Cláudia Tajes propõe um bate-papo sobre como é viver e escrever longe de casa

Dia 25 de abril, quarta, às 13h, na Biblioteca do Sicredi, acontece o evento intitulado ‘De Porto Alegre ao Rio de Janeiro’, que terá intérprete de libras.

Foto: Theo Tajes
Foto: Theo Tajes

Viver e escrever longe de casa, como é esta experiência para o escritor? Cláudia Tajes irá falar de forma descontraída com o público sobre seu trabalho, sobre situação atual no Rio de Janeiro e sobre sua própria rotina como escritora que vive e escreve longe de sua cidade natal. O bate-papo integra o projeto Quarta Cultural e será dia 25, quarta, às 13h, na Biblioteca do Sicredi.

Claudia Tajes nasceu em Porto Alegre e foi publicitária até 2010. Tem 12 livros publicados, entre eles ‘As Pernas de Úrsula’, ‘A Vida Sexual da Mulher Feia’, ‘Sangue Quente’ e ‘Dez (Quase) Amores + 10’. Atualmente vive no Rio de Janeiro e trabalha como roteirista na TV Globo, integrando a redação do programa Filhos da Pátria. Tem uma coluna semanal na revista Donna do jornal Zero Hora.

E segue em cartaz até dia 30 de abril no espaço a exposição ‘Sólido, líquido e gasoso’, de Emílio Speck, onde o fotógrafo busca, além da estética visual da paisagem, o vislumbre, através das cores e formas, da relação dos sentimentos humanos naturais e primitivos em conjunto com os elementos. Formado em Fotografia Artística e Fine Art pela Escola de Fotografia Artística – EFA, em Porto Alegre, cursou Fotografia e Fotojornalismo na UFRGS, participou do Workshop NIKON LIVE 2014 em Roma – Itália com Fabrizio Villa (Fotojornalismo) e Francesco Francia (Fashion). A mostra pode ser visitada entre 9h e 18h de segunda a sexta.

A Quarta Cultural é uma iniciativa do Sicredi em parceria com o Ministério da Cultura, por meio da Lei de Incentivo à Cultura. Todos os eventos do projeto são gratuitos e abertos ao público. As mostras podem ser visitadas em horário comercial, de segundas a sextas-feiras na Av. Assis Brasil, 3940 – térreo.

Quarta Cultural Sicredi – ‘De Porto Alegre ao Rio de Janeiro’, com Cláudia Tajes
Quando? 25 de abril, quarta, às 13h
Onde? Biblioteca do Sicredi – Av. Assis Brasil, 3940 – térreo. Porto Alegre
Entrada Franca

Produção: Liga Produção Cultural
Realização: Lei de Incentivo à Cultura – Ministério da Cultura
Apoio: Câmara Rio-Grandense do Livro

Fonte: Bebê Baumgarten Comunicação

 

Nomostase: festival de cinema, política e literatura em Pelotas

No próximo sábado, dia 07/04, Pelotas receberá o Nomostase: 1º Festival de Cinema, Política e Literatura, trazendo diversas atividades culturais, numa agenda que se estende das 14:00h até 01:00h, na Galeria Now. Entrada Franca.

A Nomos é uma Editora e Produtora independente que está chegando em Pelotas, após dar início aos seus trabalhos em Porto Alegre, há um ano. A ideia do evento, além de celebrar o lançamento oficial da empresa, é apresentar a identidade da Nomos, que se volta principalmente para projetos de conscientização política, incluindo pautas progressistas em defesa dos direitos humanos e da inclusão social.

Confira a programação do evento:
programação nomostase 1programação nomostase 2programação nomostase 3Evento no facebook: www.fb.com/events/190629768208348/
Site da Nomos: www.projetonomos.com

Casarão 8 tem livro para colorir disponibilizado para download grátis

O Laboratório de Educação para o Patrimônio (LEP), da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), está disponibilizando, para download gratuito, um livro de colorir.

