estava pronta e li, daí eu e ele fomos trocando palavras, adequando à uma métrica geral, procurando, por vezes, algumas rimas. Depois fui pro piano e na mesma madrugada eu tinha uma demo pronta e mandei pro Pedro.

– Como foi o processo de escolha da Elza?

Aí entra a parte difícil. O Pedro é estrategista de carreira da Elza Soares, por uma questão ética ele não poderia colocar uma composição própria na seleção. Eu entrava de carona nessa questão de não poder participar como compositor, por ser muito amigo dele. Mas a gente imaginava que havia uma probabilidade muito grande da Elza querer a canção. Ela ainda não tinha ouvido, mas tínhamos escrito o que ela havia pedido. O jeito foi participar da triagem, como todos os demais participaram. Pelo que sei, mais de 3.000 músicas, foi mais ou menos como quando ganhei o Itaú Cultural em 2001. O Pedro, como bom estrategista que é, teve uma ideia duchampiana: inscreveu a música como se fosse de um compositor chamado Lírio Rosa e torceu pra que ninguém conhecesse a minha voz. O Guilherme Kastrup, produtor musical da Elza, fez a triagem inicial, reduzindo as mais de 3.000 canções iniciais para 30. A partir de então, o Kastrup constituiu um núcleo de cinco jurados: Ele (Guikherme Kastrup), a Elza Soares, o Rômulo Fróes, o Juliano Almeida e, pra piorar de vez nossa situação, o próprio Pedro Loureiro. Havia chegado o grande dia, porém, nossa música não estava entre as 30 finalistas. Mas, o milagre aconteceu: a Elza após ouvir as 30 disse que ficaria apenas com 9 e que faltavam pelo menos duas. Partiram então para mais uma rodada de 30 músicas. Pelo que sei, Dentro de Cada Um, que até então se chamava “A mulher de dentro de cada um”, foi a terceira a ser reproduzida nessa segunda rodada. No meio da música a Elza decretou: “Eu quero essa música!” O Pedro se retirou discretamente, pediu que votassem sem ele, me ligou e contou o que tava acontecendo. Tremi na base! Era a Elza, intérprete absolutamente formativa na minha cultura musical, uma das minhas cantoras prediletas desde que eu me entendo por gente. Quando o Pedro voltou à sala a confusão tava armada, a Elza queria a música a todo custo, porém, ninguém sabia quem era Lírio Rosa, não havia endereço, não havia nada, alguns telefonemas já haviam sido dados e nada. Então o Pedro anuncia: Gente, eu conheço o Lírio Rosa, sou eu! Eu e o Luciano Mello. Explicações dadas, logo em seguida o Pedro me ligou perguntando se eu me incomodava de trocarmos o nome para “Dentro de cada um”, era um pedido da Elza. Só então, o Pedro contou pra ela que era a canção que ela tinha encomendado, porém, que tínhamos optado pela seleção. Pouco tempo depois, dois meses ou menos, eu recebi a foto da Elza gravando com a letra na estante de partituras.

Nota: o álbum incluirá ainda músicas de Tulipa Ruiz, Romulo Fróes e Alice Coutinho, Douglas Germano, Pedro Luís, Mariá Portugal, Caio Pedro.

– Tu costumas trabalhar com parcerias em tuas composições?

Meu processo de composição é, na maioria das vezes, solitário. Tenho, inclusive dificuldades de compor em parceria. Até mesmo minhas parcerias anteriores foram feitas de forma solitária, não existe pra mim essa coisa de “Vamos fazer uma música!” e a música acontecer. Com o Pedro, no entanto, é diferente, existe uma fluência muito intensa. Já compusemos mais outras duas músicas, também a pedidos. Encontramos uma maneira de compor por encomenda e isso é ótimo, é uma parceria que, como disse, flui. Essa fluência vem desde a vez em que trabalhamos juntos na estratégia da carreira de um artista que produzi e que iríamos lançar juntos. Também montamos uma equipe coordenada por mim, pelo Pedro, pelo Patrick Tedesco e pelo Bira Massaut com a Projetar do Rio de Janeiro e a CKCO de Pelotas para trabalhamos na pesquisa das gravações da Elza Soares, fizemos o levantamento desde sua primeira gravação e isso sempre gerava muitas e longas conversas com o Pedro.

E criações entre amigos que são compositores acontecem, na maioria das vezes, naturalmente. Já houve caso em que o Vitor Ramil encontrou uma letra que eu tinha acabado de fazer em cima do meu piano e começou a musicar imediatamente. A música No Floor foi pro meu CD Universo Barato, com eu cantando e o Vitor tocando piano e percussão no piano. Teve um outro caso em que o Vitor botou letra numa música instrumental minha, Fórmica Blue (Valsa tola), gravada pela Adriana Maciel. O Arthur de Faria já me mandou músicas pra eu colocar a letra, nunca devolvi, porém, já mandei letras pra ele musicar, em geral ele devolve, fizemos uma música chamada O Olho de Deus, que vai estar no seu novo álbum. Compus algumas músicas com o Fabio Medina, pra mim um dos melhores cantores, excelente arranjador e produtor, um dos artistas mais completos e geniais das safras mais novas no Brasil. Com ele, fiz por encomenda, Sick Of Love. Ele me entregou a letra e disse: me tira da minha zona de conforto, e eu tirei. Depois, ele pediu que eu solucionasse um refrão de uma música que ele tinha composto, reescrevi a melodia do refrão, totalmente baseado na ideia dele que, generosamente, me atribuiu a parceria em Until We Get There, do álbum Keep It Down. Não há critérios para as parcerias se estabelecerem. Essas coisas vão acontecendo, às vezes, muito naturalmente, outras, por encomenda.

– Qual tua relação com a música e obra da Elza Soares?

É uma ligação ancestral. Meu avô era fã da Elza Soares, minha mãe também. Sempre ouvia falar, mas ouvir com atenção mesmo foi quando o Caetano chamou ela pra gravar a música Língua. Eu pirei com aquela voz. Eu sabia quem ela era, adorava a figura, mas ela me destruiu no dia que eu a vi cantando, em 1986, a música Tiro de Misericórdia do João Bosco e do Aldir Blank no programa Chico & Caetano. Nunca mais parei de ouvir. Quando saiu A Mulher do Fim do Mundo, eu entendi claramente que a história estava se encarregando de colocar a Elza Soares no seu devido e justíssimo lugar. O Lugar reconhecido de uma das maiores e mais contemporâneas cantoras do Brasil. Fico imaginando como vai ser agora nesse álbum Deus é Mulher, em que ela tem por parte da mídia e do público o devido reconhecimento. A Elza não é apenas uma cantora, é uma força revolucionária.

