
Ao dar os primeiros passos dentro da Catedral de Pelotas, o padre italiano Francesco Trebisonda sentiu-se em casa. Através de seus óculos de aros redondos, observou com interesse os afrescos pintados por seu contemporâneo, Aldo Locatelli. Ao subir ao altar, olhou para cima e se viu diante da inscrição que circunda a cúpula: “Sancte Francisce Protege Ac Defende Hanc Civitatem”. O padre Francesco vestia o hábito da Ordem dos Mínimos, sandálias de couro marrom, e cobria o alto da cabeça com um solidéu. Apesar de manter uma expressão sóbria, acredito que se sentia feliz, pois estava conhecendo a única catedral do mundo dedicada a São Francisco de Paula.
Na manhã da terça-feira (25.mar), o padre Wilson Fernandes, pároco da Catedral de Pelotas, convidou jornalistas para acompanhar a chegada da comitiva italiana e o anúncio da Solene Celebração Eucarística de Geminação Espiritual entre Pelotas e a cidade de Paola, na Itália. “Quando tomei posse no ano passado, recebi uma mensagem do Padre Francesco saudando o início da nossa missão aqui na Catedral de Pelotas, cidade em que São Francisco de Paula é o padroeiro e que foi fundada em 7 de julho. Nessa mesma data, em 7 de julho de 1513, ocorreu a canonização de São Francisco de Paula, uma casualidade que estreita ainda mais os vínculos espirituais entre Paola e Pelotas”, disse o padre Wilson, em frente ao celular que transmitia ao vivo o anúncio nas redes sociais da instituição.
Acompanhava a comitiva italiana a delegada da Fondazione San Francesco da Paola Nel Mondo, Assunta Orlando, responsável por congregar os devotos. Assunta colaborou na pesquisa que descobriu, em 2010, que, em Pelotas, existe a única catedral do mundo dedicada a São Francisco de Paula. Foi incentivadora do pacto entre as duas cidades e veio a Pelotas para nomear dois novos arautos: “Confio muito nos milagres de São Francisco de Paula”, disse Assunta, com um sorriso afetuoso, demonstrando confiança na característica marcante do santo, pois – no quesito milagres, desde a juventude, Francisco de Paula já mostrava a que veio.
“Num certo dia, ainda frade-menino no convento de São Marcos, Francisco, que era responsável pela cozinha, colocou os alimentos na panela e não acendeu o carvão. Dirigiu-se à igreja, entrou em transe com a oração e se afastou da tarefa. O sacristão viu o fogão apagado, foi até o jovem e perguntou se tinha executado o seu dever. Francisco, sem titubear, disse que sim. Ao voltarem à cozinha, a refeição estava pronta.
Passado o período prodígio no convento, Francisco, ainda bem jovem, após uma viagem a Roma, ficou perturbado com as pompas da corte papal e sentiu intuição para fazer-se um eremita. Por consequência, rumou para uma caverna, onde viveu durante seis anos em penitência e contemplação de Deus.
Após esse momento de iluminação, criou o seu próprio mosteiro nos arredores de Paola. Durante a construção da edificação, pedras eram movidas com facilidade; pesadas árvores tornavam-se leves para serem carregadas; comida que mal daria para um homem alimentava muitos; trabalhadores chegavam doentes e se curavam. Tudo isso causava delírios nos habitantes da cidade, que testemunharam essas atividades.
Com o mosteiro erguido, Francisco deu origem à Ordem dos Mínimos.