A obra traz uma pequena mostra dos detalhes dos estuques dos forros do Casarão nº 8, da Praça Coronel Pedro Osório, de Pelotas. No local atualmente se localiza o Museu do Doce da UFPel.

museu do doce“Este livro vem para que o gesto de colorir aproxime de nossos olhos os belos exemplares de estuques em relevo do Museu do Doce”, destaca a coordenadora do LEP e organizadora da obra, professora Carla Gastaud. O livro foi desenvolvido pela equipe do LEP, que é um Laboratório de Ensino vinculado ao curso de Museologia do Instituto de Ciências Humanas da UFPel.

Baixe o livro gratuitamente aqui.

livro_colorirFonte: ccs2.ufpel.edu.br

Romeus – Crônica por Charlie Rayné

– Errado. Não é isto.
– Deixa eu ver… Comestível?
– Não. Errou, como sempre. Você sempre erra! Tapado!
– Tapado? E você é um espertalhão, Romeu!

Ele tirou da mochila um arsenal. Dentre os vários badulaques como camisinha, creme de rosto, chicletes e cadernos de aula, um pacote pequenino.
– Que bagulho pequeno!
– Dizem que nos menores embrulhos estão os melhores presentes.
– Não é aquele lance de frascos e perfumes que se diz?

Silêncio mortal. O rosto de Romeu escurece. Não foi por causa da famosa chatice dele em contrariar. Antes fosse. Era aquele barulho de sempre.
– O que foi?
– Ele chegou. Desembrulha isto de uma vez.
– Mas já?
– Não podemos esperar!

Diante dele aquele antídoto contra o mal que os cercava. Para a intolerância. Para a descrença no amor deles dois. Para chocar a humanidade mais próxima. Para cessar tudo.
– Calma. Estamos trancados. Comece primeiro!
– Eu? Por que eu?
– Porque você é mais velho. Porque você sugeriu este caminho…
– Por que você terá mais tempo para desistir?

Toc, toc. O outro bate, insistente. O outro brada, inconveniente como sempre:
– Abram a porta! Abram! Moleques!
– Vamos! Comece!
– Este troço é ruim para dedéu… Pronto! Agora é sua vez!
– Tire a roupa!
– E você? Não vai beber?

Ele bebe. Tira a roupa também. Um tum, tum, tum vai aumentando…
– Bando de imbecis! Abram esta porta! Vou arrombar.
– Eu sabia que quando eu me apaixonasse por outro alguém, igual a mim, seria assim. Que por mais que se fale em respeito às opções… Que por mais que se diga na televisão, na internet que não somos errados, aqui em casa nunca mudaria.
– Me beija?
– Eu te amo, sabia? E não consigo entender porque não posso te amar…
Beijo. Silêncio novamente. Sem toc, nem tum. Eles se beijam e se misturam.
– Falta de ar.
– Não sei se é nosso amor ou o efeito disto aqui.
– Pode ser os dois…
– A música! Põe a música!
– Onde fica o repeat?

No som, a música fala de um amor entre dois seres iguais também. Uma sirene brada forte e vai sumindo, sumindo, sumin… A música continua. Ela sempre continua.

Romeus – Crônica por Charlie Rayné

Receita de Sorriso Fatal… Crônica por Charlie Rayné

Era redonda. O espelho mostrava suas curvas disformes. As saliências da barriga a gargalharem dela. Um biscoito de chocolate. Outro. Mais outro. Mais outro. Ele chegaria em breve. Ele, de corpo harmonioso, de sorriso alongado.

Os cabelos arrumam-se como por encanto, o rosto rechonchudo enche-se de uma esperança doentia, impossível! Queria vê-lo, sentir aquele sorriso, mesmo sabendo que não passava de uma mera cortesia de cunhado.
A outra já estava no vestido azul, os cabelos de mel, trançados como numa foto de revista. A outra sempre suave, o rosto feito sob medida para ele.

– A carne já está pronta?
– Sim. Eu mesma preparei.
– Não é muito gorda, é?
– Não.