– O Histórias em Torno da Queda foi teu último álbum, correto? Atualmente, tens trabalhando em um novo disco ou quais são os projetos para o futuro?

Depois da quedaO Histórias em Torno da Queda é meu terceiro álbum solo. Esse negócio de último é pra artista que já morreu e todas as suas obras póstumas já foram lançadas (risos). Brincadeiras à parte, meu primeiro CD lançado foi como compositor, produtor e arranjador de um projeto chamado “ZURBe”, ao lado de Miguel Feldens, isso foi lá por 1996, saiu CD, vendeu e foi considerada por alguma revista importante do momento como o primeiro lançamento de industrial music no Brasil, na época o Miranda se interessou, mas a ZURBe não era nem o que eu queria fazer, nem o que o Miguel queria, não colocamos o álbum nem nas plataformas de streaming, mas admito que era uma produção bastante sofisticada pra época. Depois veio, ou melhor, não veio o Canções com restos de acordes que seria o meu primeiro álbum e sairia em 1997, porém se perdeu entre negociações com gravadoras e a quebradeira geral que a pirataria já estava começando a causar, mas a gente nem percebia. Só lancei outro álbum, dessa vez exatamente como eu queria, em 2007, Universo Barato, com participações do Vitor Ramil, Nelson Coelho de Castro, Nico Nicolaiewsky, Pezão (do Papas da Língua), mais uma galera alto nível, graças ao Fumproarte-Porto Alegre, que naquela época existia em Porto Alegre, essas coisas maravilhosas que tinham antes das pessoas saírem pras janelas dos seus apartamentos de luxo batendo panelas e fazerem cultos a patos amarelos em frente à FIESP. Entre o Universo Barato e o Histórias em torno da queda, fiz muitas trilhas para teatro, como o Senhor Kolpert e No que você está pensando, ambas dirigidas por Tainah Dadda, a mesma diretora cênica do meu atual show, Depois da queda, e lancei um EP chamado TrêsCaetanos com leituras minhas para três canções do Caetano Veloso. Agora, ainda no primeiro semestre, pretendo lançar o álbum Depois da Queda, que vai ser meu primeiro álbum ao vivo. O Depois da Queda é um show que eu adoro, com vídeos montados pelo artista multimídia Patrick Tedesco, que são manipulados e editados durante as canções. É uma série de aparatos eletrônicos novos e antigos, tudo no palco e eu no meio desses brinquedos. É um show político. Já que uma parcela grande da população quer andar pra trás, é nossa obrigação como artistas, voltar à canção de protesto e tentar empurrar pra frente. É por aí.

Obs: o CD Depois da Queda foi recentemente aprovado no edital do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Procultura).
Acompanhe Luciano Mello em: https://www.facebook.com/lucianomellomusic

Entrevista com a poeta Larissa Leão por Charlie Rayné

De como encontrei a poesia de Larissa Leão e descobri que Poesia e Medicina podem caminhar juntas.

Por Charlie Rayné

A poesia foi ao meu encontro. Eu sempre fui buscador de poesia, mas desta vez foi ela que me puxou para si. Estava num dia bem cinzento, caminhando pelo Campus I da UCpel e encontrei uma mostra impressionante. E posso dizer: valeu a pena!

Foto Divulgação
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Sim, este é o título da exposição de poesias de Larissa Leão com mostra até dia 1 de dezembro de 2017, na Galeria de Arte da UCPel.
Valeu a pena porque as palavras dela iluminaram aquela tarde bem “blasé”. Valeu a pena porque a “pena” desta estudante de medicina pode ser comparada a um preciso bisturi. Texto maduro, repleto de emoções e maravilhosamente carregado daquela coisa chamada “verdade humana.”

Imediatamente busquei contato da artista e marcamos uma entrevista. E uma semana depois foi possível.
Larissa, futura médica é uma cirurgiã de palavras. Desde pequena criava e ouvia histórias e era inventiva. Este “ouvir” talvez seja a principal base que sustenta sua arte. Imediatamente perguntei à jovem de 23 anos como é a construção de seu trabalho, os instrumentos que operaram um milagre na minha tarde:
“Eu uso a realidade, minha rotina, o que eu vivo, o que eu vejo, o que eu sinto. Então é inevitável: eu uso histórias das pessoas que cruzam comigo – pacientes, família, amigos. E na verdade eu gosto disso. Cada pessoa é uma obra de arte. Eu só tenho o trabalho de pôr no papel.”

Foto Divulgação
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Seria impossível eu não perguntar a ela qual seria a relação entre medicina e poesia. Afinal, a medicina é uma ciência tão concreta, um tanto fria às vezes…já a poesia, aquele emaranhado de fugas, “viagens” e descompromissos. Ela faz um sorriso contido. Ela é contida na medicina e libertina nas palavras?
Ela me diz que a poesia é um remédio contra os males e que não tem contraindicações. Ela me diz que Medicina e poesia podem ser aliados para a melhoria da saúde das pessoas.
“Uma vez ouvi de um amigo que, como escritora, eu já curava muita gente. Eu acho que é exatamente isso que eu quero fazer.”

Saio convencido de que esta mistura, nas mãos de Larissa será salutar. Saio contente em saber que a Medicina também poderá contar com a Arte desta poeta.

– Na sua opinião, o mundo contemporâneo está doente mais de alma ou de corpo?
“De alma. E isso reflete no corpo também. A correria, a competição, o egoísmo, o ego e a intolerância adoecem. É mais fácil pensar num remédio para dor no peito do que descobrir o que é que está causando esse aperto. Geralmente, uma boa conversa e um abraço bem dado poderiam ser mais eficientes do que qualquer droga”

Silêncio. Deixo neste instante a entrevista. Me despeço de Larissa e faço o convite para visitarem a exposição.
A poesia me curou.

Foto Divulgação
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Nauro Júnior entrevistou o youtuber Rezende no “Falando no Fusca”

Domingo, 14 de julho, um dia após ter lotado o Theatro Guarany, Pedro Afonso Rezende, o youtuber dono do canal RezendeEvil concedeu entrevista e deu um passeio pelas ruas de Pelotas.

Foto Divulgação
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A entrevista foi realizada por Nauro Júnior e Sofia Mazza Machado, a bordo do Dublê – Fusca 1983, da Expedição Fuscamérica. Pedro Rezende, o youtuber “Rezendeevil”, fenômeno na internet com cerca de 8 milhões de seguidores, falou sobre seu cotidiano, sonhos, fama e o compromisso em ser o ídolo da nova geração.