Diante dessas inúmeras provas de santidade, estava um menino chamado Nicolau, que desejava ardentemente ser monge na ordem que Francisco havia acabado de fundar. No entanto, sua mãe, apegada ao filho, era totalmente contra. Afetado pela situação, Nicolau adoeceu e morreu. O corpo do menino foi levado a Francisco, que passou a noite em lágrimas e orações e conseguiu a sua ressurreição. Logo, experimentando um misto de desespero, felicidade e arrependimento, a mãe concedeu a Francisco que seu filho se dedicasse à vida religiosa.‘‘
Há uma quantidade de milagres extraordinários atribuídos a Francisco de Paula, porém, muitas dessas histórias incluem elementos lendários, que podem não corresponder a fatos verificáveis. Na Catedral de Pelotas, no entanto, Aldo Locatelli pintou os dois milagres mais propagados: “Milagre das Moedas na Corte de Fernando de Aragão em Nápoles’’ e “Travessia do Estreito de Messina’’, que se encontram sobre os vitrais das laterais do altar.
Ainda durante a coletiva de imprensa, as duas pinturas estavam ao alcance de nossos olhos e, inclinando a cabeça para a direita, vi a imagem de Francisco de Paula usando o seu manto como embarcação nas águas do mar Jônico. Portanto, já que a inscrição da cúpula afirma: “Santo Francisco Protege e Defende Esta Cidade’’, o que poderia acontecer no momento de geminação espiritual entre Pelotas e a cidade natal do seu padroeiro?



Choveu forte no fim da tarde do dia 27 de março. Ruas ficaram alagadas, e as pessoas encontraram alguma dificuldade no trânsito de volta para casa. Nessa mesma data, em 1416, nasceu Francisco de Paula. Em vista disso, a mesma chuva que assustou um pouco os moradores de Pelotas ajudou a refrescar a noite de celebração.
O cortejo dos padres entrou com passos tranquilos na Catedral, lotada de fiéis. As pessoas os acompanharam com o olhar atento, demonstrando expressões de felicidade e um tanto ansiosas para o início da cerimônia. Com o teto em formato de abóbada, a Catedral de Pelotas tem uma acústica poderosa e o entoar dos hinos cria uma experiência sonora imersiva. Esse efeito potencializa o valor das palavras e, como estávamos na igreja, essas eram as palavras de Deus.
Palavras que o Arcebispo Dom Jacinto Bergmann transmitiu para os fiéis reforçando o amor de Deus pela humanidade e, após a sua homilia, anunciou que seria aclamada a Carta de Geminação. Os sacerdotes desceram à frente do altar, o Padre Wilson Fernandes iniciou a leitura dos objetivos de cooperação: “As duas comunidades eclesiais das respectivas comunidades se comprometem a defender e promover o elevado valor da paz, definida pelo Santo como o tesouro mais precioso de todos os povos. Defender de todos os perigos e trabalhar na proteção do meio ambiente, da grande casa comum e, sobretudo, da natureza, lugar privilegiado para o Santo, onde se dedicava frequentemente à oração da cifra e ao leão de Deus. Reunir-se espiritualmente na oração, especialmente em todas as sextas-feiras, dia especial da paixão de Cristo e dia dedicado ao Padre Santo Francisco de Paula, que morreu para o Senhor na sexta-feira (em 2 de abril de 1507)”.
Assinaram a Carta de Geminação o Arcebispo Dom Jacinto Bergmann, os padres Francesco Trebisonda e Wilson Fernandes, nessa ordem. Então, os três seguraram a Carta de Geminação e a ergueram para a contemplação dos fiéis – ao meu lado, uma senhora passou os dedos nos olhos evitando que uma lágrima escorresse em seu rosto; mais à frente, um homem com as palmas das mãos unidas, em posição de oração, rezava uma prece. Os aplausos não foram tão fortes; as pessoas estavam exercendo gestos pessoais de espiritualidade diante da escritura que uniu a devoção a São Francisco de Paula às cidades de Pelotas e Paola. Foi um momento de fé, esperança e transcendência. Demonstrando que a relação do indivíduo com o divino é um momento que vai além das evidências racionais. Assim como disse Dom Jacinto em sua fala: “As coisas de Deus são reveladas aos simples e aos mínimos’’.
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Jornalista.
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