A carne é magra como a irmã. Tem um cheiro de temperos finos. Ao cortar, não oferece qualquer empecilho à faca e ao estômago: é macia, leve e suculenta. A faca desliza. A campainha toca. A carne estilhaça-se. O coração descompassa.

Ele e seu sorriso. A outra, feito uma hiena. Dois lábios feitos um para o outro. A outra a se exibir, a deixar que o vestido esvoace. As pernas delicadas de dama. Ele com o rosto lascivo, a contemplar, adivinhar o através do vestido azul.

A outra não cozinha. Não lava uma louça. A caçula da família. O estorvo que nasceu para matar a mãe. Papai sempre zeloso dela: a trazer bonequinhas para saciá-la, para sanar a sua orfandade. Ela a lavar, passar, varrer, cozinhar. Ela a consumir-se dos nervos, a engordar feito um animal prestes ao abate.

A mesa bem posta. A Carne em baixela de prata. A outra a pedir privacidade no Jantar. Ela a resignar-se e emitir um sorriso fatal. Uma receita venenosa de sorriso. Era a segunda vez que este sorriso vinha à tona: o primeiro nasceu de uma noite em que a outra havia despencado da bicicleta. Um alicate a cortar os freios e enfim o sorriso fatal – A sua bicicleta é a mais linda que já vi!

Ela sabia que quando aquele sorriso apontasse mais uma vez tudo seria diferente, que por mais que lutasse, estaria fadada ao descontrole. Sabia que este segundo sorriso não teria aquela ingenuidade da infância, que ele traria o tempero maturado de anos de humilhações. Sim, aquela força a serpentear sua razão, insistente feito à caixa de música da outra. A caixa de música cheia de jóias com a bailarina a deslizar suavemente. Papai nunca deu a ela um mimo daqueles, como se ela não merecesse a sutileza, a suavidade. Ela, repleta de bonecas de massa e de trapo, a outra a cantarolar diante da bailarina de porcelana branca:-Sua irmã merece este agrado, nem o peito da mãe teve!

A caixa de música aberta. A bailarina a deslizar ao som de um noturno de Chopin. A força e a música turvando-lhe os sentidos. Os dois a gargalharem, a trocarem juras, febris de tanto bem querer. E ela? O que era ela?

Tirar a mesa. Trazer a sobremesa e o licor. A irmã a rir de sua fisionomia cansada. Ela uma palhaça disforme. Outro sorriso, o terceiro. Um alarme mais que tardio de que era inevitável aceitar passiva, aquele ultraje.

O licor e uma lágrima doente de sal. Gotas, gotas, gotas, gotas de raiva! Outra lágrima e várias gotas, infindas gotas! O quarto sorriso, transfigurado em gargalhada sonora e assustadora. Uma gargalhada alongada como o sorriso dele…

O pranto veio depois, quando teve de tirar a mesa e levar os amantes para o descanso. Ficou ali, no meio dos dois, admirando-lhes as feições serenas, as faces saudáveis…
Beijou-lhes como se fossem as bonecas que não teve na infância. Contou-lhes suas incertezas, sua inadequação diante de um mundo de vaidades. Deitou no meio dos dois e fez com que os braços deles a enlaçassem. Era amada e protegida. Também estava pronta para dormir.

Receita de Sorriso Fatal… Crônica por Charlie Rayné

Filho Prodígio – Crônica por Charlie Rayné

Ele escuta uma música que fala de filho pródigo. O ônibus sacode, o coração treme, esperançoso por voltar àquela terra. A terra nos faz nascer, ela doa os primeiros encontros, o clima propício, as palavras comuns, a primeira bagagem. A mesma terra nos faz sofrer, posto que ela é palco das nossas tragédias mais íntimas, posto que nascemos dela e nascer é trágico.

Viagem intensa: Selva de Pedra-Interior. Sente uma dor deliciosa, dor de voltar ao obscuro ventre que o cuspiu no mundo. Não, não foi a terra tão sua que o cuspiu, foram as gentes! Mas o que são as gentes senão a terra com comunicação verbal?