Entrevista com Juliano Guerra sobre o show “Sucessos Populares Volume 1”

Podes falar um pouco sobre esse show que tu vais apresentar na festa de aniversário do e-cult?

A primeira coisa a dizer é que eu estou muito feliz de ter sido chamado pra apresentar o show no aniversário do e-cult, eu tenho uma história longa (ui) com o Deco (Deco Rodrigues, Editor do e-cult), ele me viu trocar de banda ou projeto algumas vezes nessa última década e ele é uma das pessoas que pode dizer que viu, acho, quase todas/todos.

Mas falando do show: Ele se chama Sucessos Populares Vol.1 e é um show no qual eu presto homenagem ao Brega (escrito assim, com maiúsculo), dessa parcela da canção brasileira produzida especialmente nas décadas de 60, 70 e 80 e que acabou caindo nessa “classificação”. Por aí passam Wando, Odair José, Agnaldo Timóteo e Amado Batista como grandes ícones populares, por exemplo. Mas também tem toda uma gama de artistas que tocaram muito em rádio, fizeram bastante sucesso e que hoje não são tão conhecidos do grande público, como poderíamos dizer de Ronaldo Adriano, Carlos Alexandre, Bartô Galleno, Abílio Farias, Lindomar Castilho e tantos outros. O repertório do show lida com canções de quase todos os compositores que citei e ainda alguns outros. Foi uma pesquisa que acabou me rendendo um repertório muito legal pra estudar e tocar.

Para o pessoal que te conhece pelo trabalho autoral, tu achas que tem um choque grande assistindo esse show?

Olha, muitas das pessoas que assistiram a primeira apresentação desse show me conheciam pelo trabalho autoral e por ter feito alguns shows tributo à MPB, digamos, “mais culta”. Fiz Caetano, Chico, mais tarde com o TOCA (que era um projeto do Alex Vaz no qual eu trabalhei bastante) a gente fez Adoniran Barbosa, Tom Zé, Gil, essas coisas. Então acho que tem um choque sim, mas é um choque legal. E, aliás, acho que se dá nem tanto pelas canções, mas porque esse show tem um negócio de performance mesmo, figurino, eu cantando umas bagaceirices do Wando – acho que talvez isso seja o mais legal, inclusive para quem me conhece dos shows do trabalho autoral – que sempre são uma coisa mais “contida”, voltado muito para as canções e sem “personagem”.

Um negócio que eu tenho que dizer é que cult ou brega, todo mundo canta junto na hora do “feiticeeeeeeeeira”. Só isso, como diria Caê, já é lindo.

Qual a tua relação com esse repertório “brega” que está no show Sucessos Populares?

A minha relação com essas canções permeia minha vida toda, mas acho que ela fica muito clara, hoje, para mim, em dois momentos. Até escrevi sobre isso na minha página antes de estrear esse show, e acho que vale colar esse trecho aqui:

“Sou da zona rural de Canguçu. Nasci e cresci no interior, ouvindo o onipresente rádio de pilha do meu pai sintonizado nas AMs da cidade. Minha mãe, dona de uma bela voz, sempre cantou muito dentro de casa, e seu repertório era (embora na época me soasse absolutamente natural) bastante eclético: de Noel Rosa a Waldick Soriano, sem nenhuma observação que me fizesse crer tratarem-se de artistas muito diferentes entre si. Com o tempo – e os tolos preconceitos que se adquire na adolescência – eu acabei deixando grande parte desse repertório (que esteve na minha formação de maneira tão intensa) esquecido. Cerca de dois anos atrás, felizmente, minha esposa me apresentou ao documentário “Vou Rifar Meu Coração”, de Ana Rieper, um filme maravilhoso que me despertou muito interesse pelo Brega.”

Por Marina Antunes

Próximo show:
6 anos de e-cult apresenta:
Juliano Guerra “Sucessos Populares Vol.1”

Data: 07 de novembro (sábado)
Hora: pós 20h
21h Dija Vaz
22h Show “Sucessos Populares Vol.1”
23h30 Crosstalk
01h30 Henry e Banda
http://www.ecult.com.br/sucessospopulares

Sobre o show
“Sucessos Populares Volume 1”, projeto do músico e compositor Juliano Guerra, teve sua estreia em Pelotas no início de outubro e chega agora à segunda edição. O título, além de fazer referência ao repertório que compõe o show, tornou-se também um reflexo da primeira apresentação: “Sucessos Populares Volume 1” foi um verdadeiro sucesso e grande parte do público presente manifestava, já no fim do show, o desejo por um próximo. A repercussão continuou, chamando também a atenção daqueles que não estavam lá e queriam uma nova oportunidade para conhecer este trabalho.

Portanto, nada mais adequado que este show para dar o tom festivo do evento que comemora o aniversário de 6 anos do eCult. Nessa festa, Juliano se apresenta acompanhado de Vini Albernaz (teclados), Rael Valinhas (baixo) e Esmute Farias (bateria). O show conta ainda com a participação especial de Vicente Botti.

O show “Sucessos Populares Volume 1” é fruto do interesse de Juliano Guerra em interpretar algumas grandes canções do passado, especialmente aquelas que, por circunstâncias hoje já bastante discutidas, foram para a vala comum da denominação “Brega”.

Enquanto é verdade que o “Brega” talvez não se caracterize como gênero homogêneo, é possível identificar características comuns a um determinado grupo de compositores, arranjadores e intérpretes – todos eles com sucessos que – embora não tenham recebido reconhecimento crítico – ficaram gravados na história do rádio brasileiro.

De Amado Batista (autodenominado o “rei das empregadas domésticas”) ao obscuro Bartô Galeno, passando por Wando e Odair José, o show “Sucessos Populares Vol.1” conduz o ouvinte a um passeio pelos sucessos consagrados nas décadas de 60, 70 e 80, com arranjos que respeitam as melodias e letras originais deste grande, e algo subestimado, conjunto de canções do repertório brasileiro.

Leia online nossa versão impressa: Março/2013

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EDITORIAL: UMA NOVA PERSPECTIVA

Depois de uma edição de transição, a renovação do e-cult se completa. A nova equipe agora toma as rédeas para tentar uma abordagem diferente sobre a cultura em Pelotas. Mais do que ser uma vitrine do que se passa, nossa intenção é fazer interpretações, traçar paralelos e emitir opinião sobre tudo o que é cultura na cidade, incentivando a evolução. Queremos também dar espaço ao despercebido, ao esquecido, e não apenas ao já consagrado.

