
O teatro 7 de Abril, de Pelotas, é um clássico que pode e merece ser visitado com carinho e atenção. Grandes nomes passaram por ali. Portanto, não se furte de subir escadas e explorar corredores. Na casa da ilusão, tudo é permitido.
Silêncio nos bastidores, a ilusão vai zarpar!
Pendurado nos cordames, o eco se balança perigosamente no vazio sobre o palco. Não há atriz aqui, e se estão certas as histórias de fantasmas, almas penadas de atores secundários devem continuar seus ensaios quando a meia noite se espalha fria e implacável. Eles continuam buscando a entonação perfeita, o aplauso desenfreado, a glória. A glória! A glória, essa ingrata de todos os atores, fugaz, escurridiça, infiel. Cruel. Maldita, mesmo. Me debruço sobre a balaustrada que protege o espaço sobre os camarins e que dá acesso visual ao palco e aos holofotes. Escuto: um carro que passa longe, como se a porta do 7 de Abril ficasse há quilômetros; um rumorejar de asas. Um sabor de brisa que não ouço, adivinho, e sombras, muitas sombras.


E antes disso, explorei a platéia, sombria como se lá fora não fosse dia e a temperatura não lembrasse um forno. Depois o palco e por fim as coxías: onde o verdadeiro espetáculo acontece. Tudo acontece nas coxías! Elas são a interface onde realidade e ilusão se tocam, se fudem, se transformam uma na outra. Ah, quem não conhece as coxías de um espetáculo não sabe da sua grandeza! Imagina, adivinha, talvez, mas não a conhece de fato. Porque é nas coxías que atrizes se transformam em donas de casa pacatas, onde ladrões se despem para ser apenas um ator de segunda, onde o diretor sofre, os eletricistas fazem comentários cínicos e os contraregras suam. A bailarina amarra a tortura em forma de sapatilha no pé e pisa no palco transformada numa criatura de sonhos. O mágico faz o último ajuste com a ajudante. O palhaço seca a maquiagem delicamente, antes que escorra. O ator ateu se benze. O músico religioso pragueja pela última vez. E tudo isso, carregado de medo e desejo, e certeza, e dúvida, e coragem, e audácia, e poesia, tudo isso ecoa no teatro até agora, grudado nas cortinas vermelhas, uma umidade pegajosa que é puro pó.

Devagarito no más, empurro-as, desejando bom dia ao porteiro. Visita encerrada.
Na praça verde e quente, o sol se derrama, ouro e fogo sobre a cidade que encena seu espetáculo com perfeição todos os dias, os protagonistas de cada drama e comédia passando sem pressa rumo aos seus palcos pessoais.
Na praça, a vida e o sol,
Na praça, a glória!
Fonte: www.porteiradafantasia.blogspot.com
Blog da escritora e professora de dança, Simone Saueressig

Editor, gestor de conteúdo, fundador do ecult. Redator e pretenso escritor, autor do romance Três contra Todos. Produtor Cultural sempre que possível.