O ônibus para. Nada a sua espera. Nada. Tomou o táxi sem saber para onde ir, sem nada mais saber. Sangue descontrolado na veia, frenético, sem saber para onde correr.
– O Senhor vai para onde? Senhor? Aonde Senhor?
Ele nem sabe. Parado no táxi, na cidade parada para ele. Ele não é mais dela? Pensou tanto, planejou tanto voltar que percebe que não há amigos nem sonhos de infância. Só gente duvidosa dele e ele mais duvidoso ainda de si e deles. Eles quem? Nem existiam mais ou existiam no interior do seu interior?
– O Senhor está se sentindo mal?
-Meu jovem, leve-me para aquele hospital, aquele antigo… Foi lá que eu nasci.

O taxista é jovem, não entende do que ele fala; o taxista não sabe que naquele cenário ele sorriu e chorou, às vezes, inúmeras vezes… O taxista desconhece os mortos dele, nada sabe de chão, ainda não. Ainda não é tempo.

Morrer onde nasceu. Ele tem o privilégio disto. Poucos podem planejar – a morte nem sempre avisa. Ele não, ele está ciente, ele recebeu este presente e futuro não existe mais.
Saudade e Raiva. Lembrança e vontade de esquecer.
Pára o táxi. Ele desce. O taxista cobra a corrida. Ele não quer pagar, mas paga. A cidade não o deveria indenizar os tempos injustos? O taxista é jovem, não entende de história, ainda não.
– Está vendo aquele prédio ali moço? Meu pai que fez e eu ajudei a construir.
O taxista sorri, inexpressivo. Ele fica ali, defronte do prédio e adiante não há mais. Outro carro, desgovernado desponta: apressado, engole o carro do taxista, que dança no céu e na terra pousa. Ele é velho, já viu muitas coisas, mas o jovem não verá! Aproxima-se do carro. Sangue vivo. Jovem morto? E o outro carro? Onde está?
O Hospital. Ele corre como se tivesse a energia de antes. Ele corre com a energia do rapaz que agora é velho, que agora é tarde demais. Transplante de vida?

O jovem nada mais pode fazer, mas ele pode ainda! Ele pode respirar o ar daquela noite triste e mágica. Ele pode ver aquela folha cair e levantar pela força do vento. A terra pode nos fazer nascer, morrer e nascer de novo- pensa.

Ambulância, gentes e sirenes. Ele se afasta, não quer saber de fim, mas de recomeço. A dor deliciosa do Filho Prodígio.

Filho Prodígio – Crônica por Charlie Rayné

A caixa de meu pai – Crônica por Charlie Rayné

Enquanto meu pai repousa num quarto de hospital, ouço seu ressonar suave- contraste da voz enérgica e militar de outrora. Os olhos marejados os do meu pai, quase do menino que fui um dia. Menino com medo de reprimenda severa, lágrimas antecipando a dor.

Ele nunca chora ou emite qualquer sinal de fraqueza, homem bronco, bruto, corpo rijo e alma indelicada. Um estranho conhecido. Sem nexo estar junto de um estranho que tem o mesmo sangue que corre em minhas veias. As enfermeiras alimentam de soro um homem acostumado a comidas apimentadas e vinhos de boa cepa.

O médico chega e diz irremediável o câncer que lhe consome. Ele ouve e numa majestade de general pede para ficar sozinho. Precisa de mim, penso. Eu fico. Ele ergue uma sobrancelha de superioridade e desdém. Eu fico mesmo assim.

Por entre hinos, baluartes, marchas e estandartes onipotentes, ele, agora impotente se dobra para a marcha inexorável da morte. Ele nada fala. Eu, tampouco. Zelo por aquele homem que um dia certamente me carregou no colo, me ensinou a plantar e pescar, me principiou nos deveres e direitos de um homem e me suplantou diante de tanta frieza. Sim, nunca um afago, um elogio sequer, jamais uma história para sonhar.