Nesta edição, entrevistamos o quadrinista Odyr Bernardi, um inquieto pensador do seu ofício, e apresentamos a escritora Ju Lund, que está lançando seu “romance queer chick”, “Doce Vampira”. Resgatamos a lendária banda Kavalistic, direto do subsolo dos anos noventa e, finalmente, damos uma geral na vida e obra do rapper Zudizilla, que acaba de lançar seu álbum/mixtape intitulado “Luz”.

Contamos ainda com os colunistas, também já estreados na edição anterior, Guilherme e Ediane, que não são parentes apesar do “Oliveira” em comum, e inauguramos um espaço para resenhas, que pretendemos dedicar mensalmente às novidades da produção local.

Renovação e reflexão são agora as palavras de ordem no e-cult. Esperamos que seja um prazer pra vocês. Para nós, já está sendo.

(Nossa edição impressa tem uma tiragem de 4.000 exemplares, que podem ser encontrados em universidades, livrarias, padarias, cafés e pontos culturais espalhados pela cidade.)

O ano de Angélica Freitas – parte 2

– No grupo religioso?

Só mulher. E a partir dessa interferência eu fiquei pensando, “pô, mas quem elas acham que são pra se meter na vida dos outros?” Mas aí, extrapolando, eu me pergunto assim, “quem é que manda no corpo da mulher afinal?” Porque, se a mulher não pode fazer um aborto, ela não pode fazer o que quiser com o corpo dela. E tu tens uma série de impedimentos, o governo, a medicina mesmo, o médico pode se recusar a fazer, ou a dar atendimento depois de um aborto. Enfim, aí comecei a pesquisar coisas na internet sobre o corpo da mulher, e encontrei num blog de medicina a frase “um útero é do tamanho de um punho fechado”. Interessante, eu não sabia, achava que o coração era do tamanho de um punho fechado. Fiquei com essa frase na cabeça e uns cinco dias depois escrevi um poema, Um Útero É Do Tamanho de Um Punho – não botei “fechado” porque achei que não precisava. E já tinha então esse poema, era um poema de cinco páginas, tinha mais alguns, tinha que mandar dez poemas pra Petrobras. Aí fiz o projeto, mandei e eles aprovaram.

– Nas correspondências que tu trocasse com o (autor paulista) Fabrício Corsaletti no blog do Instituto Moreira Salles, dissesse que a palavra “útero” no título poderia ser ofensiva (obs: não foi bem isso). Porque?

Não sei se ofensiva, mas muita gente se incomodou. Tipo, quando tu escreve uma coisa, tu mostra pra um amigo. Aí perguntei o que achavam de colocar de título Um Útero É Do Tamanho De Um Punho. Só uma pessoa achou legal, o Vitor Ramil. Ah, e a minha mãe também, minha mãe achou legal. Ela disse: “minha filha, acho que tu tem que deixar esse, tá muito bom, tá forte!” (risos) E eu perguntei pro Vitor e ele falou que gostou, lembrou que o Nirvana tem um disco chamado In Utero. Bom, se o Vitor gostou, cara, não preciso perguntar pra mais ninguém.

– Em todo o livro, mas especialmente na primeira parte, Uma Mulher Limpa, tu usa humor, ironia pra falar de limitações impostas às mulheres, coisas que podem ser encaradas como violência. Tu não tem nenhum problema com isso?

Sabe que nem acho engraçado o que eu escrevo? Tem ironia em algumas coisas…

– Não ocorre de alguém te dar um feedback assim, achando que é sério?

Não, ocorre de pessoas que só viram ironia no livro e não gostaram.

– Como assim?

Que acharam assim: “ah, esse livro é irônico”, e só, sabe? Não é só irônico. De repente, a gente estranha porque no Brasil a poesia é muito séria, cara. Tudo no Brasil é muito sério, na literatura… Se comparar tipo, com a Inglaterra… mas bom, a ironia faz parte da Inglaterra. Se tu pensar nos filmes do Monty Python, ou mesmo aquele O Guia Do Mochileiro Das Galáxias. Programa de rádio, programa de TV, jornal, tudo tem ironia; aqui não.

– Tens uma ideia de por que isso acontece?

A gente acha que pra uma coisa ser boa ela tem que ser séria, tem que ser o mais elevada, o mais complicada possível. Não necessariamente. Na poesia as pessoas acham que tem que ter uma “ligação direta com o divino”. É possível, mas não é a minha praia, sabe, me deixa. Mas a ironia é um recurso, não é que eu pense “vou fazer um livro que tenha ironia”, mas é um recurso pra tu fazer uma crítica.

– Quanto de feminismo tu acha que tem no livro?

Eu não sei te dizer. Na verdade, pra mim, feminismo é a defesa dos direitos da mulher. Pra mim é isso.

– Mas existe um certo grau de feminismo no livro…

Eu acho que sim, mas é que não penso nesse termos. Infelizmente a gente ainda vive num mundo em que não existe igualdade. E é sério, cara, as mulheres ganham menos, mesmo num jornal, um jornalista ganha mais. Porque tem essa ideia de que o homem é pai de família. Então, é ridículo? É, em 2013 a gente ainda tá…

– Discutindo isso…

Mas o meu livro não foi escrito com o único intuito de defender os direitos da mulher, entendeu? É a minha visão de algumas coisas, minha experiência com a linguagem. Talvez o poema mais político que tem ali no livro seja Um Útero É Do Tamanho De Um Punho… Mas penso que os outros também podem ser lidos assim. Acho que é um livro político sim, no momento em que fala da situação da mulher é um livro político. Tem implicações.

– Tu é contra utilizar a poesia como suporte de uma causa ou só não é a tua praia?

Geralmente, quando tu começa a usar a poesia pra essas coisas, fica muito ruim. Não sei o que acontece. É uma coisa que independe um pouco da tua vontade. Tem umas coisas na poesia que, por mais técnica e leitura que tu tenha, não estão sob teu controle. Sei lá de onde vêm, do subconsciente. O subconsciente é um grande pote de ambrosia alucinógena da Crochemore. (risos) A minha relutância é botar um rótulo no livro, tem gente que enxerga feminismo no livro, tem gente que não, que acha que eu tô lidando com a linguagem. Assim, é o livro de uma mulher que se põe a observar como o mundo é em relação às mulheres ou como as mulheres são em relação ao mundo. É isso. Já me perguntaram “tu leu teoria feminista pra escrever o livro?” Eu disse, “não, pra escrever o livro não”, seria um outro livro. Peguei mais o senso comum.