Marcha soldado, cabeça de papel…Sinto-me uma cabeça de papel, voando, voando sem pátria e lembro que nunca me senti importante. Nada que eu fizesse era digno de um sorriso.

Quem não marchar direito…Eu nunca marchava direito. Meus braços eram desengonçados, meu corpo era arqueado, eu não olhava com segurança, eu era uma criança presa no quartel do meu pai. Quando minha mãe morreu eu só lembro que meu pai mandou que eu rezasse um terço e não tocasse mais no nome dela.Ele se trancava no quarto e pelo buraco da fechadura eu o via escrevendo, escrevendo, escre…-Saia daí, menino!Curiosidade é coisa de mulher!

O quartel prendeu fogo. Nada a fazer mais. Nem lágrimas jorram. Ele fecha os olhos e só. Nem um grunhido, uma expressão fora do normal.Vai-se sem nada dizer. Fico ali, atônito… Volto àquela praça em que caio do balanço e fico a chorar… Ele não me ergue do chão, meus braços franzinos clamam por ele – Levanta menino! Quem cai, levanta!

Eu caio do balanço de novo sem um olhar, uma resposta, uma terna palavra. Levanta! Levanto de mim e saio porta afora, fugindo de um amor que nunca tive, chorando de raiva, voltando aos meus poucos anos, sentindo vergonha por acreditar que pudesse ser chamado ao menos de filho.

Dias depois uma caixa me chega. O remetente, meu pai. A caixa de meu pai, proibida e chaveada com rigor agora está vulnerável. Abro como embrulhos de natal, afoito. Cartas de todos os anos, todas as palavras nunca ditas, fotos amarelecidas que eu nunca vira num porta-retrato sequer. Engulo as palavras na eterna fome de infante desajeitado- Palavras feito migalhas de bolo espalhadas pela sala, pelos quartos! Peralta, leio trechos, junto fotos, beijo cartas, cheiro perfumes- Gargalho de felicidade!

Meu pai, um artista sensível, tão sensível que se refugiou na mesma armadura que lhe tragou a vida. Em cada pedaço um pedido de perdão, uma reflexão amorosa… Volto a mim- criança estirada no chão com seu quebra-cabeças montado- Levanta, menino! Quem cai, levanta!

Levanto confiante e abro outra porta. Meu filho dorme. Pousado sobre o criado-mudo um chapéu de soldado feito de jornal que eu fiz para brincarmos de marcha. Penso em quanta gente que desiste da felicidade para não demonstrar fraqueza. Penso nas entrelinhas que assumem o poder e não nos deixam dizer as coisas essenciais, penso no meu Pai… Dirijo-me até meu pequeno e lhe dou um abraço. Mais tarde ele vai acordar e vamos até a praça, vamos cantar marcha soldado e quando ele cair do balanço eu vou dizer, orgulhoso: – Estou indo, meu filho! Estou indo!

A caixa de meu pai – Crônica por Charlie Rayné

Lu Gastal lança o livro “Relicário de afetos” no Mercado Público em Pelotas

A arte do fazer a mão é a alma do livro Relicário de afetos, que Lu Gastal lança nesta segunda-feira(18), a partir das 18h, no pátio interno do charmoso Mercado Público de Pelotas.

Como já anuncia o texto da contracapa: “Este não é um livro de costura, de bordado, de culinária, fotos ou um resumo de dicas handmade: é um livro de amor”. Desta forma a artesã apresenta uma publicação singular, recheada de afetos e reminiscências, onde mescla desde textos autorais, fotografias inéditas e até receitas de peças artesanais.

Foto: Daniela Battastini
Foto: Daniela Battastini

O ato do fazer à mão, assim como a culinária, retornou com força total às atividades do mundo moderno. Ganhou força nos últimos anos, criando um mercado exclusivo para técnicas de costura, pintura, crochê, tricô, macramê, entre outros. Lu Gastal é uma das responsáveis por esta transformação. Para dar luz ao antigo sonho de traduzir sua trajetória em um livro, ela convocou o público a participar de um financiamento coletivo, através de uma criativa campanha de pré-venda. Os nomes dos parceiros estão nas páginas do seu Relicário de afetos, assim como as empresas que apoiaram esta verdadeira construção coletiva.