– Mas tu leu alguma coisa antes?

Eu li pouca coisa de teoria, alguns textos na internet. Mas é engraçada a reação de algumas pessoas. Alguns amigos meus me perguntaram: “vem cá, mas que história é essa, tu é feminista agora?” Acham a pior coisa do mundo, como se eu tivesse virado uma guerrilheira das Farc. “Que história é essa??”

– E as tuas amigas feministas, tiveram acesso ao livro?

Ainda não, não mandei o livro pra elas.

– E qual tu acha que vai ser a reação?

Putz, cara, não sei se elas vão gostar.

– Vão achar que tu foi “guerrilheira” de menos.

Talvez, não sei, guerrilheira não. Mas só o fato de fazer um livro de poesia sobre mulheres, que não caia num estereótipo… Na verdade nem sei dizer se existem muitos livros de poemas sobre mulheres, mas acho que a tendência é ser uma coisa, assim, mais: (arrasta a voz) “a mulheer, essa coisa dooce, suaave”.

– Um dos poemas fala da mulher como construção. Tu acha que existe uma mulher, um feminino, fora da construção?

Como assim “fora da construção”?

– Alguma coisa que não é construída socialmente, que pode-se dizer “isso é feminino”.

Olha, é que a palavra “feminino” já tá tão associada com algumas características que supostamente a mulher teria que ter… Na verdade, a gente não tem como saber. Teria que ver, por exemplo, em tribos indígenas, como é que é. Eu acho que sempre existiu uma divisão de tarefas entre gêneros. Tudo começou na divisão de tarefas. Não sei se, em algum momento da história da humanidade, a mulher teve a mesma força que o homem, ou a mesma agilidade, mas o fato é que a mulher tem os filhos, a mulher amamenta, a mulher vai cuidar da sua prole, pra que um tigre não venha e coma… Aí começa a divisão de tarefas, e aí começam uns atributos também. Mas tem algumas características que são aprendidas, que são exageradas. Tu pode ver de uma cultura pra outra. Por exemplo, as mulheres latinas usam roupas que deixam mais corpo de fora, uma maquiagem diferente.

Não sei, eu não sou antropóloga, mas talvez algumas coisas contribuam pra ainda existir um machismo, uma discriminação contra as mulheres. Por exemplo, é muito difícil ver uma mulher dirigindo um ônibus. Porque precisa de força? Mas em outros países tu vê mulher dirigindo ônibus. E em outros países tu vê mulher trabalhando de pedreira. Enfim, eu acredito que existe uma mulher fora da construção e existem mulheres na construção civil, só que em outros países. (risos)

– Sobre Guadalupe: tu lia gibi antes de começar a escrever a graphic novel?

Eu lia gibi, mas não muito de super heróis. Quando era pequena lia muito gibi, Turma da Mônica, coisas da Disney. Depois li aquela série Love And Rockets. E achei aquilo muito diferente, muito legal, daí comprei algumas revistas. Já adulta li o Persépolis, de uma autora iraniana, Marjane Satrapi, sobre quando teve aquela revolução cultural no Irã. Li um outro livro chamado Maus, do Art Spiegelman. Achei sensacional. Depois li uma série de graphic novels, quando me convidaram pra fazer a Guadalupe, que tinham saído havia pouco tempo.

– Tu já tinha tentando escrever uma narrativa antes?

Tinha tentado começar a escrever uma novela, que ficou horrível, e eu botei fora. (risos)

– Chegou a completar?

Não, escrevi, vamos supor, um terço da novela, achei horrível e não quis continuar. Mas daí recebi essa proposta pra escrever uma sinopse de novela gráfica. Foi aprovada, então essa é a minha primeira… bom, segunda tentativa, com narrativa. E fui obrigada a terminar.

– E o Odyr entrou como na jogada?

O Odyr entrou porque eu sugeri o nome dele, gostava do trabalho dele e sabia que, como era meu amigo, a gente ia se entender. Se ele me dissesse: “olha, isso aqui não tá legal”, não ia ter problema nenhum. Se eu não gostasse de alguma coisa, também podia falar, porque a gente tem esse nível de franqueza um com o outro. Mas quem tinha sido escolhido pra desenhar a Guadalupe era um desenhista português que, não sei por que razão, de última hora, não pode. E quando eles me falaram que o cara não podia, eu disse: “tem um cara aqui na minha cidade, o Odyr, eu gosto muito dele”. E aí eles gostaram, um cara conhecia já o trabalho do Odyr, e chamaram. E eu fiquei super feliz, né. Dois pelotenses no livro.

– Vocês tiveram muita interação pra desenvolver o projeto?

Olha, na verdade deu super certo, a gente não precisou mudar muita coisa. O que aconteceu foi o seguinte: eu ia mandando pedaços do roteiro pro Odyr e ele ia desenhando. Baixei um programa de roteiro e ia fazendo por quadrinho, fazia a descrição do quadrinho e o diálogo, descrição e diálogo, descrição e diálogo. E eu disse pra ele, “se tu achar que alguma coisa tem que ser suprimida, pra coisa andar”, porque não tenho prática de roteiro de quadrinhos, botei assim como eu imaginei, como se tivesse passando um cineminha na minha cabeça. E ele fez exatamente isso, condensou umas coisas que não tinham porquê mesmo e que não fizeram falta no fim. E tem coisas que são do Odyr ali, que ele que inventou. Tipo as divisões de capítulos, uma parte ali que ele fala das muxes, que conta a lenda das muxes. Então grande parte do roteiro é meu, mas tem coisa do Odyr ali também.

– Como foram desenvolvidos ao mesmo tempo, Um Útero… e Guadalupe têm alguma relação?

Acho que têm, eu tava com isso na cabeça porque, na mesma época em que escrevi o poema do Útero, escrevi a sinopse da Guadalupe. E as duas coisas tem a ver com o México, porque quando eu tava de passagem lá pelo México, um amigo meu me convidou pra ir no enterro da vó dele. Assim: “não, vai ser legal, porque vai ser um enterro com música e a gente alugou uma van pra sair da Cidade do México e ir até Oaxaca com os familiares. Tem lugar na van se tu quiser vir”. É um enterro tradicional mexicano. Eu tava louca pra ir, mas não podia porque estava acompanhando minha amiga, ela precisava que alguém ficasse com ela. Cara, mas perdi o enterro com música e fiquei com isso na cabeça: enterro com música. E aí quando o Joca Reiners Terron, que é um escritor lá de São Paulo que tava coordenando essa coleção, perguntou “tu acha que tu consegue fazer um roteiro pra uma graphic novel?”, respondi: “ah, me dá uns dias que eu vou pensar”. Eu pensei, “vou fazer alguma coisa com essa história de enterro, porque é sensacional”.

– No momento tu tá no ciclo dos dois livros ainda, né?

Eu tô recebendo as críticas e elogios, mas já tô com outro projeto com o Odyr, que é o Grande Livro Das Ilusões Pelotenses.

– E como estás recebendo o sucesso?

Cara, eu não sei nem o que te dizer, pra mim é… Eu nunca poderia pensar que ia ter essa repercussão. Mesmo. Achava que ia lançar esse livro (Um Útero…) e que algumas pessoas iam ficar incomodadas, sabe? Até porque tinha essa questão do título. Mas nunca poderia prever.

– E muda alguma coisa pra ti?

Não. Não, eu continuo pegando o ônibus do Laranjal, não muda nada. Quem quiser me dar vale-transporte, carona… Não, tô brincando, mas não muda nada, eu não consigo ver, não sei, cara, é muito difícil saber. O que muda, eu acho, é a maneira como as pessoas me vêem, assim, mas pra mim não muda nada. O que muda é a percepção mesmo, é ter mais visibilidade.

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O Ano de Angélica Freitas

Por Roberto Soares Neves

O final de 2012 foi tão atípico que Angélica Freitas ainda não interpreta os acontecimentos – e aparentemente nem faz questão. Em novembro, a jornalista que anos atrás largou o emprego em São Paulo para voltar a Pelotas e ser poeta lançou seu segundo livro, Um Útero É Do Tamanho De Um Punho. Nele, Angélica utiliza biologia, feminismo e até o Google, mantendo uma linguagem atual, com sagacidade e (alguma) ironia, para desmontar o senso comum e dar a sua visão do universo feminino. No mesmo mês saiu a graphic novel Guadalupe, escrita por ela e desenhada pelo amigo Odyr Bernardi, que conta a história de uma mulher em uma road trip pelo México, atrás do último desejo da sua avó. Como saíram no final do ano, ambos ainda aguardam lançamento oficial em Pelotas para 2013, embora estejam à venda.

Pois em dezembro a Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) escolheu Um útero… como Melhor Livro de Poesia de 2012. E pra encerrar, Angélica foi eleita o maior destaque da literatura nacional no ano, em votação promovida pelo caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo. Mas ela diz que o sucesso não muda nada, e com a simplicidade intacta, falou sobre os dois livros, sua relação com a poesia e mais, em entrevista para o ecult.

Nos primeiros minutos, ela contou como foi parar no Estado de S.Paulo, logo após se formar em jornalismo na UFRGS, e voltou pra Pelotas seis anos depois (“tava achando que era muito trabalho, tava longe da minha família”); falou sobre o dia a dia do poeta (“a vida de alguém que escreve é isso, é escrever, ler, sair pra ver as coisas”); e disse ter ficado satisfeita com a oficina de poesia que deu no ano passado, onde ela incentivou os oficineiros a escrever e apresentou autores a que as pessoas normalmente não têm acesso. Quando eu quis saber como ela teve acesso a eles, foi que a entrevista engrenou.

Angélica: Eu comecei a ler poesia com nove anos, porque uma tia me deu de presente uma enciclopédia chamada O Mundo da Criança, e um dos tomos era só de poesia. E a partir disso comecei a escrever, acho que gostei tanto de ler esses poemas que comecei a fazer os meus. Então, eu já tinha essa coisa de escrever, e algumas pessoas depois me emprestaram uns livros. Eu não tinha livro de poesia em casa, meus pais não liam poesia. Um amigo meu, o Andrei, me emprestou Fernando Pessoa e Ana Cristina Cesar. O pai dele era professor de letras da UFPEL e tinha milhares de livros em casa. O Andrei viu que eu gostava de escrever e teve essa brilhante ideia. Eu tinha 15 anos quando ele me emprestou Ana Cristina Cesar, e foi muito importante. Li e me causou um estranhamento, de ler e não entender o que estava lendo, mas achava aquilo absolutamente fascinante. E daí fiz a pergunta: “mas dá pra escrever assim então?”. Só fui ler mais poesia, ter mais acesso, quando fui morar em São Paulo. Eu lia bastante na internet quando estava em Pelotas ainda, ou em Porto Alegre, mas acesso a livro, mesmo, só fui ter em São Paulo. Aquelas livrarias enormes… E acho uma pena a gente não ter bibliotecas boas, porque, imagina, se essa biblioteca daqui tivesse um acervo importante de literatura contemporânea, acho que ia ter muito mais gente escrevendo em Pelotas.

– A questão é a literatura contemporânea?

Eu acho que quando tu lê um contemporâneo, tu fica a fim de escrever. Por exemplo, pega o Bolaño. Tem um livro dele chamado Os Detetives Selvagens, que é muito legal, recomendo. O Bolaño me faz querer escrever. Quando tu lê um livro de alguém que vive na mesma época que tu, dá uma vontade de fazer igual. E isso se nota, também, quando tu lê o que uma pessoa escreve. Se ela tá lendo os autores contemporâneos.

– Uma pergunta encomendada por um amigo: a poesia tem hora e lugar, relaciona-se a um tempo e a uma cultura específica ou há um tipo ideal da poesia?

(Pensa uns segundos) Vou falar da poesia que me interessa: eu acho que é aquela poesia que continua fazendo sentido, parecendo absolutamente atual, mesmo que ela tenha, sei lá, mil anos.

– E é possível isso?

É possível, cara. O Catulo escreveu uns epigramas, umas coisas sobre a natureza humana, uns cômicos, outros maldosos, que não parecem ter sido escritos no último século AC. Na verdade, acho até meio arrogante falar assim, é uma coisa muito pessoal. Sou muito mais intuitiva do que racional na poesia.

– Quanto da tua poesia é intuitiva e quanto é trabalhada?

Bom… tipo, tu quer uma porcentagem?

– Não, pode ser tipo um relato do processo.

Sou bastante intuitiva, cara, sou como alguém que toca de ouvido, sabe? Eu toco de ouvido. Já li sobre contagem de sílabas, como se deve rimar ou não, mas tenho a impressão de que isso entra por um ouvido e sai pelo outro. Realmente não me interessa ficar contando sílabas. Então acho que toco de ouvido, não uso partituras. Mas leio bastante e vou atrás de alguns autores que estão fazendo um trabalho que vai além de a poesia ser uma “coisa bonita”. Pessoas que questionam mais as coisas, e questionam ideias de como se deve fazer poesia. Acho horroroso dizer “tu tem que fazer assim, assado”, cada um tem que achar o seu caminho. Não é pouca coisa.