Editado pela Satolep Press, com projeto gráfico da Nativu Design, a publicação apresenta um design que remete a uma aconchegante viagem no tempo, passeando por 144 páginas recheadas de emoção. O livro estará à venda pelo preço de R$ 90,00 nas sessões de autógrafos e posteriormente será distribuído às livrarias. Para 2018 estão previstos lançamentos no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Belo Horizonte.

HISTÓRIA – Luciana Kaempf Gastal, a Lu Gastal, nasceu em Cachoeira do Sul, no ano de 1971. É formada em Direito pela Universidade Católica de Pelotas (UCPel) e na última década trocou o cotidiano burocrático pelo universo do mercado artesanal brasileiro. Artesã assumida, ela atua ministrando oficinas e participando de eventos em todo país. A autora foi pioneira na disseminação de informações para este segmento através das mídias sociais. No seu livro de estreia aborda o universo das suas experiências criativas.

Sessões de autógrafo
Relicário de afetos, de Lu Gastal
Quando? 18 de dezembro – segunda-feira
Hora? 18h
Onde? Pátio interno do Mercado Público​ de Pelotas RS
CAPA_FINAL_24nov.cdr
Fonte: Gabriela Mazza -Jornalista – MTb: 9838

Julieta e Julieta – Crônica por Charlie Rayné

Um disparate. Apaixonar-se por uma menina. Justo ela que era uma menina. Nunca fora daquelas que brincavam de carrinho e juntava-se aos meninos para jogar pelada. Antes, gostava das bonecas todas, gostava tanto delas que as admirava de forma estranha; beijava-lhes a boca, chamava-lhes de princesa.

Era admirada pelos meninos. Era delicada. Era inteligente.

Sentia arrepios quando roçava sua boca nas outras bocas fêmeas de mesmo hálito e textura. Quanta tontura lhe dava quando percebia que embaixo das saias havia prazeres iguais aos seus, odores particularmente femininos. Andava a suspirar enquanto os seios cresciam e queria ver seios já prontos, seios da mãe, das irmãs mais velhas, das primas.

Shakespeare. Romeu e Julieta. Era a peça do colégio. O Romeu era bonito, mas tinha cheiro de homem. Cheiro forte, intenso. Homens não lêem, não pensam, homens não falam de delicadezas, não sabem pôr a mesa, nem entender os altos e baixos da mulher!

Romeu era todo teso, encorpado. Olhos verdes, o Romeu, e jogava bola como ninguém. Ele se envolveu. Ela brincou de ser mulher e tascou-lhe um beijo. Um beijo de hálito quente e forte, um dinossauro a invadir a caverna forte, a língua dele uma hélice que ia do sul para o norte, sem leveza, sem nada!

A ama logo a despertou da tentativa vã. Era ensaio. E neste ensaio a vida dela seguia na constatação do que queria ser. A ama já sabia o que ela “ainda” já queria!

O ator Romeu queria mais beijo. Os homens querem sempre mais e invadem sem pedir licença. Ela, tensa, tentou fugir e acabou fugindo de si mesma. A ama já era amada…

Os pais fazem gosto. Rapaz bonito. Bom nome. Bom porte. Família de boa conta bancária.

Tanta pressão, tanto disparate. O espetáculo estrearia e junto com ele a hierarquia jurássica: Romeu e Julieta!

– Quero tocar em tuas tetas – Ele falou numa ânsia decisória. Falou das coxias, tocando em seus seios e coxas que nada sentiram.

Troglodita Romeu! Ela não é vaca! Não tem tetas, tem seios! Ela não tem dúvidas, tem certeza de que ele, de que eles nada entendem do corpo misterioso da mulher.