– A propósito dessa comparação com música, a tua relação com a poesia tem algum entrelaçamento com a música?

Deve ter, porque, durante uma boa época da minha vida, ouvir música era mais importante do que ler. E sempre prestei muita atenção na letra. Lembro que chegava a copiar letras de música num caderno, e comprava uma revista chamada Bizz Letras Traduzidas. Porque eu queria saber o que que queriam dizer as letras.

Sei lá, faço a comparação de tocar de ouvido porque realmente não tenho muita preocupação em seguir uma receita, uma fórmula. Por exemplo, um soneto é uma forma fixa, são umas regras pré-existentes que tu te impõe quando vai escrever. Não me interessa escrever um soneto. Mas me interessa, por exemplo, inventar uma regra pra um poema.

– E tu fazes isso?

Eu faço isso, mas ainda não publiquei esses poemas. Dá vontade, às vezes, de fazer um livro assim: nesse livro todos os poemas vão ter essa característica, mas ninguém vai saber, só eu. Tem um tipo de poema chamado lipograma – que não tem nada a ver com gordura nem com lipoaspiração – no qual tu tira uma letra, por exemplo, o A. O que é uma coisa difícil de fazer, porque a letra A deve ser a mais presente no português. Daí tu te vira pra escrever sem a letra A, sem a letra E. Já tenho uma série de poemas assim. E ficam divertidos.

– Divertidos pra quem nota.

Não necessariamente. Mas ficam engraçadíssimos, porque é como se tu tivesse que dançar, mas tu não pudesse mexer a cabeça, não pudesse mexer o pé, tipo aquela música do Tangos e Tragédias, o Copérnico. (risos) Daí imagina, dançar sem mexer as pernas, sem mexer as mãos. E, na verdade, o lipograma é uma prática de um grupo francês chamado Oulipo, Oficina de Literatura Potencial. O Ítalo Calvino era do Oulipo. Um outro cara era o Georges Perec, que escreveu A vida: Modo de Usar. Ele tem um livro chamado A Desaparição, que é uma novela toda sem a letra E. E parece que a letra E em francês é a letra mais usada. Então, esse tipo de imposição eu acho legal.

– Vamos “entrar no Útero” então. (risos)

Entrar no útero, voltar pro útero… (risos)

– De onde veio a ideia do livro? Teve um momento em que ela se cristalizou assim, “vai ser um livro”?

Eu já tinha publicado um livro (Rilke Shake, de 2007), que era uma reunião de poemas que escrevi durante um tempo, e não queria fazer outra antologia, queria fazer um livro que tivesse uma unidade. Estava morando na Argentina na época (2008) e tinha muitas amigas que eram feministas e ativistas, e elas eram super engajadas mesmo, só falavam sobre ativismo. Elas viviam isso, a gente conversava muito e às vezes chegava até a quebrar pau sobre a questão da mulher. Elas achavam que eu tinha que me envolver mais, que tinha que fazer alguma forma de ativismo, porque era mulher. Mas não eram raivosas, assim, não coincidiam com essa imagem de extremista raivosa, aliás não conheço nenhuma. Eram muito engraçadas, também, e tinham uma consciência política muito forte, e achavam que eu não tava…

– …não tava tendo o suficiente.

Não. Enfim, aí já nessa época comecei a escrever umas coisas sobre mulheres. E daí decidi que ia mandar um projeto para o programa Petrobras Cultural. Eu pensei: “tá, vou fazer um livro sobre mulheres”. Fiquei com essa ideia, comecei a escrever o projeto e, nesse meio tempo, acompanhei uma amiga minha que fez um aborto – isso foi na Cidade do México. Na Cidade do México, não no México todo, o aborto é legalizado e de graça pra qualquer mulher.

– Mas como tu foi parar no México?

Eu tava viajando. E acompanhei essa minha amiga, fui com ela num posto de saúde na Cidade do México. Lá, apesar de o aborto ser legalizado, tem grupos religiosos que são contra o aborto e fazem plantão na frente do centro de saúde. Usam megafones, levam maquetes dos fetos em diferentes estágios de formação. Independentemente de achar uma coisa ou outra, da minha opinião sobre o aborto, a coisa era muito chocante, meio louca, não dava pra acreditar muito bem que aquilo ali tava acontecendo. E como eu tava lá dentro e tinha que sair às vezes pra comer, elas me atacavam, não me deixavam em paz. “Convence a tua amiga a não abortar, ainda dá tempo. Porque Jesus te ama”. E a gente teve que ir dois dias nesse centro de saúde e foi muito trash. A situação é horrível, sabe, ninguém vai cantando fazer um aborto. Tu vai porque tu realmente não pode ter o filho, não tem condição de criar. E a partir dessa experiência, dessa interferência dessas mulheres – eram todas mulheres, não tinha homens…

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Foto: Renata Freitas

Entrevista com Renato Canini, cartunista responsável por criar histórias do Zé Carioca

Zé Carioca é um dos personagens da Disney, consagrado por ser representante do Brasil da maior mídia de entretenimento do mundo.

“Herdei o gosto de meu pai, que também tinha esse prazer. Ele me incentivava muito. Comecei com 10 anos de idade. Eu não tinha muito contato com gibis, cinemas, televisão, nem jornal.”

Foto: coletiva.net

Sabe de quem são essas palavras? Renato Canini, um dos cartunistas responsáveis por criar histórias para as revistas em quadrinho de Zé Carioca. Nesta entrevista você pode conhecer este gaúcho, que se considera pelotense e que tem orgulho de suas criações. Nascido em Paraí, na serra gaúcha, Canini foi condecorado, no dia 14 de outubro de 2005,  pela Câmara de Vereadores da cidade com o título de Cidadão Pelotense.

Como surgiu o personagem Zé Carioca?

O próprio Walt Disney, quando veio conhecer a América do Sul, criou o personagem como forma de homenagear o Rio de Janeiro. Outros personagens também foram criados para homenagear outros países, como o Mexico e seu personagem Panchito. A Disney nunca chegou a desenhar o Zé Carioca como ele era no Brasil. Na época em que foi criado, as HQ’s nos EUA não vendiam tão bem. Foi mais como forma de homenagem mesmo.

Qual o seu primeiro contato com o personagem Zé Carioca?