A apresentação começa. Romeu se desdobra em versos românticos. Ela é atriz neste momento, mas ama a ama. Pode avistar os pais, de olhos lacrimejantes, pedintes daquilo que ela não é!

A peça que se exploda! Abandona a atriz! Shakespeare que se revire no túmulo! Shakespeare que se choque! Julieta larga Romeu e tasca um beijo na ama. Escândalo na plateia. Que se dane a plateia! Que se danem as donas e madonas de todas as igrejas e séculos.

A mãe e as irmãs choram. O pai balança a cabeça. Romeu se faz pequeno, os músculos não servem para mais nada!

Abandonam o teatro as duas. Famílias antagônicas na vida real. Ficção e realidade se misturam. Romeu que vá procurar outra Julieta. Ela e Ela… Vão enfrentar a fúria do convencionado. Elas não vão morrer, não! Não vão fugir da natureza. Não dirão “não” uma para a outra. As estrelas não serão castas estrelas. Não haverá veneno. Sem Montechios e Capulettos. Serão Julieta e Julieta.

Julieta e Julieta – Crônica por Charlie Rayné
Originalmente publicado no livro Memorial de Amor Inquieto

Hilda Simões Lopes lança romance histórico em Porto Alegre e Pelotas

Em Tuiatã, a autora conta a trajetória secular de sua família, tendo por cenário a história do Brasil e do Rio Grande do Sul.

Hilda Simões Lopes, em seu mais recente romance histórico, narra a saga de sua família, que se inicia em 1720, acesa pela paixão entre um dragão oficial português e uma cigana. Tuiatã (Libretos, 560 páginas, R$58) foi construído através de longa pesquisa bibliográfica e documental de um sangue que viveu atrelado à história do Brasil desde a segunda década do século XVIII, e participou da ocupação, formação e defesa do território da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul.

capaTUIATA frenteNessa obra, a intrincada e caótica história dos brasileiros nas minas de ouro e diamantes no centro do país, e a presença da Inquisição com suas Cartas de Familiatura surgem como cenário a uma real e sofrida história de amor genuíno onde, para viver, é preciso fugir. E é nas quase desabitadas e perigosíssimas terras do extremo sul que o casal (um dragão enviado com as forças d´El Rei para colocar ordem nas terras brasileiras, e uma cigana expulsa de Portugal) encontra um lugar para viver e, em paz, construir sua família.

Revolucionários, políticos, poetas e pensadores cruzam-se, amam, sonham, morrem e lutam, enquanto as gerações se sucedem, a história é escrita e as memórias familiares são construídas entre guerras e revoluções. A formação social, econômica e política, do futuro estado do Rio Grande do Sul são contados através das paixões e tragédias de personagens verídicos, fortes, reflexivos, combativos e ao mesmo tempo sensíveis.

Tuiatã tem lançamento no dia 19 de outubro, quinta-feira, a partir das 18 horas, no Bistrô do Solar (Praça Marechal Deodoro, 148 – Centro Histórico), no Solar Palmeiro. O local, que pertenceu à família Carneiro da Fontoura (um dos ramos da árvore genealógica), foi cenário de uma das passagens do livro durante a Revolução Farroupilha.

Foto: Marco Nedeff
Foto: Marco Nedeff

Hilda Simões Lopes é natural de Pelotas, RS. Advogada e socióloga, foi professora universitária e pesquisadora da área social com foco em Sociologia do Desenvolvimento e Sociologia da Família. Tem oito livros publicados, sendo dois de Sociologia (um sobre delinquência juvenil e outro sobre a condição da mulher no Brasil) e ainda obra sobre criação literária. Na literatura, publicou dois romances, uma novela, um livro de crônicas e outro de contos. Ganhou o Prêmio Açorianos com o romance A Superfície das Águas (IEL, 1997) e foi finalista no mesmo prêmio com as crônicas Cuba: Casa de Boleros (AGE, 2000).
image002Fonte: Simone Lersch