Morava em Porto Alegre. A minha vida vida profissional começou em 1957 na revista infantil Cacique da Secretaria de Educação e Cultura. Enquanto trabalhava, eu desenhava para outras editoras. Com 21 anos permaneci como concursado público fazendo desenhos técnicos de engenharia, mas no fundo não era isso que eu queria. Conjuntamente com isso, mandava meus desenhos a São Paulo para a chamada Imprensa Metodista. Depois veio um diretor de São Paulo dessa mesma imprensa e perguntou se eu nao queria ir para lá, substituir outro rapaz que havia ganhado uma bolsa para os Estados Unidos.

Esta oportunidade iria me abrir algumas portas, além da experiência que iria adquirir, então, aceitei. Ao passar por um banca de São Paulo, conheci a revista Recreio da editora Abril. A proposta me agradou. Apresentei meus desenhos e deu sorte de me aceitarem como desenhista. Naquele tempo era um sala bem grande, dividida em duas partes, a parte propriamente do pessoal da revista e a outra voltada para o pessoal que produzia desenhos da Disney para serem publicados pela Recreio. Eu não desenhava histórias em quadrinho, mas fui fazendo amizade.

Fiquei 2 anos em São Paulo querendo voltar a Porto Alegre, pois achava uma loucura o modo como levavam a vida. Entre uma conversa e outra, comecei a ter mais contato e logo surgiu a proposta de desenhar o Zé Carioca. Quando a saudade bateu, estava decidido a voltar para Porto Alegre. São Paulo se encarregava de distribuir os exemplares para o resto do brasil. Então, surgiu a oportunidade de mandar as histórias para eles. As histórias do Zé Carioca muito raramente saiam. Comecei a regularizar isso. Era uma rotina boa.

O Zé Carioca foi se moldando com o tempo. E isso se deve grande parte a você que foi lapidando o personagem, sendo considerado por muitos como o “Pai” do Zé Carioca. Como você vê esse processo?

(risos) Eu só ilustrava as histórias que mandavam de São Paulo. Eles roteirizavam e eu ilustrava. Então, retornava minhas criações para serem publicadas. Ficamos 6 anos nisso. A Disney criou o Zé Carioca com charuto, entre outras caracteristicas não muito brasileiras. Conforme o tempo passava eu ia mudando alguns traços sutis, e ia transformando outros adereços. Tentava torná-lo mais “brasileiro”. Colocava outros detalhes como campo de futebol, feijoada e morros, por exemplo. Depois desse tempo, veio a ironia do destino, uma ordem da Disney para me demitirem, pois estava fugindo da proposta inicial do personagem. Alegaram que eu não estava no padrão Disney exigido. Quando trabalhava na revista Recreio, tinha a liberdade de criar situações, mas quando veiculado com o nome Disney envolvido, tinha uma linha a ser seguida e me distanciei dela. Algo como uma “disciplina” e não podíamos fugir muito do que pediam.

Sem dúvida o Zé Carioca foi o personagem que mais me reconheceu como profissional, mas o que me dá orgulho mesmo são as minhas criações, meus filhos, por assim dizer (risos).

E quanto ao reconhecimento?

Hoje existe a internet e é muito mais fácil para veicular alguma informação. Na minha época não ficávamos muito conhecidos. Como eu não fui o criador do Zé Carioca, fiquei conhecido como mais um dos seus desenhistas. Mas ele nunca foi minha “criatura”.

Quais são os projetos futuros? Quais as ideias que você tem mente?

Não pode parar, né? (risos). Vamos ver até onde vai. Quando fui demitido, comecei a fazer outros trabalhos para outras editoras que não tinham mais nada a ver com o Zé Carioca. Hoje faço trabalhos próprios, como o Tibica que é um indiozinho, um personagem ecológico. Depois reuni todas as suas melhores histórias, melhorei os desenhos e mandei para editora Saraiva e ela os publicou. Projetos que envolvem Xilogravuras, também. E ainda livros infanto-juvenis.

Não pensa em fazer novas histórias do Zé?

Hoje em dia não. É tudo naquela continuidade. Vai do momento. Hoje não daria mais. A nova geração já está bem representada pelos profissionais que existem. O Maurício de Souza pegou todo mundo (risos). De todos os trabalhos o que mais me marcou foi o Zé Carioca. Comigo, todos os meses saiam histórias diferentes. Voltaram a me convidar para tentar desenhar novamente, mas não tenho interesse. “Tentar acertar a linha deles?” Eu tenho os meus traços e não vou me desfazer deles. Eu tinha meu jeito e pronto.

Curiosidades:

– As pessoas se identificaram com o Zé Carioca. Como o nome de Canini não saia nos créditos, outros recursos serviram para burlar esta regra como por exemplo: na casinha do Zé carioca Renato colocava remendos de madeira com o nome “Feijão Canini”; “Arroz Canini”. Era uma maneira que ele encontrava para colocar seu nome nas histórias e ter como provar sua autoria nas obras veiculadas.

– 30 anos depois a Disney americana queria homenagear os melhores desenhistas do mundo que ilustravam seus personagens. Brasil, Inglaterra, Estados unidos. Então, criaram o álbum especial “Mestre Disney”. Fizeram uma enquete com os leitores da editora Abril e escolheram Renato Canini como “melhor desenhista brasileiro”.

Renato: O que é uma ironia.

– Renato sempre gostou dos personagens da Disney. Hoje, ele não recebe royalts, embora suas histórias continuem sendo publicadas.

Entrevista realizada por:
Luiz Germano
Acadêmico do curso de Comunicação Social – Habilitação Jornalismo pela UCPel

Ana Mascarenhas grava entrevista no Cultiveler.TV

A cantora e compositora Ana Mascarenhas grava no próximo dia 8 de agosto, no estúdio de Victor Duarte, o CD Flor Palavra. Com ela gravam Egbert Parada, Fabrício Moura e Gil Soares. O CD tem seis canções com letra de Ana e músicas de Ricardo Fragoso e Cardo Peixoto. As demais têm letra e música da compositora pelotense. Os arranjos ficaram por conta de Egbert Parada.

Ana Mascarenhas gravou entrevista na redação do Cultiveler.com, que irá ao ar na Cultiveler.TV na sexta-feira (5). A letrista e compositora falou de sua trajetória em Pelotas, das influências musicais, parcerias, momentos inesquecíveis e etc.

Fonte: cultiveler.com

Sobre Cultiveler.com: Uma linha editorial que aponta para o universo cultural de Pelotas. Entretanto, outros assuntos também são tratados pelo Portal, cuja intenção é levar ao leitor informações assentadas na isenção e na fidelidade, as quais fomentarão críticas e as necessárias reflexões, indicando novos caminhos para que Pelotas se enxergue verdadeiramente.